Quando a ginasta Rebeca Andrade recebeu o Prêmio Laureus, considerado o “Oscar do esporte”, o reconhecimento internacional trouxe à tona não apenas a excelência de seu desempenho, mas também uma reflexão mais ampla sobre os caminhos que sustentam a alta performance. Para Aline Wolff, psicóloga que acompanhou a atleta ao longo de sua trajetória, o resultado é inseparável de um fator muitas vezes negligenciado: o equilíbrio.
Com experiência no Comitê Olímpico Brasileiro (COB), Aline participou de ciclos decisivos da carreira de Rebeca, incluindo os Jogos Olímpicos de 2016, 2020 e 2023. A vivência acumulada nesse período foi consolidada no livro Alta performance sustentável, no qual a psicóloga propõe uma leitura que ultrapassa o universo esportivo e dialoga diretamente com o cotidiano profissional e pessoal.

A ideia central parte de um princípio simples, mas frequentemente ignorado: não é possível sustentar rendimento máximo o tempo todo. “Rendimento no trabalho o tempo todo não é humano”, afirma. Para ela, existe uma expectativa generalizada de produtividade contínua que desconsidera os limites naturais do corpo e da mente.
Esse pensamento, segundo Aline, está presente tanto no esporte quanto fora dele. A lógica de que é preciso estar sempre no auge — sem pausas, sem oscilações — acaba criando um padrão difícil de sustentar. “Essa ideia de estar sempre na melhor forma, sem se dividir, não se sustenta. A vida é feita de múltiplas identidades”, explica.
A psicóloga observa que a dificuldade em reconhecer esses limites tem impacto direto na saúde mental. Quando o rendimento passa a ser visto como uma obrigação constante, surgem sinais de desgaste, ansiedade e esgotamento. O problema, nesse caso, não é buscar resultados, mas ignorar a necessidade de recuperação.
Para lidar com esse cenário, Aline defende uma mudança de perspectiva: é preciso aprender a valorizar não apenas as grandes conquistas, mas também os processos e pequenas vitórias do dia a dia. “Não temos isso, então temos que lembrar de fazer isso. Nem que seja um momento de pausa e reflexão em que pensamos: ‘que legal, consegui ir de um ponto a outro’”, diz.
Na prática, isso significa interromper o ciclo automático de produção e abrir espaço para avaliação e reconhecimento. Segundo ela, muitas pessoas concluem tarefas e imediatamente partem para a próxima, sem processar o que foi realizado. “As pessoas entram em um projeto, entregam e já vão para o próximo. É preciso sair dessa esteira”, afirma.
Outro ponto destacado pela especialista é a dificuldade de organização diante de múltiplas demandas. Em um cenário de sobrecarga, tarefas se acumulam e geram a sensação constante de urgência. Para enfrentar isso, Aline sugere priorização e clareza na rotina. “Precisamos fazer listas e definir o que é mais importante. Não dá para abraçar tudo ao mesmo tempo”, explica.
A construção de uma agenda realista também faz parte desse processo. Ao reconhecer limites e organizar melhor o tempo, torna-se possível reduzir a sensação de sobrecarga e criar espaços de recuperação ao longo do dia e da semana.
Aline chama atenção ainda para um comportamento cada vez mais comum: a dificuldade de se desconectar. O uso constante do celular e a tendência de preencher todos os intervalos com estímulos acabam eliminando momentos de pausa. “Estamos o tempo todo vivendo as coisas um pouco pela metade, vendo um filme ou passando um tempo com alguém, mas ao mesmo tempo no celular”, observa.
Essa fragmentação da atenção, segundo ela, compromete não apenas o descanso, mas também a qualidade das experiências. Ao dividir o foco, o cérebro não consegue processar completamente as informações, o que impacta a sensação de presença e satisfação.
No esporte, a lógica é diferente. O equilíbrio entre esforço e recuperação é parte estruturante do treinamento. Momentos de descanso são planejados e considerados fundamentais para o desempenho. Essa mesma lógica, defende Aline, pode — e deve — ser aplicada à vida cotidiana.
A psicóloga destaca que a alta performance não está ligada apenas à intensidade, mas à consistência. E essa consistência depende da capacidade de alternar entre momentos de esforço e recuperação. Sem essa dinâmica, o rendimento tende a cair ao longo do tempo.
Outro aspecto abordado é a forma como lidamos com o erro e a frustração. Em ambientes de alta exigência, há pouco espaço para falhas, o que pode gerar insegurança e medo. Para Aline, é fundamental construir uma relação mais saudável com esses momentos, entendendo-os como parte do processo de desenvolvimento.
A experiência no esporte mostra que resultados expressivos não são fruto de um único momento, mas de um conjunto de fatores que incluem disciplina, planejamento, descanso e apoio emocional. Ao trazer essa perspectiva para fora das arenas esportivas, a psicóloga propõe uma reflexão sobre os modelos de produtividade que orientam a vida contemporânea.
No fim, a mensagem é direta: não se trata de fazer menos, mas de fazer melhor — e isso inclui saber parar. Em um contexto que valoriza a aceleração constante, reconhecer a importância da pausa pode ser, paradoxalmente, o caminho mais eficiente para sustentar o desempenho.