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Saúde

É possível, afinal, morrer de tristeza?

Médicos explicam como luto, perdas e sofrimento psicológico podem provocar alterações cardiovasculares, hormonais e neurológicas
Por O Correio de Hoje
23/06/2026 | 13:32

A ideia de que alguém pode “morrer de tristeza” atravessa gerações, inspirando obras literárias, músicas, filmes e relatos populares. Embora a expressão seja frequentemente associada ao imaginário coletivo, especialistas afirmam que o sofrimento emocional intenso possui efeitos concretos sobre o organismo e pode desencadear complicações capazes de comprometer seriamente a saúde.

O tema voltou ao debate após casos recentes que reacenderam discussões sobre os impactos físicos do luto, da perda e do sofrimento psicológico profundo. Médicos e pesquisadores explicam que emoções intensas não afetam apenas o estado mental, mas também provocam alterações hormonais, cardiovasculares, neurológicas e metabólicas que podem desencadear doenças ou agravar condições já existentes.

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Especialistas afirmam que o sofrimento emocional intenso pode provocar alterações hormonais, cardiovasculares e neurológicas - Foto: magnific

A cardiologista Priscilla Hallack, membro da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), afirma que atualmente há evidências científicas consistentes demonstrando a relação entre sofrimento emocional e alterações no sistema cardiovascular.

“Hoje sabemos que emoções intensas, como luto, perda, rejeição ou sofrimento psicológico profundo, podem desencadear alterações biológicas capazes de afetar diretamente o sistema cardiovascular. Em indivíduos mais vulneráveis, essas respostas podem precipitar eventos graves, como infarto, arritmias e até insuficiência cardíaca aguda”, afirma.

Segundo a especialista, diante de experiências emocionais extremas, o organismo entra em estado de alerta. O cérebro ativa mecanismos de sobrevivência que provocam a liberação de hormônios ligados ao estresse, como cortisol, adrenalina e noradrenalina.

Essa reação gera aumento da frequência cardíaca, elevação da pressão arterial, maior demanda de oxigênio pelo coração e alterações inflamatórias e vasculares que podem afetar diversos sistemas do organismo.

“Em determinadas circunstâncias, essa reação pode ser tão intensa que provoca uma disfunção transitória do músculo cardíaco, demonstrando que emoções e coração estão profundamente conectados”, explica.

Entre as condições mais associadas ao sofrimento emocional está a cardiomiopatia de Takotsubo, popularmente conhecida como síndrome do coração partido. A doença provoca um enfraquecimento temporário do músculo cardíaco após situações de forte impacto emocional ou físico.

Os sintomas são semelhantes aos de um infarto, incluindo dor no peito, falta de ar e mal-estar intenso. A principal diferença é que, na maioria dos casos, não há obstrução significativa das artérias coronárias. Segundo Hallack, a síndrome é mais frequente em mulheres após a menopausa. Quando ocorre em homens, porém, costuma estar associada a quadros mais graves.

Embora a tristeza não apareça formalmente como causa direta de morte, os especialistas destacam que ela pode contribuir para uma cadeia de alterações capazes de comprometer diversos órgãos. O psiquiatra Ciro Jorge do Nascimento explica que quadros prolongados de sofrimento emocional provocam mudanças cerebrais e físicas importantes.

De acordo com ele, podem ocorrer alterações nos neurotransmissores, aumento persistente dos níveis de cortisol, problemas gastrointestinais, gastrites, úlceras, alterações de peso, taquicardia, hipertensão, elevação da glicemia e até aumento da vulnerabilidade a determinadas doenças.

Já o psiquiatra Rodrigo Leite, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, afirma que não existe um perfil único de pessoa suscetível a desenvolver problemas físicos após uma perda, mas há grupos considerados mais vulneráveis.

Entre eles estão idosos, viúvos, pessoas socialmente isoladas, pacientes com doenças cardiovasculares, indivíduos com histórico de depressão, insônia crônica, traumas psicológicos, pobreza ou uso de substâncias. Segundo ele, cuidadores que passaram meses ou anos acompanhando familiares gravemente doentes também merecem atenção especial.

Durante o período de cuidado intenso, essas pessoas frequentemente permanecem em estado constante de alerta. Quando a situação termina, o organismo pode apresentar sinais de esgotamento físico e emocional. Outro grupo vulnerável é formado por pessoas cuja rotina, identidade e projetos de vida estavam fortemente ligados a uma única relação afetiva.

Quando essa referência desaparece, pode ocorrer uma profunda sensação de vazio e perda de sentido.

“A mortalidade raramente tem uma única causa. Emoções intensas podem participar de uma cadeia causal, junto com genética, doenças prévias, acesso a cuidados, sono, comportamento, uso de substâncias, suporte social e acaso biológico. O desafio é reconhecer a força real da dor emocional sem reduzi-la a uma explicação romântica ou fatalista”, ressalta Rodrigo Leite.

INTERTÍTULO: Como ajudar

Especialistas alertam que uma das atitudes mais importantes diante de alguém que vive um processo de luto ou sofrimento intenso é evitar minimizar a dor. Frases como “você precisa ser forte”, “ele não gostaria de te ver assim” ou “isso vai passar” podem aumentar a sensação de isolamento. Em vez disso, recomenda-se oferecer presença, acolhimento e apoio prático.

Expressões como “estou aqui”, “não sei o que dizer, mas quero ficar perto” ou “posso ajudar em alguma coisa hoje?” costumam ser mais eficazes para quem enfrenta um momento de grande sofrimento. Segundo Rodrigo Leite, o apoio mais eficiente combina acolhimento emocional e ajuda concreta nas tarefas do dia a dia.

“A ajuda mais efetiva combina presença emocional e suporte concreto. É útil organizar uma rede, porque no início todos aparecem e depois a pessoa pode ficar abandonada. Também devem observar sinais de risco e, quando necessário, ajudar a buscar atendimento profissional, sem tratar isso como fraqueza”, conclui.

Para os especialistas, o luto e a tristeza fazem parte da experiência humana, mas quando se tornam intensos ou prolongados merecem atenção. O acompanhamento familiar, a rede de apoio e o acesso a atendimento médico e psicológico podem ser decisivos para evitar que a dor emocional evolua para problemas físicos e mentais mais graves.