A Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte (ALRN) lançou no último dia 10, durante audiência pública, sua nova campanha institucional focada no fortalecimento dos laços familiares e na escuta ativa entre gerações, especialmente durante a adolescência. A iniciativa visa incentivar o diálogo entre pais e filhos diante dos desafios contemporâneos, como as redes sociais e as rápidas transformações que marcam essa fase da vida.
O presidente da ALRN, deputado Ezequiel Ferreira (PSDB), propositor da iniciativa, pontuou a urgência do tema: “Falar sobre adolescência é uma necessidade urgente, especialmente diante dos desafios sociais, emocionais e digitais que os nossos jovens enfrentam atualmente. Esse debate, assim como a campanha, contribui para fortalecer as famílias, orientar políticas públicas e promover um ambiente mais seguro, acolhedor e preparado para ouvir e compreender essa geração”.

Ele enfatizou ainda o compromisso do Parlamento potiguar: “A Assembleia Legislativa tem o compromisso de colocar esse tema no centro das discussões e de apoiar ações que garantam proteção, escuta ativa e desenvolvimento saudável para os adolescentes do nosso estado”.
O deputado Hermano Morais (PV), presidente da Frente Parlamentar Estadual em Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente, destacou a importância de preservar valores familiares em meio às transformações tecnológicas. “Na informação, temos agora a inteligência artificial. Se por um lado isso é bom, trazendo mais acesso, também mais conhecimento, por outro lado está afastando as pessoas. E isso acontece também no seio familiar, que é a base da sociedade”.
Segundo Hermano, a relação pai-filho-família-amigos tem que ser preservada. “Eu acho que essa é a grande finalidade desta campanha, chamar a atenção da sociedade como um todo para a valorização da convivência humana a começar da casa da gente”.
Para o promotor Sasha Alves do Amaral, coordenador do Centro de Apoio Operacional às Promotorias de Justiça da Infância e Juventude do MPRN, o momento exige políticas públicas integradas e sensíveis às novas realidades. “Devemos garantir que os adolescentes tenham voz. Eles precisam ser ouvidos nas escolas, nas políticas públicas, nas famílias. Não podemos esquecer também daqueles que vivem institucionalizados ou em situação de risco. São vidas que também adoecem em silêncio”, alertou.
Tiffany Mourão, promotora de justiça e coordenadora do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), detalhou os riscos da exposição digital e da falta de preparo emocional para lidar com os perigos da internet. “São comuns casos de grooming, aliciamento online, cyberbullying e vazamento de imagens. É essencial que pais e responsáveis acompanhem de perto a vida digital dos adolescentes, conversem sobre riscos e mantenham canais abertos de diálogo”, recomendou. O projeto Arcanjo – premiado nacionalmente – também foi comentado pela promotora com destaque para a atuação do MPRN.
A audiência reuniu especialistas, representantes da sociedade civil, instituições educacionais e autoridades públicas para debater os desafios da adolescência, buscando fortalecer redes de apoio e subsidiar políticas públicas.
Ao longo dos últimos 10 anos, a Assembleia abordou temas como adoção, doação de órgãos, conscientização aos temas relacionados aos idosos, combate ao abuso infantil, conscientização do autismo, alienação parental, violência doméstica, doação de sangue; conscientização do Alzheimer, paz nas escolas, capacitismo e agora adolescência.
Campanha
Segundo Marília Rocha, diretora de Comunicação Institucional da Casa, a campanha é dividida em dois eixos de atuação. “O primeiro é voltado ao público adulto, com veiculação em mídias tradicionais e digitais. Já o segundo tem foco exclusivo nos adolescentes, com linguagem e formatos pensados especialmente para o ambiente online”, explicou.
A campanha tem materiais publicitários feitos pela agência Base Propaganda pensados para adolescentes e seus cuidadores. Entre as peças está uma cartilha informativa que oferece orientações práticas sobre como lidar com essa fase marcada por transformações físicas, emocionais, sociais e tecnológicas. A cartilha aborda temas como saúde mental, redes sociais, cyberbullying, limites saudáveis no uso de telas e escuta ativa.
