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Pets

Animais de estimação ganham espaço como apoio emocional no cotidiano

Convivência diária contribui para regulação emocional e bem-estar dos tutores
Por Belita Lira, O Correio de Hoje
16/04/2026 | 12:35

Em um cotidiano marcado por pressa, excesso de estímulos e relações cada vez mais mediadas por telas, o simples gesto de estar presente — sem exigir explicações, desempenho ou respostas — tornou-se raro. É justamente nesse espaço que os animais de estimação ocupam um papel que vai além da companhia.

Eles não falam, não aconselham, não interpretam. Ainda assim, para muitas pessoas, são uma das formas mais concretas de apoio emocional no dia a dia. Para a psicóloga Mariana Cabral, essa relação tem fundamentos que vão além do afeto. “Do ponto de vista psicológico, o animal funciona como um mediador emocional. Para além de um laço afetivo, essa relação possui base biológica, psicológica e terapêutica”, conta.

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Para Maria Eduarda Medeiros, presença do pet reforça importância do afeto e cuidado - Foto: Cedida

Esse tipo de vínculo é estudado nas chamadas Intervenções Assistidas por Animais (IAA), utilizadas como complemento em tratamentos de saúde mental, especialmente em quadros de ansiedade e depressão.

Em uma sociedade marcada por julgamento e cobrança constante, os animais oferecem algo distinto. “Vivemos em uma sociedade marcada por comparações, julgamentos e preconceitos, o que faz com que muitas pessoas se isolem justamente quando estão atravessando momentos emocionalmente desafiadores. Nesse contexto, os animais ocupam um lugar distinto: não julgam, não exigem desempenho e respondem de forma genuína”, explica a especialista.

Essa ausência de julgamento cria um ambiente de segurança emocional. “Em cenários de sofrimento psíquico, isso contribui para a redução de defesas emocionais e facilita a conexão, um elemento essencial em qualquer processo terapêutico.”

A estudante Fernanda Quevedo percebe esse efeito de forma prática no cotidiano com seus animais. “Eles sempre ficam por perto quando estou triste ou doente, principalmente Eva, a gata mais velha, sempre me sinto melhor quando isso acontece. É como se eles tivessem um antídoto contra tristeza”, conta.

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Fernanda Quevedo: “Contra a tristeza” – Foto: Cedida

Para ela, a convivência vai além do conforto imediato. “Eles ajudam muito a desacelerar, às vezes até ajudam a sair um pouco da Internet. Passo horas só brincando com eles, me desligo do mundo.” Esse deslocamento da atenção — sair do excesso de estímulos e voltar para o presente — é um dos efeitos mais relevantes dessa interação.

Segundo Mariana Cabral, a ansiedade está diretamente ligada a um estado constante de alerta e o contato com o animal atua justamente nesse ponto. “É como se o corpo e a mente estivessem sempre se preparando para um perigo, mesmo quando ele não está presente. […] O contato com o animal ajuda a regular o corpo e a mente: reduz o estado de alerta associado à ansiedade e, ao mesmo tempo, estimula movimento, vínculo e pequenas ações no dia a dia”, afirma.

No caso da depressão, o impacto acontece de forma mais gradual, mas igualmente relevante. “Os sintomas depressivos também apresentam melhora, porém de forma mais gradual, exigindo maior constância no vínculo e nas interações ao longo do tempo.”

Essa constância aparece na rotina — alimentar, cuidar, interagir. Pequenos gestos que, repetidos, ajudam a reorganizar o cotidiano.

A estudante Maria Eduarda Medeiros descreve essa transformação de forma sutil, mas significativa. “Tobias me ajuda a manter uma rotina, mas principalmente me lembra da importância das coisas simples como afeto, cuidado e presença. Ele não exige que eu esteja bem o tempo todo, só que eu esteja ali.”

A ausência de exigência é o que cria espaço para o acolhimento. “Mesmo em dias difíceis, a convivência com ele traz uma espécie de respiro, como se por alguns instantes tudo ficasse mais leve e possível de enfrentar”, compartilha.

Há também um componente físico nessa relação. O toque, o contato, o simples ato de acariciar um animal desencadeia respostas no organismo. “Há ativação do sistema límbico, promovendo a redução da resposta ao estresse e a diminuição do cortisol. Ao mesmo tempo, o córtex pré-frontal é estimulado, favorecendo a regulação emocional e uma maior sensação de controle interno. Substâncias como serotonina e dopamina são liberadas, contribuindo para sensações de bem-estar”, explica a psicóloga.

Ou seja, o efeito não é apenas emocional — é também biológico. Na prática, o animal oferece algo simples, mas raro: presença contínua. “Ele não exige explicações, não cobra desempenho e responde ao cuidado com reciprocidade”, conta a especialista. Essa reciprocidade, muitas vezes silenciosa, pode ser decisiva em momentos de fragilidade.

A estudante Maria Eduarda descreve essa sensação como um ponto de apoio. “Em momentos de ansiedade, quando tudo parece acelerado demais, a presença dele funciona como um ponto de apoio.” E acrescenta: “É como se ele oferecesse um tipo de conforto silencioso, só por estar ali.”

Para a pedagoga Wedna Cirino Soares, que convive com animais desde a infância, esse apoio se manifesta de forma direta. “A sinceridade da recepção de um cachorro ao chegarmos é genuína e capaz de apagar toda a tensão do dia a dia.”

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Wedna Cirino Soares: recepção do cão de estimação reduz a tensão após rotina difícil – Foto: Cedida

Em momentos mais delicados, esse vínculo se intensifica. “Crystal virou suporte psicológico da casa. A sensibilidade dela ao nos ver passar por situações de tristeza, e nos acolher nos dedicando atenção e aconchego foi fundamental.”

Apesar dos benefícios, a especialista reforça que a decisão de ter um animal deve ser consciente. “Antes de assumir um pet, experimente o contato. Observe como seu corpo responde, se há redução de tensão, sensação de conforto ou leveza.”

E, principalmente, entender que o efeito está na continuidade. “O benefício está na constância. Não é apenas ‘ter’, é cuidar repetidamente.” Isso porque a relação não é unilateral. Ela exige responsabilidade, rotina e disponibilidade. Como destaca Fernanda: “Muitas vezes as pessoas pegam um animal para preencher um vazio, mas eles são seres vivos que sentem muito, não são objetos.”

No fim, o que os pets oferecem não é uma solução imediata — mas uma forma diferente de atravessar o que se sente. Eles não resolvem o problema, mas mudam a forma como ele é vivido.

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Psicóloga Mariana Cabral – contato 84 98108-7749 – Foto: cedida