BUSCAR
BUSCAR
Sotaque Potiguar

Poeta do forró, Dorgival Dantas defende preservação da cultura do Nordeste

Em entrevista ao AGORA RN, potiguar revisita a infância e as influências do rádio, comenta parcerias e destaca a importância de valorizar a música regional
Nathallya Macedo
30/09/2025 | 05:08

No sertão potiguar, em Olho-d’Água do Borges, nasceu um dos maiores nomes do forró contemporâneo. Cantor, sanfoneiro e compositor, Dorgival Dantas transformou lembranças da infância, ensinamentos do pai e referências da cultura nordestina em canções que hoje ecoam por todo o Brasil. Conhecido como o “poeta” do forró, ele conquistou tanto o público quanto colegas de profissão, que deram voz às suas composições e ampliaram ainda mais seu alcance.

Embaixador do Turismo do Rio Grande do Norte desde 2024, Dorgival reforça seu vínculo com as raízes. Para ele, cada acorde é também um gesto de gratidão à terra natal. “É o meu sangue, a minha terra”, resumiu. Entre lembranças do pai, homenagens a ícones como Elino Julião e projetos como a “Cidade do Forró”, ele mostra que sua trajetória vai além da música: é também uma missão de preservação cultural.

Dorgival Dantas é embaixador do Turismo do RN e reforça vínculo com as raízes - Foto: Luana Tayze
Dorgival Dantas é embaixador do Turismo do RN e reforça vínculo com as raízes. Foto: Luana Tayze

Nesta entrevista ao AGORA RN, Dorgival relembra as primeiras lições de sanfona, comenta os momentos mais marcantes da carreira, reflete sobre sua relação com a poesia e fala da honra de representar o Estado como embaixador – revelando a força de quem carrega o sertão dentro do peito e faz dele palco para o mundo.

AGORA RN – Seu pai foi seu primeiro professor de acordeon. Além da técnica, o que ele passou para você sobre a alma da música? Existe uma música, de uma história específica dessa época, que nunca saiu da sua mente?
Dorgival Dantas
– Ah, tem muita coisa, mas o meu pai realmente foi maravilhoso, um homem simples e alegre, até quando estava meio ali agoniadinho com a necessidade, mas era um homem de muita fé. Quando se trata de música, até hoje, quando chega o São João, canto aquela canção: ‘Ai, que saudades que eu sinto, das noites de São João’, eu canto ela e sempre lembro do meu pai. Muita coisa boa: acordando de madrugada, depois chamar ele para fazer um cafezinho. Deus não podia ter dado um pai melhor. Pouco tempo, 20 anos… isso é um buraco que nada nesse mundo tapa, é um curativo que eu troco todo santo dia.

AGORA RN – Qual foi o momento mais marcante do início da sua carreira?
Dorgival
– São tantas coisas… Mas quando eu fui tocar na minha cidade pela primeira vez, foi muito bom, mesmo sendo daquela “o santo de casa não faz milagre”, mas foi ótimo. Puxei o fole na minha cidade… E, se tivesse que citar um segundo momento seria a Cidade do Forró, porque aí vi que realmente deu certo, eu venci e continuo amando tudo aqui.

AGORA RN – Você é de Olho-d’Água. Como é que a sua cidade natal molda as letras de suas músicas?
Dorgival
– Eu acho tudo que começa com o rádio. Eu venho de uma época que a gente aprendia tudo no rádio. Você pegava uma música, podia levar um mês, dois ou três, dependendo da quantidade de vezes que ouvisse. Às vezes, pegava um pouquinho da letra ou do solo. Quando ouvia novamente, às vezes estava brincando, jogando bola, a música tocava, você pegava mais outra parte. Meu pai gostava de rádio, ou até uma radiola daquelas que tirava a tampa, um gravadorzinho com microfone pequenininho.

Isso já era um momento de grande evolução nos anos 1980. O rádio é muito importante, porque no rádio você ouvia tudo naquela época que emocionava a gente. Eu me acordava de madrugada para ouvir os programas de rádio que gostava, e ali ia conhecendo tudo. Aquelas canções iam entrando na cabeça para você um dia começar a compor. Até que meu pai disse: ‘faça música’. Ali ele já estava meio que ditando, já sabendo que estava perto da sua partida. E eu achava que meu pai não tinha me deixado nada, porque minha mãe teve que voltar para o interior, meu irmão… eu fiquei com minha irmã aqui na capital, em Natal, e eu disse: ‘poxa, pai não deixou uma casa para a gente, não deixou nem uma sanfona’. Isso foi bem difícil. Mas até um belo dia, eu estava gravando no estúdio, produzindo, tocando, compondo, e nesse belo dia eu me emocionei muito. Papai me deixou tudo, porque se não fosse ele eu não era sanfoneiro, não fazia música, não tocava. Então ele deixou tudo e mais um pouco.

