Uma análise conduzida por pesquisadores da Universidade de Cambridge indica que mulheres negras enfrentam maior risco de complicações durante a gravidez em razão de fatores socioambientais, como o racismo sistêmico e as desigualdades econômicas. Esses elementos, segundo o estudo, exercem impacto direto no funcionamento biológico do organismo, elevando a probabilidade de desfechos adversos.
O trabalho reuniu dados de 44 pesquisas e avaliou três mecanismos fisiológicos associados a complicações gestacionais: estresse oxidativo, inflamação e resistência vascular uteroplacentária. Os resultados mostram que mulheres negras apresentam níveis mais elevados nessas três dimensões, o que pode comprometer o desenvolvimento saudável da gestação.

Publicado na revista Trends in Endocrinology and Metabolism, o estudo busca compreender as razões por trás das desigualdades já observadas em indicadores de saúde materna. Entre os principais riscos associados estão a pré-eclâmpsia — condição que afeta entre 3% e 7% das gestantes —, o parto prematuro e restrições no crescimento fetal.
“A gravidez e o parto impõem um grande estresse ao corpo da mulher. Mulheres negras podem sofrer um estresse adicional devido a fatores como racismo sistêmico, desvantagem socioeconômica e estressores ambientais”, afirmou Grace Amedor, da Universidade de Cambridge e principal autora do estudo, ao jornal britânico The Guardian.
Segundo a pesquisadora, esses fatores externos interferem em processos biológicos fundamentais, aumentando a vulnerabilidade a complicações. “Fiquei surpresa ao descobrir que, embora essa disparidade fosse conhecida há muito tempo, havia pouca pesquisa sobre as possíveis razões fisiológicas subjacentes”, disse Amedor.
Entre os mecanismos identificados, o aumento da resistência vascular uteroplacentária se destaca por reduzir o fluxo sanguíneo até a placenta, comprometendo o fornecimento de nutrientes e oxigênio ao feto. Já o estresse oxidativo ocorre quando há acúmulo de moléculas nocivas, chamadas espécies reativas de oxigênio, que ultrapassam a capacidade de defesa antioxidante do organismo.
A inflamação elevada também aparece como fator relevante, estando associada a piores resultados gestacionais. A combinação desses três processos aumenta o risco de complicações que afetam tanto a saúde da gestante quanto a do bebê.
Os dados reforçam disparidades já documentadas em diferentes países. No Reino Unido, por exemplo, mulheres negras têm 2,7 vezes mais probabilidade de morrer durante o parto em comparação com mulheres brancas. Além disso, estão mais expostas a complicações graves e a transtornos mentais no período perinatal.