A obra de Nelson Rodrigues retorna aos palcos por meio do monólogo Nelson Rodrigues – O passado sempre tem razão, que estreia no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro. Longe de uma narrativa biográfica tradicional, a montagem propõe um mergulho no universo intelectual do dramaturgo, explorando suas contradições, provocações e reflexões sobre a sociedade brasileira.
O espetáculo traz Bruce Gomlevsky no papel do escritor, em uma construção que percorre memórias, frases marcantes e ideias que seguem dialogando com o presente. A proposta se afasta da linearidade cronológica e busca revelar diferentes camadas do autor, conhecido por sua visão crítica e, muitas vezes, controversa.

Segundo o diretor e dramaturgo Carlos Jardim, o objetivo da montagem não é recontar a trajetória de Nelson Rodrigues de forma convencional, mas investigar o que existe por trás das classificações atribuídas ao autor ao longo do tempo. Para isso, ele se dedicou por meses ao estudo de textos, entrevistas e peças do escritor.
“Acho que Nelson odiaria ser compreendido”, diz Carlos Jardim. “O válido, para ele, sempre foi jogar verdades na cara de uma sociedade hipócrita. Machista, autodeclarado reacionário, fascinado pelo escândalo… Que Nelson, afinal, cada um vê? Num momento em que as pessoas se arvoram em certezas nas redes sociais, ouvir sua voz desconcertante e cortante é fundamental, especialmente em ano de eleição, com a forte pegada política que a obra dele tem.”
A dramaturgia é estruturada de forma não linear, como se o próprio Nelson Rodrigues narrasse sua história em espiral, entrelaçando pensamentos e opiniões sobre temas diversos. O texto incorpora frases emblemáticas que evidenciam a permanência de suas ideias no debate contemporâneo. Em determinado momento, o personagem afirma: “Estados Unidos e Rússia estão brigando para ver quem vai acabar com o mundo primeiro.” Em outro trecho, diz: “No Rio de Janeiro há de tudo e até cariocas.” E ainda: “Por enquanto, o ser humano é apenas um projeto sempre adiado.”
Sozinho em cena, Bruce Gomlevsky conduz o espetáculo a partir das ideias e observações do dramaturgo, destacando a forma como Nelson Rodrigues explorava as complexidades humanas.
“O que o público vai ver é uma grande viagem pelo pensamento do escritor”, afirma o ator. “O que Nelson produziu é muito pertinente para os dias de hoje, e isso é impressionante. Há frases que parecem ter sido escritas ontem ou hoje. Ele conseguiu radiografar a alma humana como ninguém. É como se tivesse enxergado o ser humano em sua dimensão mítica, extraindo poesia do cotidiano e provocando um riso incômodo entre as plateias.”
Esta é a terceira vez que Bruce Gomlevsky interpreta uma figura central da cultura brasileira nos palcos. O ator já havia protagonizado montagens sobre Renato Russo e Raul Seixas, além de ter interpretado o jornalista Henfil no cinema.
O espetáculo sobre Renato Russo, inclusive, marcou sua carreira e segue em atividade há duas décadas. “Nunca imaginei que fosse ficar 20 anos em cartaz. Hoje em dia a gente já faz festa se consegue ficar três meses com uma peça num teatro… Imagina duas décadas! É realmente um feito. Daquelas coisas que acontecem uma vez na vida e outra na morte”, afirma.
Segundo o ator, há um elemento comum entre os artistas que interpretou: a capacidade de provocar o público. “A depender da minha vontade, pretendo fazer Raul Seixas, Renato Russo e também Nelson Rodrigues por muitos e muitos anos. E o interessante é que todos esses três caras cultivaram uma qualidade transgressora em suas obras. A intenção deles não era agradar ninguém. Todos viam na arte uma maneira de mexer com as plateias.”
Além do monólogo, Bruce Gomlevsky mantém outros projetos em andamento. O ator pretende retomar ainda este ano a montagem de Hamlet, pela Companhia de Teatro Esplendor, que dirige há mais de uma década. Ele também integra o elenco do filme Deus ainda é brasileiro, último trabalho do cineasta Cacá Diegues, com estreia prevista para agosto.
“Trabalho em três turnos: manhã, tarde e noite”, diz o ator, ao comentar a rotina. “É uma batalha furiosa entrar em cartaz. Estou sempre tentando fazer com que minhas produções durem o máximo possível. Não quero montar uma peça para ficar dois meses num teatro e depois enterrá-la.”
A montagem sobre Nelson Rodrigues reforça a permanência do autor no imaginário cultural brasileiro, ao mesmo tempo em que propõe uma releitura de suas ideias à luz das tensões e debates contemporâneos.