BUSCAR
BUSCAR
Futebol

Documentário revisita trajetória de Zico entre futebol, desafios e vida pessoal

‘Zico, o Samurai de Quintino’ aborda carreira do ex-jogador e episódios marcantes dentro e fora dos gramados
Por O Correio de Hoje
30/04/2026 | 15:00

A trajetória de Zico ganha novo retrato no documentário Zico, o Samurai de Quintino, dirigido por João Wainer. A produção chega aos cinemas explorando não apenas os feitos esportivos do ex-jogador, mas também os obstáculos enfrentados ao longo da carreira, apresentados como etapas de superação que ajudaram a moldar sua história.

Um dos episódios abordados no filme trata de um momento decisivo ainda no início de sua trajetória. O então jovem atleta teve sua profissionalização retardada com a expectativa de ser convocado para a seleção juvenil. A inclusão, segundo relatos, havia sido prometida pelo técnico. No entanto, seu nome não apareceu na lista final. O contexto histórico ajuda a explicar o episódio: durante o período da Ditadura Militar no Brasil, um de seus irmãos havia sido alvo da polícia política, o que pode ter influenciado a decisão. A ausência da convocação surge, assim, como um dos primeiros obstáculos enfrentados pelo jogador.

zico
Doc sobre Zico vai além dos títulos e mostra desafios que ajudaram a construir carreira - Foto: Reprodução

O documentário também percorre a carreira consolidada de Zico, marcada por passagens em poucos clubes, mas com grande impacto. Revelado nas categorias de base do Clube de Regatas do Flamengo entre 1967 e 1971, o atleta construiu sua principal trajetória no clube carioca, onde atuou até 1983. Em seguida, transferiu-se para a Udinese Calcio, na Itália, antes de retornar ao Clube de Regatas do Flamengo, onde permaneceu entre 1985 e 1989.

Posteriormente, seguiu para o futebol japonês, atuando pelo Kashima Antlers. A experiência internacional não se limitou aos gramados: após encerrar a carreira como jogador, Zico passou a atuar como treinador em países como Turquia, Grécia, Rússia, Iraque, Catar e Índia, retornando mais tarde ao Japão.

O filme também contextualiza a transformação do futebol brasileiro ao longo das décadas. Diferentemente de gerações mais recentes, em que atletas deixam o país ainda muito jovens, Zico construiu boa parte de sua carreira no Brasil, consolidando sua imagem no Clube de Regatas do Flamengo antes de atuar no exterior.

Além da trajetória esportiva, a produção dedica espaço à vida pessoal do ex-jogador. O documentário mostra um perfil familiar e estável, destacando o casamento duradouro com Sandra, companheira desde a adolescência, com quem teve três filhos. A celebração das bodas de ouro do casal é retratada, assim como momentos do cotidiano, incluindo a convivência com netos.

O filme também reforça a imagem de Zico como uma figura acessível e distante do comportamento frequentemente associado a ídolos do esporte. Descrito como alguém modesto e atencioso com fãs, o ex-jogador é apresentado como uma exceção em meio a um cenário em que atletas, muitas vezes, são vistos como distantes do público.

A narrativa dialoga com a ideia de que a carreira do atleta foi construída a partir do equilíbrio entre rigor e talento. Essa dualidade já havia sido explorada em produções anteriores, como o filme infantil Uma Aventura do Zico (1999), que apresenta uma versão fictícia do jogador com duas personalidades distintas: uma disciplinada e estratégica, e outra criativa e espontânea.

Na ocasião, o próprio Zico comentou essa característica: “Sou uma mistura dos dois, porque todo mundo tem de ter um lado lúdico, mas também precisa ser disciplinado”.

Zico, o Samurai de Quintino não é o primeiro trabalho audiovisual dedicado ao ex-jogador. O documentário Zico (2002), dirigido por Elizeu Ewald, também abordou sua trajetória, utilizando recursos ficcionais para reconstruir momentos sem registro em imagens. Assim como outras produções sobre grandes nomes do futebol, esses trabalhos frequentemente incorporam elementos dramáticos para narrar a carreira dos atletas.

A presença do futebol no cinema brasileiro é ampla e inclui títulos considerados referenciais, como Garrincha, Alegria do Povo (1962), de Joaquim Pedro de Andrade, e Subterrâneos do Futebol (1965), de Maurice Capovilla. Outros nomes do esporte também foram retratados em produções audiovisuais, incluindo Pelé, Ademir da Guia e Afonsinho.

Mais recentemente, plataformas de streaming passaram a investir em séries documentais sobre jogadores contemporâneos, como Neymar, Adriano e Ronaldinho Gaúcho. Diferentemente dos longas tradicionais, essas produções seriadas costumam explorar com mais profundidade as contradições e complexidades dos personagens.

Ao revisitar a história de Zico, o documentário reforça o interesse contínuo do cinema por figuras do futebol. Mais do que exaltar conquistas, essas produções também têm buscado apresentar os atletas em sua dimensão humana, evidenciando fragilidades, desafios e contextos históricos.

Nesse sentido, a narrativa sugere que, embora sejam frequentemente tratados como heróis, os ídolos do esporte não precisam mais carregar a imagem de perfeição absoluta — uma abordagem que amplia as possibilidades de representação e aproxima o público dessas trajetórias.