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Saúde

Sedentarismo causa cinco milhões de mortes por ano no mundo

Estudos indicam que metas globais de atividade física não são cumpridas e desigualdades sociais dificultam mudanças
Por O Correio de Hoje
10/03/2026 | 08:49

Praticar atividade física regularmente é fundamental para a saúde. Exercícios ajudam a fortalecer o sistema imunológico, reduzir o risco de doenças infecciosas, aliviar sintomas de depressão e até melhorar a resposta a tratamentos contra o câncer. Apesar desses benefícios amplamente reconhecidos, grande parte da população mundial permanece sedentária — cenário que praticamente não mudou nas últimas duas décadas.

Três estudos recentes publicados nas revistas científicas Nature Medicine e Nature Health apontam que os esforços globais para aumentar os níveis de atividade física ainda são insuficientes. Mesmo com a criação de políticas públicas e campanhas de incentivo, os resultados seguem aquém das metas estabelecidas.

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Falta de atividade física ainda mata milhões todos os anos. Foto: José Aldenir / Agora RN

Segundo estimativas baseadas em dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de cinco milhões de mortes por ano estão associadas ao sedentarismo. As recomendações da entidade indicam pelo menos 150 minutos semanais de atividade física de intensidade moderada para adultos e 60 minutos diários para crianças.

Ainda assim, pesquisas apontam que aproximadamente um em cada três adultos e oito em cada dez adolescentes não alcançam esses níveis mínimos de atividade.

Um dos estudos, liderado pela pesquisadora Deborah Salvo, especialista em atividade física e saúde pública, analisou dados de 68 países, incluindo o Brasil. O levantamento identificou desigualdades persistentes no acesso à prática de exercícios e nas oportunidades de se manter fisicamente ativo.

Entre os fatores que explicam essas diferenças estão renda, escolaridade e condições de infraestrutura urbana. Em muitos contextos, atividades físicas motivadas por necessidade — como caminhar ou pedalar para chegar ao trabalho — são mais frequentes entre populações de menor renda.

O estudo também destaca que o acesso a atividades recreativas e esportivas tende a ser maior em grupos socialmente favorecidos. Em contrapartida, pessoas de contextos socioeconômicos mais vulneráveis enfrentam mais barreiras para a prática regular de exercícios.

Dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) no Brasil ilustram essa desigualdade. No país, a diferença na prática de atividade física entre homens e mulheres chega a quase nove pontos percentuais. A disparidade também aparece quando se comparam pessoas de diferentes níveis de renda e escolaridade.

Mais de dez pesquisadores brasileiros participaram do estudo internacional, que investigou as relações entre atividade física, saúde pública e desigualdades sociais.

Outro artigo, publicado na revista Nature Health, sugere que a prática de exercícios pode também contribuir para a adaptação às mudanças climáticas. Incentivar caminhadas, ciclismo e o uso do transporte público em substituição ao carro pode reduzir emissões de gases de efeito estufa e promover benefícios à saúde.

De acordo com os autores, comunidades fisicamente ativas tendem a apresentar maior capacidade de enfrentar crises ambientais, como ondas de calor, desastres naturais e interrupções urbanas.

Obstáculos globais

Os pesquisadores apontam quatro grandes desafios para ampliar os níveis de atividade física no mundo: desigualdades sociais, falta de acesso a espaços seguros para exercício (como ciclovias, parques e calçadas adequadas), ausência de integração entre ciência e políticas públicas e os impactos das mudanças climáticas.

Eventos climáticos extremos, como ondas de calor, também podem dificultar a prática de atividades ao ar livre.

Uma análise de 661 políticas públicas voltadas à promoção da atividade física em cerca de 200 países revelou limitações na implementação dessas estratégias. Entre as políticas avaliadas, apenas 38,7% foram associadas a resultados mensuráveis.

Além disso, muitas iniciativas envolvem poucos setores do governo. Apenas 56 das 661 políticas analisadas incluíam ações em três ou mais áreas, como saúde, transporte e educação, o que indica baixa articulação entre diferentes campos da gestão pública.

Em 53 países, cerca de 26,5% do total analisado, os documentos de política pública não apresentavam metas claras para avaliar os resultados das ações.

Para os pesquisadores, ampliar os níveis de atividade física exige tratar o problema como uma questão estrutural de saúde pública, e não apenas como uma responsabilidade individual.