A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) concedeu autorização para a fabricação, no Brasil, de uma vacina contra a chikungunya desenvolvida pelo Instituto Butantan em parceria com a farmacêutica francesa Valneva. A decisão representa um avanço no processo de disponibilização do imunizante no país, embora ainda dependa de etapas adicionais antes da distribuição em larga escala.
O imunizante será produzido na unidade do Butantan em São Paulo, a partir da transferência de tecnologia firmada com a empresa europeia. A vacina já havia recebido aprovação anterior de autoridades internacionais, o que contribuiu para a análise regulatória no Brasil.

Segundo o instituto, a autorização abre caminho para que a produção nacional seja estruturada, com foco em atender à demanda interna e, futuramente, ao Sistema Único de Saúde (SUS). “Mais um marco importante para o Instituto Butantan e para a saúde da população. Ao executar a maior parte do processo de fabricação, o Instituto Butantan, por ser uma instituição pública, poderá entregar a vacina com um preço menor e mais acessível, com mais qualidade e segurança”, afirmou Esper Kallás, diretor do Instituto Butantan.
De acordo com os dados apresentados, a vacina foi testada em estudos clínicos publicados na revista científica The Lancet em 2023. Os resultados indicaram eficácia de 98,9% na indução de anticorpos neutralizantes, com manutenção dos níveis de proteção ao longo de seis meses após a aplicação.
Outro ponto destacado nos estudos foi o perfil de segurança do imunizante. Os eventos adversos relatados foram, em sua maioria, leves ou moderados, sendo os mais comuns dor de cabeça, dor no corpo, cansaço e febre. Em testes que incluíram mais de 4 mil pessoas entre 18 e 65 anos, não houve registro de efeitos graves relacionados à vacina.
A proposta é que o imunizante seja aplicado em dose única, o que pode facilitar a logística de vacinação e ampliar a cobertura populacional. A incorporação ao SUS ainda será analisada, mas a expectativa é que, uma vez disponível, a vacina possa ser distribuída inicialmente em regiões com maior incidência da doença.
Dados recentes apontam que a chikungunya segue como um problema de saúde pública no Brasil. O Ministério da Saúde tem registrado aumento de casos nos últimos anos, com impacto em diferentes regiões do país. Em 2023, por exemplo, foram contabilizados milhares de casos suspeitos e confirmados, com circulação do vírus em diversas localidades.
A doença é transmitida pela picada de mosquitos infectados, principalmente do gênero Aedes, o mesmo vetor da dengue e do zika vírus. Após a infecção, os sintomas podem surgir entre quatro e sete dias, incluindo febre alta, dores intensas nas articulações, dor muscular e fadiga.
A chikungunya pode se manifestar em diferentes fases. A fase aguda dura cerca de 5 a 14 dias, enquanto a fase subaguda pode se estender por até três meses. Em alguns casos, a doença evolui para a fase crônica, caracterizada por dores articulares persistentes que podem durar mais de 90 dias.
Especialistas apontam que a disponibilização de uma vacina pode contribuir para reduzir o impacto da doença, especialmente em áreas com alta circulação do vírus. A produção nacional também é vista como um fator relevante para ampliar o acesso e reduzir custos.
Ainda assim, autoridades reforçam que medidas de prevenção continuam sendo fundamentais, como o combate aos criadouros do mosquito transmissor e a adoção de práticas de proteção individual. O avanço na vacinação é considerado um complemento às ações já existentes no controle da doença.
Com a autorização da Anvisa, o Instituto Butantan passa a avançar nas etapas finais para viabilizar a produção em escala e, posteriormente, a distribuição do imunizante, que poderá integrar as políticas públicas de saúde no País.