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Caso Master

Advogado disse a Vorcaro que estava ‘infernizando juiz’ horas antes da primeira prisão do banqueiro

Relatório da PF indica que empresário recebeu informações internas sobre investigação
Redação
13/03/2026 | 18:26

Mensagens encontradas no telefone celular do banqueiro Daniel Vorcaro indicam que o então advogado dele, Walfrido Warde, entrou em contato direto com o juiz da 10ª Vara Federal de Brasília, Ricardo Leite, horas antes do cumprimento da primeira prisão do empresário, em 17 de novembro do ano passado. Em uma conversa enviada a Vorcaro às 18h08 daquele dia, Warde encaminhou imagens de mensagens trocadas com o magistrado e escreveu: “Estamos infernizando o cara”.

Os dados constam de relatório da Polícia Federal obtido pelo jornal Estadão, que teve acesso a registros do celular do dono do Banco Master. As informações também foram encaminhadas ao ministro do Supremo Tribunal Federal, André Mendonça, responsável por decretar a segunda prisão preventiva do empresário, cumprida na semana passada.

Advogado disse a Vorcaro que estava 'infeRio Grande do Norteizando juiz' horas antes da primeira prisão do banqueiro - Foto: Reprodução
Advogado disse a Vorcaro que estava 'infernizando juiz' horas antes da primeira prisão do banqueiro - Foto: Reprodução

Segundo a Polícia Federal, a sequência das conversas do dia da prisão e de semanas anteriores indica que Vorcaro teria obtido, por meios ilícitos, informações internas sobre procedimentos de fiscalização do Banco Central do Brasil e sobre um inquérito sigiloso que tramitava em Brasília. Para os investigadores, ele passou a atuar por meio do advogado para evitar a prisão e deixar o país. Na ocasião, o banqueiro foi detido quando embarcava em um voo para o exterior.

No relatório obtido pelo Estadão, a Polícia Federal afirmou: “Toda a dinâmica revela que Daniel Vorcaro tomou conhecimento prévio da futura operação policial, por meios ilícitos, seja através de servidores do BC, seja através de contato proveniente de Walfrido Warde. Então, passa a atuar em prol de sua defesa, visando frustrar a efetividade da atuação policial”.

Registros no celular apontam que, em 17 de outubro de 2025, servidores do Banco Central participaram de reunião com delegados da Polícia Federal para tratar da investigação sobre o Banco Master. Quatro dias depois, em 21 de outubro, Vorcaro anotou no telefone os nomes de todos os delegados que participaram do encontro e também registrou os nomes de procuradores do Ministério Público Federal envolvidos no caso.

Em outra anotação posterior, ele escreveu que havia recebido essas informações de seus “amigos no BC”.

No dia 16 de novembro, um dia antes da prisão, Vorcaro criou nova anotação com o nome do juiz Ricardo Leite e a pergunta: “Vocês são próximos?”. Para a Polícia Federal, essa mensagem teria sido preparada para envio no WhatsApp com visualização única, embora não tenha sido identificado o destinatário.

No relatório, os investigadores registraram: “O investigado pergunta a alguém, não identificado, se tal pessoa teria relação de proximidade (…). Como se tratava de inquérito sigiloso, a essa altura, no dia 16/11/2025, não haveria nenhuma razão ou meio lícito conhecido para que o alvo da investigação soubesse o nome e jurisdição”.

Na manhã do dia seguinte, às 7h28, Walfrido Warde enviou mensagem a Vorcaro perguntando se ele poderia falar por ligação telefônica “para tratar de assunto importante”. Após a conversa, o banqueiro pediu a uma secretária que cancelasse um compromisso: “Não marca mais a reunião porque agora mudei o roteiro”. Às 8h48, informou ao advogado que estava providenciando um voo para sair de São Paulo naquele mesmo dia.

Nas horas seguintes, Vorcaro comunicou ao advogado que faria um anúncio sobre a venda do Banco Master para o Grupo Fictor e disse que havia solicitado reunião urgente com o Banco Central para informar a operação. No comunicado sobre a transação, o banqueiro afirmou que o negócio era uma negociação privada “com players complementares e de alcance global”. Ele declarou: “O Banco Master, ao longo dos últimos meses, provou sua força e resiliência, superando desafios significativos”. Também afirmou: “Quem sairá ganhando serão os clientes”.

Para a Polícia Federal, a negociação teria sido construída apenas para justificar a saída do empresário do país.

Segundo os investigadores, Vorcaro conseguiu acessar o inquérito sigiloso que tramitava na 10ª Vara Federal de Brasília por meio de um esquema de hackeamento de sistemas. A informação sobre a Vara onde o processo corria foi publicada no site O Bastidor, dirigido pelo jornalista Diego Escotesguy.

Com base nessa publicação, Walfrido Warde enviou por e-mail uma petição à 10ª Vara Federal na tarde daquele dia. No documento, afirmou ao juiz que não seria necessário decretar “medidas cautelares” contra Vorcaro. A decisão de prisão já havia sido assinada pouco antes de o magistrado receber a petição.

Sem resposta, Warde tentou contato direto com o juiz Ricardo Leite. Às 18h08, enviou ao banqueiro imagens de uma conversa de WhatsApp com o magistrado. Na mensagem ao juiz, escreveu: “Tomo a liberdade de encaminhar essa informação que tem relação com o nosso pedido de audiência”. No registro enviado a Vorcaro não aparece resposta do magistrado.

Após encaminhar as imagens da conversa, o advogado escreveu ao cliente: “Estamos infernizando o cara”.

Em nota, o escritório Warde Advogados afirmou que advogou em favor de Daniel Vorcaro e do Banco Master “absolutamente dentro da lei”. O texto também afirma: “Jamais participou de atos de obtenção de dados cobertos pelo sigilo legal ou policial”.

A defesa de Vorcaro informou que “entende que não cabe comentar conteúdos que decorrem de vazamentos ilegais de material sigiloso”. Em nota, acrescentou: “Qualquer manifestação sobre informações obtidas dessa forma apenas reforçaria a disseminação de conteúdos cuja divulgação é, em si, objeto de apuração. Além disso, a comunicação entre cliente e advogado é protegida por prerrogativa legal e constitui garantia essencial do direito de defesa”.

A Polícia Federal deflagrou a operação no dia seguinte pela manhã. Antes disso, os investigadores monitoraram os deslocamentos do empresário e identificaram que ele seguia para um jatinho particular no Aeroporto Internacional de São Paulo-Guarulhos.

Vorcaro foi interceptado ao passar pelo raio-x do aeroporto e recebeu voz de prisão por volta das 22h.

Ele permaneceu preso por 11 dias e foi solto por decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região. Na decisão, a desembargadora Solange Salgado entendeu que a viagem ao exterior tinha justificativa e não representava tentativa de fuga.

Após análise dos novos elementos encontrados no celular do empresário, a Polícia Federal informou ao ministro André Mendonça que os diálogos reforçavam a suspeita inicial de fuga e justificavam a revisão da decisão do tribunal.

Nesta sexta-feira 13, a Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal formou maioria para manter a prisão preventiva do banqueiro.