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Agora RN Educação

Adoecimento mental afeta mais de 20% dos profissionais da educação em Natal

Pesquisa revela alto índice de afastamentos por ansiedade e depressão; especialista aponta sobrecarga, violência e falhas no processo de readaptação funcional
Fernando Azevêdo
04/10/2025 | 08:15

Uma pesquisa realizada em Natal apontou que mais de 20% dos profissionais da educação estão afastados ou em tratamento devido a doenças socioemocionais. O levantamento, conduzido pela equipe do vereador Daniell Rendall (Republicanos), ouviu mais de 3 mil trabalhadores das redes pública e privada e identificou a ansiedade e a depressão como as principais causas. 

A pesquisa ouviu professores, profissionais terceirizados, estagiários e prestadores de serviços na educação. O parlamentar apresentou o dado em entrevista à Central Agora RN, da TV Agora RN (YouTube), na última quarta-feira 1º. O levantamento também apontou para um nível expressivo de burnout, a síndrome de esgotamento profissional. 

Sala de aula vazia - Foto: José Aldenir/AGORA RN
Sala de aula vazia - Foto: José Aldenir/AGORA RN

Para Priscila Bezerril, psicóloga clínica e do trabalho, as causas do adoecimento socioemocional na educação são complexas e multifatoriais. Entre os problemas está a sobrecarga de trabalho, pois os professores costumam trabalhar em mais de uma escola e ter atividades extra, como preparar aulas e corrigir provas fora do horário regular. 

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Priscila Bezerril, psicóloga clínica e do trabalho – Foto: cedida

Além da carga de trabalho extra, Bezerril destaca a violência e os conflitos no ambiente escolar. “A agressividade que temos encontrado nos próprios alunos e o assédio dos pais com os professores são inenarráveis”, afirma. 

Essa constante hipervigilância, somada à precarização da estrutura e dos recursos e à pressão por resultados, especialmente na rede privada, cria um ambiente laboral propício ao esgotamento. Conflitos da vida pessoal e predisposições individuais também podem ser gatilhos para o adoecimento, diz a profissional. 

Além disso, de acordo com Rendall, a falta de acesso a momentos de lazer e autocuidado é uma das causas do problema. “Conversando com muitas dessas pessoas, a gente detectou que elas trabalham, trabalham, trabalham e não têm acesso ao autocuidado; não têm nenhum tipo de momento de lazer”, disse. 

Falhas na readaptação funcional

Quando um professor se afasta, ele pode passar por um processo de readaptação funcional, sendo realocado em setores como bibliotecas ou áreas administrativas. Contudo, Priscila Bezerril alerta que a falta de um acompanhamento adequado pode tornar o que deveria ser uma solução em um novo problema. 

“Normalmente, jogam o profissional em um setor e ele fica ali tendo que se virar. Muitas vezes, essa própria adaptação é um gatilho para adoecer novamente. Vira um círculo vicioso”, a psicóloga relata. 

Ela explica que um dos riscos psicossociais do trabalho é o profissional fazer algo que demande a menor de suas competências, que não lhe desafie como o trabalho original fazia. 

Para melhor lidar com essa situação, a psicóloga defende a criação de uma política pública. Ela sugere, por exemplo, um programa de saúde do trabalhador com acolhimento específico para os profissionais em readaptação, garantindo um retorno gradativo e assistido às suas funções. 

Quanto ao tempo entre o afastamento e o retorno ao trabalho, Bezerril afirma que isso depende de cada caso. Depende tanto da perícia quanto do regimento jurídico do profissional. 

O Ipern (Instituto de Previdência do Rio Grande do Norte), segundo ela, trabalha esse retorno com cautela. Já o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) tem burocracias e critérios rígidos, que podem atrasar ou mesmo negar o processo, obrigando o trabalhador a ajuizar essa situação para conseguir o direito. 

Ela também pondera que nem todos os profissionais têm condições de fazer psicoterapia particular ou acompanhamento psiquiátrico. Para Bezerril, são necessárias políticas públicas eficazes para a prevenção do adoecimento e o consequente afastamento dos profissionais da educação. 

Iniciativas buscam oferecer suporte e prevenção

Em resposta a esse cenário, o projeto ProFest oferece, durante o mês de outubro, uma programação de cultura, lazer e saúde para os profissionais da educação, com descontos em cinemas, teatros e restaurantes. A iniciativa também promove ações de saúde, como o “Estação Cuidar”, com atendimentos médicos gratuitos. 

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Vereador Daniell Rendall (Republicanos), em entrevista à TV Agora RN – Foto: José Aldenir/Agora RN

As ações foram detalhadas pelo vereador Daniell Rendall, que incentiva o projeto enquanto militante da educação. A proposta de uma política pública defendida pela psicóloga encontra eco em um projeto de lei de autoria do vereador, que aguarda sanção do prefeito Paulinho Freire (União). 

O texto institui o Programa de Desenvolvimento Socioemocional para Professores da Rede Pública, prevendo uma atuação conjunta das secretarias de Educação e Saúde para oferecer capacitações, apoio psicológico e espaços de acolhimento nas escolas, visando tanto a prevenção quanto o tratamento do problema. 

O objetivo, segundo Rendall, é também realizar um trabalho preventivo. A intenção é “falar mais sobre isso nas escolas e antecipar o problema dos que ainda não o têm, além de dar os encaminhamentos dos que possuem esse problema e que precisam se cuidar”. “Com autocuidado, com acesso bom à saúde, com busca pelo acesso à cultura e ao lazer, esses índices podem diminuir”

RN registrou mais de 8 mil afastamentos em 2024 

Em 2024, o Rio Grande do Norte registrou o afastamento de 8.043 profissionais do trabalho por questões de saúde mental, segundo dados do Ministério da Previdência Social. O dado inclui todas as profissões. 

No Brasil, mais de 150 mil professores da rede pública foram afastados de suas funções em 2023 por motivos relacionados à saúde mental, segundo levantamento da CNTE (Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação). O estudo, baseado em dados do INSS, aponta o esgotamento emocional como a principal causa, frequentemente diagnosticado como transtorno depressivo ou burnout. 

De acordo com dados recentes do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), mais de 62% dos professores da educação básica relataram, entre 2022 e 2023, sofrer com sintomas persistentes de estresse, ansiedade ou depressão. 

Em estudo da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a escola é classificada como um dos ambientes mais estressantes. O levantamento da Unicamp mostra que 72% dos docentes relatam já ter sentido sinais de esgotamento ou colapso mental.