Dores em todo o corpo, principalmente nos músculos e tendões, fazem parte de sintomas que acometem pelo menos 3% da população brasileira, segundo a Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR). Essa é a fibromialgia, doença que é reconhecida como deficiência no País desde janeiro e que encontra na atividade física uma chance de melhora.
O exercício físico é uma das intervenções recomendadas para o controle da fibromialgia, condição marcada por dor crônica e sintomas que afetam a rotina dos pacientes. Segundo o fisioterapeuta Mateus Barros, a prática pode trazer benefícios, desde que seja orientada e adaptada às limitações individuais.

“A fibromialgia é uma condição caracterizada por sensibilização central, ou seja, o sistema nervoso amplifica estímulos dolorosos”, explica. No funcionamento do corpo, isso se reflete em dor musculoesquelética difusa, fadiga crônica, rigidez matinal, alterações do sono e déficits cognitivos.
Mateus Barros afirma que o exercício físico está entre as intervenções recomendadas pelos especialistas. “Exercício ajuda, é uma das principais intervenções recomendadas pelas diretrizes internacionais.” Segundo ele, a indicação inclui exercício aeróbico leve a moderado, treino de força progressivo e alongamentos.
No entanto, a prática inadequada pode agravar os sintomas. O fisioterapeuta explica que o risco aumenta em casos de intensidade elevada no início, volume excessivo, ausência de progressão gradual, falta de individualização e prática durante crises intensas. “Isso pode gerar o aumento da dor, fadiga extrema e até abandono do tratamento”, falou.
Entre os erros mais comuns, estão tentar retomar o nível de treino anterior à doença, ignorar sinais do corpo, pular etapas de adaptação, manter irregularidade e não contar com acompanhamento profissional. “Isso leva ao ciclo: empolgação, excesso, piora, causa o abandono.”
No tratamento, ele aponta que o exercício terapêutico é a base, aliado a terapia manual, eletroterapia, educação em dor, explicando sobre a sensibilização central e reduzindo o medo do movimento, e uso de técnicas de relaxamento, como respiração diafragmática e alongamentos leves. O trabalho ainda inclui atividades como caminhada, hidroterapia e fortalecimento progressivo.
Sobre o reconhecimento da fibromialgia como possível deficiência, Barros afirma que a medida pode impactar o acesso a direitos e o modelo de cuidado. “Sim, pode impactar tanto o acesso quanto a abordagem.” Segundo ele, o enquadramento depende do grau de incapacidade funcional e pode garantir benefícios previdenciários, adaptações no trabalho e prioridade em serviços públicos.
Exercício na rotina
O educador físico Alisson Matos afirma que o exercício atua como intervenção não farmacológica no controle da fibromialgia. “Há uma melhora do sistema inibitório da dor”, explica. Ele afirma que, na prática, há melhora na forma como o corpo lida com a dor, além de impacto no humor, uma vez que a síndrome também pode provocar distúrbios do sono, ansiedade e depressão.
Em relação à intensidade, a recomendação é iniciar com menor volume e menor intensidade, com progressão conforme a tolerância. “Inicialmente prescrever um volume (quantidade total) de treino menor, e uma intensidade menor (menor frequência cardíaca) e progredir conforme a tolerância ao desconforto aumenta.”
No caso de piora das dores, também é necessário ajustar o treino e contar com acompanhamento médico. “Se houver piora substancial das dores no dia posterior, é preciso reajustar volume e intensidade. A definição da intensidade passa tanto pelo dado científico quanto pelo ouvido atento profissional responsável pela prescrição, ouvir o paciente em cada momento é fulcral para o acerto das cargas de treino”, diz.
Entre os principais erros, Alisson cita o aumento abrupto do volume, inconsistência e negligência com sono e alimentação. “Outro erro é a inconsistência por errar na intensidade, é melhor menos intensidade e mais constância. Ser um aluno nota 7 o ano inteiro é melhor do que ser um aluno nota 10 em apenas dois meses”, afirma.
Alisson Matos diz que os ganhos vão além da dor. “Há tanto a redução da dor quanto uma melhora na qualidade de vida. Salta aos olhos o aumento da qualidade de vida do paciente, mesmo que não haja o desaparecimento completo da dor”. De acordo com ele, os pacientes também apresentam melhora no sono, no bem-estar psicológico e na capacidade funcional.
Fibromialgia
A fibromialgia é caracterizada por dor generalizada por mais de três meses, sem evidências de inflamação nos locais afetados. Entre os sintomas estão fadiga, distúrbios do sono, alterações de memória e atenção, ansiedade, depressão e formigamento em mãos e pés.
A condição não tem causa confirmada, mas está associada ao estresse crônico e atinge principalmente mulheres entre 30 e 50 anos. No Brasil, afeta cerca de 2% a 3% da população, segundo a Sociedade Brasileira de Reumatologia.
Desde janeiro, está em vigor a lei 15.176/2025, que reconhece a fibromialgia e doenças correlatas como condições que podem configurar deficiência, após avaliação biopsicossocial. A norma também prevê atendimento multidisciplinar, formação de profissionais e incentivo à inclusão no mercado de trabalho.
A avaliação considera os impedimentos e limitações do paciente, podendo garantir acesso a benefícios e adaptações, conforme o grau de comprometimento funcional.