O câncer de rim está entre as doenças urológicas mais letais quando diagnosticado em estágios avançados, mas pode alcançar índices de cura superiores a 90% quando identificado precocemente. O alerta foi feito pelo urologista Pedro Sales, presidente da Sociedade Brasileira de Urologia no Rio Grande do Norte, durante entrevista à Jovem Pan News Natal.
Segundo o especialista, a principal preocupação em relação à doença é o fato de ela apresentar poucos sintomas nas fases iniciais. “O câncer de rim é uma doença silenciosa e é uma das mais letais da urologia quando não descoberta em fases iniciais. Essa importância que a gente quer alertar para as pessoas da prevenção justamente para o câncer de rim, que isso muda a chave. Entre você descobrir cedo e descobrir tarde faz muita diferença”, afirmou.

Pedro Sales destacou que os rins exercem funções essenciais para o organismo. “O rim é o filtro do nosso organismo. O rim vai filtrar nosso sangue, as impurezas do sangue e também participa da regulação da pressão arterial. Então, o rim é realmente um órgão muito importante. Ele recebe praticamente metade do fluxo sanguíneo do débito cardíaco. Então, ele é o nosso filtro”, explicou.
Embora a doença costume não apresentar sintomas no início, o urologista afirma que o aparecimento de sangue na urina exige atenção imediata. “O sangue na urina é o principal alerta para o câncer de rim. Obviamente, nas fases iniciais ele não vai dar sintoma. Mas a hematúria, que é o sangue na urina, é um sinal de câncer de rim e de outras doenças urológicas também que nunca devem ser negligenciadas”, disse.
Segundo ele, a chamada tríade clássica da doença é formada por sangue na urina, dor lombar e presença de massa abdominal palpável. “A tríade clássica que a gente fala é o sangue na urina, a dor lombar, aqui nessa região do flanco, que a gente fala que é a lateral, e a massa abdominal palpável, o famoso caroço”, afirmou.
No entanto, o especialista ressalta que esses sintomas costumam surgir quando a doença já está avançada. “Essa tríade clássica está presente na minoria dos sintomas. Quando vai aparecer isso daí, já está avançado. Já está numa situação mais difícil”, alertou.
Além da presença de sangue, Pedro Sales recomenda atenção à aparência da urina. “Eu costumo também falar muito para os pacientes que o principal termômetro da nossa saúde renal é a cor do xixi. Então, a urina da gente deve estar bem transparente ou no máximo aquele amarelo citrino”, explicou.
Fatores de risco
De acordo com o presidente da SBU-RN, os principais fatores de risco para o câncer de rim estão relacionados ao estilo de vida.
“Os principais fatores de risco estão ligados ao cigarro, ao sedentarismo, obesidade, mau controle da pressão arterial e diabetes”, afirmou.
O médico também destacou que pacientes submetidos à hemodiálise por longos períodos apresentam maior risco de desenvolver a doença. “Alguns pacientes que fazem hemodiálise durante muitos anos também têm um risco aumentado de câncer de rim”, disse.

Para reduzir os riscos, ele recomenda mudanças de hábitos e hidratação adequada. “O principal remédio para o rim é água”, afirmou.
Segundo o especialista, uma média de 1,5 litro a 2 litros de água por dia costuma ser suficiente para a maioria das pessoas, embora a necessidade varie de acordo com fatores como clima e nível de transpiração.
“Vai depender muito de quanto você transpira. A gente está em uma região muito quente. Mas uma média, uma receita de bolo, é entre um litro e meio e dois por dia”, explicou.
Diagnóstico precoce
Pedro Sales informou que aproximadamente 80% dos diagnósticos de câncer de rim ocorrem de forma incidental, durante exames realizados por outros motivos.
“Praticamente 80% dos casos de câncer de rim são diagnosticados de forma incidental, justamente por exames feitos por outros motivos”, afirmou.
Segundo ele, exames simples podem ser fundamentais para identificar alterações suspeitas.