AGORA RN – Outra grande feito foi a Cidade do Forró. Qual é a sensação de ter esse local transformado em patrimônio cultural do Rio Grande do Norte?
Dorgival
– Ali eu espero que consiga ser realmente compreendido ainda em vida, porque acho que aquilo só tende a crescer. Digo que, assim como tem a Disney para levar alegria à família, principalmente as crianças lá nos Estados Unidos, eu acho que no termo nordestino, a Cidade do Forró é um quadro maravilhoso, um canto divino na minha cidade. Isso é muita felicidade para mim e para o meu estado, o Rio Grande do Norte. E acredito que isso vai sendo compreendido na medida em que vai tendo visita. O Derradeiro de Maio já é uma alegria muito grande. Foi incrível como deu certo. Já dá até um pouquinho de medo de como vai ser no próximo ano, porque nos anteriores, eu fiquei pensando: ‘será que vem alguém?’. Foi uma luta muito grande. E em 2025 já não comportava os visitantes, e começa a preocupação para o próximo ano, porque está dando muito certo. Passa a ser mais do que eu imaginei. Uma vez papai disse: ‘a gente não toca no salão da nossa cidade porque ainda não é famoso’. Por isso que fiz o palco ali. É um lugar com muita história. Mamãe disse: ‘gostei de ter comprado isso aqui porque uma vez vim buscar um feixe de lenha aqui e mandaram eu soltar’. Tem muita coisa bacana.

AGORA RN – Você cita muito Elino Julião. O que exatamente a música dele representa para você?
Dorgival
– O Elino é de uma grandeza das maiores. Ele era realmente professor. Ensinar não é uma coisa fácil. Às vezes, a pessoa sabe muito, mas quando vai ensinar tem dificuldade. Ser professor é maravilhoso. Em matéria de compor, de cantar, ele tinha muito isso: cantar sotaqueado, e eu acho isso muito belo. Os arranjos belos, melodias que começavam menores e depois cresciam. Era para ter mais Elinos. Nós temos muita coisa boa no nosso estado e no nosso Nordeste, e espero que todos deem oportunidade. Às vezes tem uma pessoa boa demais naquilo que faz, mas não tem 10% da oportunidade que outros têm.

AGORA RN – Você é conhecido como “o poeta das canções”. Como é que surge uma canção para você?
Dorgival
– Ser poeta não é coisa fácil. Sempre admirei os violeiros, os emboladores de coco, todos aqueles que precisam de poesia. Elizeu Ventania, lá de Mossoró, eu tenho um sonho de um dia gravar só Elizeu Ventania, do meu jeito. É um sonho grande.

AGORA RN – Suas canções são interpretadas por outros artistas. Como você vê isso?
Dorgival
– É muito bacana, é muito bom. Eu nunca pedi a Deus para fazer sucesso eu mesmo cantando uma canção minha. Sempre agradeci por quem cantou e fez um bom sucesso. Vou chegando no palco e digo: ‘é minha’, e por aí vai. Recentemente eu estava no estúdio com o Fagner… você mesmo se belisca e diz: ‘isso é verdade, isso é fora do normal’. Com o Flávio José, poxa… Deus sabe da história. Dia desses eu estava em Recife gravando com Santana. É muito bacana.

AGORA RN – Você foi nomeado Embaixador do Turismo do RN. Como vê esse título?
Dorgival
– Olha, tudo que for para a minha cidade, tudo que for para o meu estado, onde eu puder somar com a minha sanfona, com a minha música, eu sempre vou ficar muito feliz. Até para que de um jeito ou de outro eu consiga ajudar, seja falando, mostrando ou orientando. Eu tive que sair daqui porque as portas realmente não estavam se abrindo. Fui muito bem abraçado no Ceará, tenho um título de cidadão cearense, um carinho, um respeito enorme. Mas é o meu estado, o meu sangue, a minha terra. Fiquei feliz. Foi somente realmente por amor. Eu adoraria que todos entendessem isso: que é só por amor, realmente a vontade de somar.

AGORA RN – Qual é uma música que marca a sua essência?
Dorgival
– Acho que o Flávio José gravou uma música minha. Eu tenho algumas que não são conhecidas, mas o Flávio gravou ‘Casa Velha de Sapê’. Ela passa uma mensagem simples, de quem não tem muito estudo, escolhendo as palavrinhas que conhece para falar de amor. Tenho um profundo respeito por essa canção.

AGORA RN – Qual é a dica para quem está começando agora?
Dorgival
– Se eu tivesse que voltar e fazer todo o percurso, não sei se eu conseguiria. Eu não sei nem se eu aceitaria a batalha. Mas hoje eu digo que valeu. Acho que quem estiver começando agora, a fé e Deus para mim são as primeiras coisas. A esperança de que vai dar certo tem que ter. E preparar as costas, preparar o lombo, o coração para tantas situações.