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Imunização

Vacina contra HPV fora do SUS para adultos esbarra no alto custo

Imunizante pode prevenir câncer de colo do útero, mas preço chega a cerca de R$ 3 mil
O Correio de Hoje
05/03/2026 | 15:46

Quando a vacina contra o HPV passou a ser oferecida pelo Sistema Único de Saúde (SUS), em 2014, a imunização era destinada a adolescentes dentro de uma faixa etária específica. Pessoas que estavam fora desse recorte, mesmo que por poucos anos, ficaram sem acesso gratuito ao imunizante e hoje precisam recorrer à rede privada, onde o esquema completo pode custar cerca de R$ 3 mil, conforme apuração da Folha de São Paulo.

O papilomavírus humano (HPV) é o principal responsável pelo câncer de colo do útero, doença que lidera as mortes por câncer entre mulheres com até 35 anos no Brasil, segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (Inca) referentes ao período de 2014 a 2024. A vacinação é considerada a forma mais eficaz de prevenção, sendo indicada para mulheres até os 45 anos. Entretanto, o preço elevado na rede particular restringe a cobertura para quem não se enquadra nas regras do SUS.

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Vacina contra HPV fora do SUS para adultos esbarra no alto custo - Foto: Rodrigo Nunes / Ministério da Saúde

Estimativas do Inca indicam que a incidência da doença pode crescer cerca de 14% até 2028, ultrapassando 19 mil novos casos anuais no país. O alerta ganha destaque especialmente em datas de conscientização sobre o vírus, como o Dia Internacional de Conscientização sobre o HPV, celebrado em 4 de março.

No sistema público, a vacinação começou voltada a meninas entre 9 e 13 anos e, posteriormente, foi ampliada para até 14 anos. O programa também passou a incluir grupos específicos, como pessoas imunossuprimidas, vítimas de violência sexual, pacientes com papilomatose respiratória recorrente e usuários de PrEP. Em uma estratégia recente para ampliar a cobertura, o Ministério da Saúde estendeu temporariamente a oferta para jovens de 15 a 19 anos até junho deste ano.

A vacina disponível no SUS é a quadrivalente, que protege contra quatro tipos do vírus, incluindo os dois principais associados ao câncer. Na rede privada, o imunizante aplicado é a versão nonavalente, capaz de proteger contra nove variantes do HPV, responsáveis por cerca de 90% dos casos relacionados à doença. Existem mais de 200 tipos do vírus, sendo pelo menos 14 considerados de alto risco oncogênico.

O preço da vacina nonavalente varia entre R$ 800 e R$ 1.000 por dose em clínicas e laboratórios do país. Para adultos, o esquema completo exige três aplicações, o que eleva o custo total para aproximadamente R$ 3 mil.

Profissionais de saúde relatam que o valor elevado costuma ser um obstáculo para a adesão de pacientes adultos. Mesmo em regiões urbanas de classe média, a decisão de pagar pelo imunizante muitas vezes compete com outras despesas prioritárias.

Há também casos em que pessoas diagnosticadas com HPV recorrem à vacinação posteriormente como estratégia de prevenção contra novos tipos do vírus e para reduzir o risco de recorrência da doença. Em algumas situações, a busca pelo imunizante exige deslocamento para cidades maiores, onde a vacina está disponível.

De acordo com o Ministério da Saúde, a definição da faixa etária atendida pelo SUS segue critérios técnicos, epidemiológicos e de sustentabilidade do programa. A justificativa central é que a vacina apresenta maior eficácia quando aplicada antes do início da vida sexual, período em que a resposta imunológica tende a ser mais robusta e a prevenção mais efetiva.

Mesmo assim, sociedades médicas defendem que adultos também podem se beneficiar da vacinação. Uma revisão de literatura publicada pela Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) destacou que existe uma geração de mulheres que chegou à idade adulta sem ter tido acesso à imunização.

O HPV não está associado apenas ao câncer de colo do útero. O vírus também pode causar tumores de pênis, canal anal e orofaringe. Em 2024, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) incluiu na bula da vacina nonavalente a indicação para prevenção do câncer de orofaringe.

Sociedades médicas têm defendido, em discussões com o Ministério da Saúde, a ampliação da vacinação no Programa Nacional de Imunizações (PNI) para grupos específicos, como mulheres submetidas a cirurgias para tratar lesões avançadas provocadas pelo HPV. Nesses casos, a imunização pode proteger contra variantes do vírus ainda não contraídas e ajudar a reduzir o risco de reaparecimento da doença.

Especialistas reconhecem, no entanto, que ampliar a vacinação para todos os adultos até 45 anos representaria um grande desafio financeiro e logístico para o sistema público, considerando o tamanho da população brasileira. Uma das alternativas discutidas é priorizar grupos com maior risco de complicações.

Mesmo com o custo elevado na rede privada, médicos ressaltam que a vacinação continua sendo uma estratégia importante de prevenção a longo prazo, já que estudos indicam que a proteção oferecida pelo imunizante pode durar pelo menos 15 anos.