O início da puberdade é um dos principais marcos do desenvolvimento humano, sinalizando que o organismo está em processo de amadurecimento para a vida reprodutiva. Em meninas, pesquisas indicam que essa fase tem ocorrido cada vez mais cedo.
Dados históricos mostram que, na década de 1840, a idade média da primeira menstruação — a menarca — variava entre 16 e 17 anos. Atualmente, essa média gira em torno dos 12 anos. Segundo Luiz Claudio Castro, presidente do Departamento de Endocrinologia Pediátrica da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), melhorias nas condições de saúde e nutrição estão entre os fatores que contribuíram para essa mudança.

Outro levantamento, realizado nos Estados Unidos, aponta que o início da puberdade, identificado pelo desenvolvimento das mamas, também se antecipou. Na década de 1960, esse processo começava por volta dos 11 anos; já nos anos 1990, passou a ocorrer entre 9 e 10 anos.
Hoje, considera-se dentro da normalidade o início da puberdade em meninas entre 8 e 13 anos. Entre os sinais estão o crescimento das mamas, surgimento de pelos pubianos e axilares, aceleração do crescimento, mudanças de comportamento e até alterações no odor corporal.
“Definimos puberdade precoce quando os sinais puberais aparecem antes dos 8 anos nas meninas e antes dos 9 anos nos meninos”, explica Castro. A endocrinologista pediatra Paula Baccarini, do Sabará Hospital Infantil, acrescenta que também é considerada precoce a menstruação antes dos 10 anos. “Em alguns casos, a puberdade começa em idade adequada, mas evolui rapidamente, o que chamamos de puberdade rapidamente progressiva”, afirma.
Embora não haja dados consolidados no Brasil, estudos internacionais indicam aumento nos casos após a pandemia. Pesquisa da Universidade de Gênova, publicada no Journal of the Endocrine Society, analisou 133 meninas e identificou 72 casos de puberdade precoce entre janeiro de 2016 e março de 2020 e 61 casos entre março de 2020 e junho de 2021. A média mensal chegou a até quatro novos casos durante o período mais recente.
Entre os fatores associados estão estresse, piora na qualidade do sono, ganho de peso, sedentarismo, consumo elevado de alimentos ultraprocessados e uso excessivo de telas. A ingestão frequente desses produtos está ligada ao aumento de peso, à exposição a substâncias que interferem no sistema hormonal e a processos inflamatórios. Já o estresse crônico eleva os níveis de cortisol, o que pode estimular o início antecipado da puberdade.
Na prática clínica, especialistas relatam perceber esse aumento. “Observamos mais casos de puberdade precoce”, afirma Baccarini. Ao mesmo tempo, ela destaca que houve crescimento na busca por avaliação, indicando maior atenção dos pais ao tema. “As pessoas estão mais atentas, o que também contribui para o diagnóstico”, diz.
A ginecologista e obstetra Marianne Pinotti, integrante do grupo de oncologia da BP e consultora do Ministério da Saúde, também observa maior preocupação das mães com a idade da primeira menstruação. “Tenho percebido mais questionamentos, algo que não era comum anteriormente”, afirma.
Uma das principais preocupações está relacionada à estatura final das meninas. A puberdade precoce pode acelerar o desenvolvimento ósseo, reduzindo o tempo de crescimento e resultando em altura abaixo do potencial genético. “É como se a criança perdesse parte do tempo para crescer”, explica Baccarini. No entanto, especialistas ressaltam que intervenções só devem ocorrer em casos confirmados.
Além dos efeitos físicos, há impactos psicossociais. O desenvolvimento antecipado pode fazer com que a menina se sinta diferente das colegas, o que pode levar a isolamento ou dificuldades emocionais. “A criança pode evitar atividades por medo de exposição, especialmente quando a menstruação ocorre muito cedo”, aponta Baccarini.
Castro também chama atenção para a vulnerabilidade social, já que mudanças corporais precoces podem aumentar o risco de situações de abuso.
Apesar disso, há possibilidade de tratamento. Quando a puberdade precoce é confirmada por exames — como avaliação da idade óssea, dos níveis hormonais e exame físico —, pode ser indicado o uso de medicamentos que bloqueiam temporariamente a produção hormonal. A medida busca reduzir impactos no crescimento e no desenvolvimento.
Após a suspensão do tratamento, o organismo retoma naturalmente a produção hormonal. “É fundamental saber o momento correto de iniciar e interromper o tratamento, o que exige acompanhamento especializado”, destaca Castro.
Com o início da puberdade, surge também a dúvida sobre quando levar a menina ao ginecologista. Segundo Pinotti, a recomendação é que a primeira consulta ocorra após a menstruação. Antes disso, a avaliação é indicada apenas se houver sintomas como corrimento, irritações, coceira, dor mamária ou cólicas, que podem surgir mesmo antes da menarca.
“Se não houver sinais de alerta, a consulta deve acontecer próxima da primeira menstruação. Há diversas formas de ajudar nesse período, especialmente em casos de cólica e tensão pré-menstrual, que podem impactar a rotina”, explica a médica.