A chamada medicina da longevidade, também conhecida como geromedicina, tem ganhado espaço nos últimos anos impulsionada pelo interesse crescente em envelhecer com mais qualidade de vida. No entanto, o avanço da área ocorre em meio a lacunas regulatórias, ausência de certificação formal e uma combinação de práticas que vão desde abordagens preventivas até tratamentos sem comprovação científica.
Atualmente, não há diretrizes oficiais consolidadas nem exigência de especialização específica para atuação na área, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil. Na prática, médicos de diferentes formações podem se apresentar como especialistas em longevidade, fenômeno que se intensificou com a popularização de conteúdos nas redes sociais. Nesse cenário, coexistem profissionais que atuam com base em evidências científicas e clínicas que oferecem produtos e procedimentos com respaldo limitado.

Para o presidente da American Medical Association, Bobby Mukkamala, a área exige análise criteriosa. A medicina da longevidade “exige muito escrutínio”, afirma. Segundo ele, é necessário questionar se os tratamentos oferecidos “se baseiam em algo realmente comprovado para funcionar ou em algo que ainda não foi demonstrado?”.
Entre os defensores da área, a proposta central é ampliar o foco na prevenção de doenças e na personalização do cuidado médico. Em sua melhor aplicação, segundo especialistas, a medicina da longevidade oferece mais tempo de consulta, acompanhamento detalhado e planos adaptados ao perfil individual do paciente.
“Acho que, no melhor cenário, a medicina da longevidade é aquilo que a boa medicina sempre aspirou a ser, mas raramente teve ferramentas para entregar”, afirma Jordan Shlain, fundador da clínica Private Medical.
O atendimento costuma começar com avaliações extensas, que podem incluir testes de condicionamento físico, exames laboratoriais, sequenciamento genético e exames de imagem corporal. Parte desses exames já faz parte da rotina da atenção primária, enquanto outros, como testes de lipoproteína(a) e apolipoproteína B — ligados ao risco cardiovascular — vêm sendo incorporados com maior frequência.
A lógica adotada por essas clínicas é antecipar riscos e agir antes do surgimento de doenças. “Quando pensamos na atenção primária hoje, ainda reagimos a informações que são, digamos, depois do fato”, diz Nicole Sirotin, diretora executiva do Institute for Healthier Living Abu Dabi.
Como exemplo, ela cita o controle da glicose. Enquanto na medicina tradicional intervenções mais intensas costumam ocorrer apenas quando há diagnóstico de pré-diabetes, na abordagem da longevidade medidas podem ser adotadas antes disso, ao identificar tendências de elevação.
Essa visão também é compartilhada por Andrea Maier, codiretora da Academy for Healthy Longevity, da National University of Singapore. “Queremos que pessoas normais se tornem ideais”, afirma. Para ela, agir preventivamente é fundamental: “em dez anos é muito provável que você esteja fora do normal, então por que esperar?”.
Apesar das propostas, especialistas apontam que ainda há pouca evidência de que a personalização oferecida pela medicina da longevidade resulte em desfechos superiores aos obtidos com diretrizes médicas tradicionais. Recomendações como alimentação equilibrada, prática de exercícios físicos e sono adequado continuam sendo pilares reconhecidos, independentemente da abordagem.
Outro ponto relevante é o custo. Os serviços frequentemente não são cobertos por planos de saúde e podem variar desde pagamentos por consulta até assinaturas anuais que chegam a valores elevados, na faixa de cinco ou seis dígitos em dólar.
Para a nutricionista Jessica Knurick, crítica da área, parte do valor pago está relacionado à experiência de atendimento. “Na atenção primária, eles precisam atender você de 10 a 15 minutos e já encaminhar para o próximo”, afirma. Já em serviços de alto custo, “mesmo que façam exatamente a mesma coisa, a experiência será completamente diferente”.
James Kirkland, diretor do Center for Advanced Gerotherapeutics at Cedars-Sinai, também aponta limites atuais. Segundo ele, ainda não existe “muito” em termos de resultados que não possam ser alcançados com uma boa atenção primária. Ao mesmo tempo, demonstra expectativa com avanços futuros, mas ressalta que “há muita coisa sendo feita hoje que é arriscada e baseada em pouca evidência”.
A ausência de regulamentação clara abre espaço para práticas questionáveis e, em alguns casos, perigosas. Clínicas têm oferecido tratamentos como uso de peptídeos, terapias com células-tronco e procedimentos de troca de plasma, muitas vezes sem comprovação científica robusta.
“Já tivemos pessoas que morreram por causa de células-tronco e outras que tiveram reações tóxicas graves por infusões de diferentes peptídeos”, alerta Evelyne Bischof, diretora médica do Sheba Longevity Center. “Há riscos e danos.”
Testes amplamente divulgados, como os de idade biológica, também são alvo de críticas. Para Kirkland, eles têm utilidade limitada. “Eles são úteis em nível populacional”, afirma. “Mas há enorme variação entre indivíduos de um dia para o outro.”
Mesmo terapias em estudo, como suplementos ou medicamentos utilizados fora das indicações tradicionais, ainda carecem de comprovação em humanos, embora apresentem resultados iniciais em pesquisas experimentais.
Jordan Shlain resume as críticas ao modelo atual: “A medicina da longevidade pode ser um pouco de charlatanismo reembalado”. Segundo ele, “os biomarcadores dão um verniz de rigor, os suplementos geram receita, e o paciente não ganha nem longevidade nem conversas honestas.”
Apesar das controvérsias, há iniciativas em andamento para estruturar e validar a área. Pesquisas clínicas e tentativas de regulamentação em diferentes países buscam estabelecer padrões e desenvolver terapias capazes de atuar diretamente nos mecanismos do envelhecimento.
Eric Verdin, presidente e CEO do Buck Institute for Research on Aging, avalia que a área ainda está em estágio inicial, mas com potencial de evolução. “De certa forma, a geromedicina hoje é um campo sem medicamentos específicos — mas eles virão”, afirma. Ao mesmo tempo, pondera: “Mas talvez estejamos um pouco adiantados demais em relação à nossa visão.”
O debate em torno da medicina da longevidade, portanto, segue dividido entre expectativas de avanço científico e preocupações com práticas sem comprovação, em um cenário que ainda busca equilíbrio entre inovação, segurança e acesso.