“Exames de sangue, de urina e ultrassom. Um ultrassom de abdômen já pode verificar alguma irregularidade, algum nódulo que seja suspeito no rim. Ele não vai dar o diagnóstico definitivo, mas ele vai fazer com que seja o ponto de partida para aprofundamento do diagnóstico”, explicou.
Quando há suspeita da doença, exames mais detalhados são solicitados.
“Uma vez suspeitado do câncer de rim na ultrassonografia, os exames mais aprofundados seriam a tomografia e a ressonância. Só com isso em mãos a gente já consegue dar um diagnóstico de câncer de rim”, afirmou.
Tratamento e chances de cura
Nos casos localizados, o tratamento padrão é cirúrgico. “Para câncer de rim, especificamente, o tratamento é cirúrgico”, destacou.
Segundo Pedro Sales, os avanços tecnológicos têm permitido preservar uma parte maior do órgão.
“Nesses casos iniciais, a grande maioria dos casos a gente consegue fazer a cirurgia que se chama nefrectomia parcial. A gente tira só um pedacinho do rim que está acometido. Com a evolução tecnológica, cada vez mais a gente consegue preservar o restante do rim sadio.”
Já os casos diagnosticados em estágios avançados podem exigir abordagens mais complexas.
“Quando se diagnostica esses outros 20% mais avançados, às vezes vai para quimioterapia, radioterapia, tem outras terapias que se chamam terapia-alvo, terapias mais avançadas, mas inclusive pelo SUS se conseguem fazer”, afirmou.
O especialista explicou que, em situações mais graves, pode ser necessária a retirada completa do órgão afetado.
“Em casos avançados de um tumor renal descoberto um pouco maior, realmente precisa se retirar um dos rins. O que se chama nefrectomia radical”, disse.
Mesmo assim, a qualidade de vida pode ser mantida. “A pessoa que só tem um rim vive normalmente. Ela precisa, obviamente, ter alguns outros cuidados mais redobrados, principalmente com a hidratação e o controle bem rigoroso da hipertensão e do diabetes”, afirmou.
Prevenção
Pedro Sales defende a realização de exames periódicos e acompanhamento médico regular, mesmo para pessoas sem sintomas.
“O que se precisa fazer é justamente combater os fatores de risco. Está muito associado ao estilo de vida. É o controle da obesidade, cessar o cigarro, que é o principal fator de risco, menos sal, praticar exercício físico regularmente, controle do diabetes e ter um estilo de vida saudável”, afirmou.
Segundo ele, consultas anuais com clínico geral ou urologista podem contribuir para a detecção precoce da doença.
“Uma consulta por ano com o médico, até o clínico geral mesmo. Vai fazer exames laboratoriais, vai dosar a creatinina, que é o marcador de função renal do rim, um sumário de urina. Às vezes um exame de urina normal pode identificar a hematúria microscópica”, explicou.
Durante a entrevista, o médico também comentou o consumo de bebidas alcoólicas. Segundo ele, o álcool tem efeito diurético e exige atenção redobrada à hidratação.
“O álcool é um diurético. Quando você toma álcool, você vai fazer mais xixi. E o rim precisa de água. Então você pode até tomar sua cerveja desde que redobre a hidratação”, afirmou.
Pedro Sales informou que o mês de junho é dedicado à conscientização sobre o câncer de rim e ao reforço das orientações sobre prevenção e diagnóstico precoce.
“A gente está entrando de forma mais incisiva na mídia esse mês de junho justamente para ser o mês de alerta para o câncer de rim”, afirmou.
Segundo ele, a principal mensagem da campanha é estimular a população a realizar exames de rotina e buscar atendimento médico diante de qualquer sinal de alerta.
“O câncer de rim é uma doença silenciosa, mas que, diagnosticado em fases precoces, você vai ter uma chance de cura de mais de 90%. Então essa é a mensagem que a gente quer deixar”, concluiu.
O especialista reforçou a importância da prevenção. “A prevenção é o principal remédio.”