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Alzheimer

Cogumelos com psilocibina entram no radar de pesquisas sobre Alzheimer

Pesquisa brasileira descreve caso de mulher de 80 anos que apresentou avanços cognitivos e funcionais após tratamento com substância presente em “cogumelos mágicos”
Por O Correio de Hoje
11/06/2026 | 12:40

Pesquisadores brasileiros divulgaram na revista científica Frontiers in Neuroscience Neuropharmacology um relato de caso que chama atenção para o potencial terapêutico da psilocibina, substância psicodélica encontrada em determinados fungos popularmente conhecidos como “cogumelos mágicos”. O trabalho descreve a evolução clínica de uma paciente de 80 anos diagnosticada com doença de Alzheimer que apresentou melhora em diferentes indicadores após receber o tratamento experimental.

Os próprios autores ressaltam, entretanto, que os resultados não devem ser interpretados como prova de eficácia ou segurança da substância para pacientes com Alzheimer. A publicação envolve apenas um caso clínico, sem grupo de comparação e sem o rigor metodológico necessário para estabelecer uma relação direta de causa e efeito entre o uso da psilocibina e as mudanças observadas. Ainda assim, os pesquisadores afirmam que relatos desse tipo podem servir como ponto de partida para novas investigações científicas mais amplas.

cogumelo
Relato descreve melhora clínica observada em uma paciente de 80 anos com Alzheimer - Foto: Reprodução

A paciente acompanhada pelo estudo era uma mulher octogenária de ascendência japonesa, que vivia sob supervisão permanente de familiares e com o auxílio de cuidadores. Segundo os autores, ela apresentava um quadro de declínio cognitivo e funcional progressivo decorrente de um diagnóstico de Alzheimer desenvolvido ao longo de aproximadamente dez anos.

Nos cinco anos anteriores ao tratamento, o avanço da doença havia provocado importantes perdas funcionais. De acordo com a descrição publicada no artigo, sua comunicação verbal tornou-se predominantemente monossilábica, acompanhada por uma redução severa das interações espontâneas. O quadro incluía ainda incontinência urinária crônica, disfunção executiva, dificuldades de mobilidade, disfagia — condição caracterizada pela dificuldade ou incapacidade de engolir alimentos — e um elevado grau de dependência para a realização das atividades diárias.

Como parte do experimento, os pesquisadores administraram uma dose oral única de 5 gramas de cogumelos da cepa Enigma contendo psilocibina. Segundo o estudo, a quantidade utilizada foi definida “com base em observações experimentais prévias sobre a profundidade e a duração dos efeitos neurocomportamentais induzidos por psicodélicos”.

Durante as primeiras horas após a administração da substância, a paciente apresentou sudorese e sonolência profunda. Aproximadamente 19 horas depois, porém, os pesquisadores registraram mudanças consideradas relevantes em seu comportamento. Segundo o relato, ela iniciou espontaneamente uma conversa autobiográfica que se estendeu por várias horas.

Os autores descrevem que os efeitos observados ultrapassaram o período imediato da experiência psicodélica.

“Diversas melhorias clinicamente significativas persistiram por semanas após a primeira intervenção, incluindo restauração da continência urinária, melhora da mobilidade, aumento da reciprocidade emocional, maior comunicação espontânea e melhora da interação social contextual”, continuam.

Diante da manutenção desses resultados, uma segunda sessão foi realizada cerca de um mês depois. Nessa etapa, a paciente recebeu uma dose menor, de 3 gramas de cogumelos contendo psilocibina. A nova administração ocorreu devido à persistência das melhoras observadas após a primeira intervenção, incluindo a continuidade da continência urinária.

Segundo os pesquisadores, a segunda experiência apresentou características distintas. Durante a sessão, a paciente “permaneceu significativamente mais expressiva verbalmente ao longo de toda a experiência e descreveu imagens emocionalmente positivas envolvendo surfar com seu filho em uma ilha tranquila”, descreve o relato do caso.

O acompanhamento posterior também não identificou efeitos adversos graves persistentes relacionados ao tratamento. De acordo com os autores, a segunda administração da substância esteve associada a uma “maior expressividade verbal, melhora da mímica facial, humor espontâneo, imagens autobiográficas carregadas de emoção e maior agilidade ao caminhar”.

Os pesquisadores discutem algumas hipóteses para explicar os resultados observados. Uma delas envolve possíveis interações entre a psilocibina e mecanismos cerebrais ligados ao sono. Segundo o estudo, isso pode “refletir interações entre a modulação de redes induzida pela psilocibina e a neurofisiologia basal alterada característica da doença de Alzheimer avançada”.

O artigo também cita evidências recentes que apontam para uma reorganização significativa das redes neurais após a administração da substância psicodélica. Com base nesses achados, os autores levantam a “hipótese de que a psilocibina pode facilitar temporariamente a reintegração funcional de sistemas neurais residuais em doenças neurodegenerativas”.

Apesar do interesse despertado pelos resultados, os responsáveis pelo trabalho enfatizam que o estudo apresenta limitações importantes. Entre elas estão o fato de se tratar de apenas uma paciente, a ausência de confirmação formal do diagnóstico de Alzheimer por biomarcadores específicos e exames avançados de neuroimagem, além da falta de métodos mais sofisticados de monitoramento clínico durante o acompanhamento.

Os pesquisadores destacam ainda que não é possível descartar completamente a ocorrência de flutuações espontâneas do quadro clínico, algo que pode acontecer em doenças neurodegenerativas. Por isso, alertam para a necessidade de cautela na interpretação dos dados.

“Não é possível estabelecer causalidade, e flutuações espontâneas inerentes às doenças neurodegenerativas não podem ser completamente excluídas (…) O presente relato deve ser compreendido principalmente como uma descrição observacional detalhada destinada a gerar hipóteses para futuras investigações controladas”, afirmam.