BUSCAR
BUSCAR
Saúde

Sedentarismo atinge mais da metade dos brasileiros

Levantamento mostra índices maiores de sedentarismo entre mulheres, pessoas de baixa renda e moradores do Nordeste
Por O Correio de Hoje
30/04/2026 | 14:23

A percepção difundida nas redes sociais de que a prática de exercícios físicos faz parte da rotina da maioria das pessoas contrasta com a realidade observada no país. Levantamento recente da Genial Investimentos/Quaest aponta que mais da metade da população brasileira não realiza qualquer tipo de atividade física regular, evidenciando um cenário de baixa adesão mesmo diante da expansão da cultura “wellness” e da valorização do desempenho físico.

A pesquisa foi realizada entre os dias 6 e 9 de março, com 2.004 brasileiros de 16 anos ou mais, por meio de entrevistas presenciais em domicílio. A amostra foi estruturada para representar a população nacional, com margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos. Segundo os dados, apenas 47% dos entrevistados afirmam incluir exercícios em sua rotina.

pagina 11
Só 47% fazem exercícios regularmente - Foto: Freepik

Entre os que praticam alguma atividade, a frequência varia. Cerca de 13% disseram se exercitar diariamente, enquanto outros 13% relataram praticar exercícios “quase todos os dias”. Já 21% afirmaram realizar atividades físicas apenas em alguns dias da semana. Em contrapartida, 53% declararam não praticar qualquer tipo de exercício.

O percentual de sedentarismo é ainda mais elevado em determinados grupos. Na região Nordeste, 62% dos entrevistados não realizam atividade física. O índice também é maior entre mulheres (59%), pessoas com ensino fundamental completo (65%) e indivíduos com renda de até dois salários mínimos (64%). Faixas etárias entre 35 e 59 anos e pessoas com 60 anos ou mais também apresentam níveis elevados de inatividade, com 57% e 56%, respectivamente. Em contrapartida, os índices são menores entre pessoas com ensino superior (43%) e renda acima de cinco salários mínimos (38%).

Os resultados acompanham tendências identificadas em estudos anteriores. Dados da Vigitel, do Ministério da Saúde, indicam que, em 2024, 42,3% dos adultos nas capitais brasileiras praticavam atividade física, número superior ao registrado dez anos antes, quando o percentual era de 34,9%.

Para especialistas, os dados refletem fatores estruturais que vão além da decisão individual. O professor e presidente do Centro de Medicina do Estilo de Vida da Universidade de São Paulo (USP), Bruno Gualano, afirma que o acesso a condições adequadas influencia diretamente o comportamento da população.

“Há um discurso, sobretudo nas redes sociais, de que quem não faz exercício físico é preguiçoso. Mas a questão é muito mais de falta de acesso. A literatura científica mostra que o contexto, o ambiente, molda a adesão ao exercício. Se você mora numa região que tem parque, praça, mais iluminação, calçadas, a sua chance de ser ativo é maior. As condições de segurança, por exemplo, para se exercitar na rua, são ainda mais importantes no contexto do gênero.”

Na mesma linha, o professor Pedro Henrique Deon, da Escola de Ciências da Saúde e da Vida da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), aponta que a rotina da população também representa um obstáculo relevante. “No Brasil, isso aparece de forma ainda mais clara quando a gente vê que a prática é menor em grupos socialmente mais vulneráveis, como pessoas com menor escolaridade e menor renda. Então, não é só uma escolha individual.”

Ele acrescenta que o cotidiano de muitos brasileiros é marcado por limitações de tempo e excesso de cansaço. “No Brasil, isso aparece de forma ainda mais clara quando a gente vê que a prática é menor em grupos socialmente mais vulneráveis, como pessoas com menor escolaridade e menor renda. Então, não é só uma escolha individual.”

Em nível global, a inatividade física também é considerada um problema de saúde pública. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, cerca de 31% da população adulta mundial — o equivalente a 1,8 bilhão de pessoas — não atinge os níveis mínimos recomendados de atividade física. O índice cresceu cinco pontos percentuais entre 2010 e 2022.

A entidade recomenda que adultos pratiquem entre 150 e 300 minutos semanais de atividade física moderada, ou entre 75 e 150 minutos de exercícios de maior intensidade. Uma forma prática de avaliar a intensidade é observar a capacidade de manter uma conversa durante a atividade: se isso for possível, o exercício é considerado moderado. Caso a tendência de crescimento da inatividade se mantenha, a projeção é que, até 2030, 35% da população adulta mundial esteja fora dos níveis recomendados. O impacto econômico também preocupa: estima-se um custo anual de cerca de US$ 27 bilhões para sistemas de saúde entre 2020 e 2030.

Os efeitos da pandemia também são apontados como fator relevante na mudança de hábitos. Segundo Deon, houve maior conscientização sobre saúde e qualidade de vida, mas também um aumento do comportamento sedentário. “Depois da pandemia, houve uma mudança de comportamento no cuidado com a saúde. As pessoas passaram a falar mais sobre prevenção, qualidade de vida, saúde mental e bem-estar. Isso foi positivo. Só que, ao mesmo tempo, a pandemia também deixou uma herança de rotina mais sedentária, mais tempo sentado e mais dificuldade de retomar hábitos regulares.”