Além disso, destaca o papel das famílias, das escolas e da sociedade na construção de vínculos afetivos e de proteção para os jovens. O material foi pensado para ser um guia acessível, direto e acolhedor, que fortaleça os laços familiares e promova um ambiente mais seguro e consciente para os adolescentes de hoje – a primeira geração inteiramente digital. Acesse a cartilha completa no site (al.rn.leg.br/documentos/Cartilha_Adolescencia.pdf) e acompanhe a campanha no perfil do Instagram @assembleiarn
“A internet hoje é o lugar mais perigoso que existe para adolescentes”
Débora Sampaio, psicóloga especialista em adolescência e dependência tecnológica, reforçou o papel social da campanha e apontou a complexidade do período e os riscos trazidos pela era digital. “Adolescentes com vício em jogos online, vício em apostas, em redes sociais… o ponto é que essa relação disfuncional vai trazendo prejuízos em uma etapa da vida tão importante”.
Sobre as transformações naturais da adolescência, ela destaca: “Adolescência tem muitas mudanças. Mudanças físicas que a puberdade traz, mudanças cerebrais, mudanças nos relacionamentos. Isso tudo é natural, é universal. Todos nós passamos por essa adolescência”. Mas lembra que a necessidade de pertencimento é fundamental. “O adolescente tem uma necessidade de se sentir pertencente, de ter amigos. Os amigos são fundamentais nessa fase, porque ele está deixando de depender emocionalmente dos pais”.
Débora chama a atenção para o momento crítico em que o cérebro está em processo de remodelação neuronal, o que abre uma “janela dos vícios” muito aberta nessa fase. “O cérebro está passando por um processo de corda neuronal, onde o que a gente estimula se fortalece, o que não é estimulado é descartado. Então, é uma fase realmente preciosa e que, infelizmente, muitos pais deixam de acompanhar. É onde mora o equívoco”, frisou.
Sobre o impacto da internet, a psicóloga é direta: “A internet hoje é o lugar mais perigoso que existe para adolescentes, tendo em vista os desafios perigosos da internet, as comunidades que incitam o ódio, a violência, a autodestrutividade”.
Ao falar dos sinais de alerta para ansiedade ou depressão, ela cita o isolamento como um dos principais: “Um sinal que a gente sempre olha é a questão do isolamento. Um adolescente que está isolado, que não se relaciona, que não tem amigos”. Ela enfatiza também mudanças no sono, falta de energia, perda de motivação e alterações de humor excessivas como pontos que merecem atenção dos pais: “Se é um adolescente que está muito agressivo, que está muito explosivo, a gente precisa acolher e buscar ajuda”.
Quanto ao acompanhamento parental da vida digital dos filhos, Débora defende: “Apesar de ser um problema digital, a solução ainda é analógica. É diálogo, é presença. A gente precisa ter um interesse genuíno pela vida online dos nossos filhos”. Ela completa, ressaltando que “os pais, às vezes, têm medo de abordar determinados temas com os adolescentes, achando que vão estimular. Porém, a partir do momento que eles têm acesso à internet, eles têm acesso a todo tipo de conteúdo. E o pior, de uma forma inadequada”.
Sobre a terapia para adolescentes, Débora destaca que ela não serve apenas para tratar doenças, mas como processo de autoconhecimento: “Um adolescente que tem a possibilidade de fazer terapia é maravilhoso, porque ele está ali se conhecendo, se descobrindo. A terapia não é só um processo de tratar doenças ou patologia, mas é um processo de autoconhecimento, e que pode ser muito válido”.
Para a médica hebiatra Thaís Suassuna (especialidade da saúde e desenvolvimento de adolescentes, entre 10 e 20 anos), a geração atual é muito digital e enfrenta problemas complexos, como violência entre adolescentes. O controle desse acesso ao mundo virtual não deve ser ditatorial, mas baseado em diálogo.
“A adolescência sempre foi uma geração vulnerável, mas essa parece estar mais do que as que conhecemos até então. Acho que a campanha vem exatamente para abrir esse diálogo tão importante para não perdermos tantos jovens como nós viemos perdendo. Nós precisamos, sim, educar pais e os próprios educadores, a escola em si, para aprender essas ferramentas que são necessárias”, pontuou.
Segundo dados da OMS, um em cada sete adolescentes sofre de algum transtorno mental, e o Ministério da Saúde aponta que as tentativas de suicídio entre jovens de 10 a 19 anos cresceram 25% em cinco anos no Brasil. Além disso, 10% dos adolescentes apresentam sintomas de transtornos alimentares, e 15% praticam autolesão, comportamento muitas vezes subnotificado.