Os acidentes envolvendo motocicletas representam cerca de 86% das admissões de vítimas de ocorrências de trânsito no Hospital Regional Tarcísio Maia, em Mossoró. Das 3.339 entradas registradas na unidade, 2.883 estão relacionadas a motocicletas.
Os números chamam atenção para a participação dos motociclistas nos acidentes registrados em Mossoró e região. O chefe de operações da delegacia da Polícia Rodoviária Federal (PRF) em Mossoró, Renato Araújo, afirmou que as ocorrências envolvendo esse tipo de veículo demandam atenção.

“De fato, esses são números alarmantes. 86% dos sinistros envolvem, de alguma forma, direta ou indiretamente, motociclistas. São dados reais que merecem a nossa atenção”, afirmou.
Entre os problemas identificados pela PRF está a circulação de motocicletas com defeitos no sistema de iluminação, especialmente durante a noite. Segundo Renato, casos de lanternas queimadas podem impedir que outros motoristas percebam a presença do motociclista na via. De acordo com o policial, em determinadas situações, o condutor que trafega atrás da motocicleta não consegue visualizá-la a tempo, aumentando o risco de colisão.
Além das condições da motocicleta, a PRF orienta os condutores a observarem o uso adequado dos equipamentos de proteção. Um dos principais cuidados é manter o capacete corretamente colocado, com a cinta jugular afivelada e ajustada.
Renato relatou já ter atendido ocorrências nas quais o motociclista utilizava capacete, mas o equipamento se soltou durante o acidente porque a cinta estava folgada. Nesses casos, apesar de não provocar a colisão, o uso inadequado pode aumentar a gravidade dos ferimentos.
“Utilizar o capacete de forma correta, com a cinta jugular afivelada e bem regulada, é uma das principais dicas”, orientou.
A manutenção do sistema de iluminação também está entre as recomendações. Farol, lanterna e piscas devem permanecer funcionando para aumentar a visibilidade da motocicleta para os demais veículos. “Ser visto no trânsito é uma das dicas mais importantes”, afirmou Renato.
Outra orientação é utilizar calçados fechados, como botas, tênis ou sapatos. Segundo o policial rodoviário federal, o equipamento não impede necessariamente a ocorrência do acidente, mas pode contribuir para diminuir a gravidade das lesões, principalmente nos membros inferiores.
Com 2.883 dos 3.339 atendimentos relacionados a motocicletas, os dados do Hospital Tarcísio Maia mostram que aproximadamente oito em cada dez vítimas de acidentes de trânsito admitidas na unidade estão envolvidas em ocorrências com motos.
Walfredo Gurgel
O Hospital Monsenhor Walfredo Gurgel, em Natal, recebe, em média, uma vítima de acidente de motocicleta a cada três horas. O dado consta no “Observatório de Vigilância sobre Violência no Trânsito”, elaborado pelo Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (LAIS/UFRN) e entregue à Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap) em maio deste ano.
O levantamento aponta uma média de 58 atendimentos de motociclistas acidentados por semana no maior hospital público do Rio Grande do Norte. A proximidade com 60 ocorrências semanais foi classificada pelo estudo como “Barreira dos 60”, patamar que coloca pressão sobre a estrutura responsável pelo atendimento aos pacientes traumatizados.
“Na prática, o hospital recebe um novo trauma de motos a cada três horas, ininterruptamente. Qualquer variação acima sobrecarrega as salas de cirurgias e as equipes de ortopedia”, afirmou o pesquisador Ricardo Valentim, do LAIS e um dos autores do levantamento.
Os dados são acompanhados desde janeiro de 2025. O maior número mensal foi registrado em dezembro do ano passado, com 304 internações, o equivalente a aproximadamente dez pacientes por dia. O resultado representou aumento de 20%. Já o menor volume ocorreu em abril deste ano, quando foram contabilizados 211 casos.
Para os pesquisadores, mais do que a quantidade acumulada ao longo do mês, a frequência com que novos pacientes chegam ao pronto-socorro ajuda a dimensionar o impacto dos acidentes sobre o funcionamento da unidade. “O hospital não tem ‘respiro’: a cada 180 minutos, o sistema de trauma é acionado para um novo motociclista”, aponta o documento.
Diante desse cenário, o LAIS recomenda que o planejamento do estoque de órteses, próteses e materiais especiais considere a média de aproximadamente 60 pacientes por semana. A medida busca garantir capacidade de atendimento também nos períodos em que o número de vítimas ultrapassa 65 casos semanais, evitando comprometimento do tempo necessário para realização de cirurgias.
Ricardo Valentim avalia que a quantidade de vítimas representa um problema de saúde pública que exige medidas para além do atendimento hospitalar. Entre os pontos levantados pelo pesquisador está a situação dos trabalhadores que utilizam motocicletas diariamente para exercer atividades profissionais.
“Precisa de maior atenção das autoridades, tanto do poder público, da classe política, para que a gente consiga elaborar um processo de maior regulação, principalmente sobre aquelas pessoas que trabalham utilizando motocicletas”, afirmou.
Segundo o pesquisador, o uso da motocicleta como instrumento de trabalho faz parte da rotina das cidades, mas aumenta a exposição dos condutores aos riscos do trânsito. Ele defende maior investimento em educação, prevenção e políticas públicas voltadas a esses profissionais.
A Sesap informou que os dados mostram a pressão contínua dos acidentes sobre o Walfredo Gurgel, principalmente nas áreas cirúrgicas e de ortopedia. Para a secretaria, o problema também gera impacto financeiro e mobiliza permanentemente profissionais e a estrutura da rede pública.
“A violência no trânsito, por sua vez, já se consolida como uma grave questão de saúde pública. Além do impacto irreparável na perda de vidas, gera um elevado custo para o sistema público de saúde, mobilizando recursos humanos, estruturais e financeiros de forma contínua e crescente”, afirmou a pasta.
O Observatório foi incorporado ao sistema Protocolo Eletrônico do Paciente (PEP Mais RN). Segundo a Sesap, o uso dessas informações permite acompanhar o perfil dos atendimentos e produzir dados para subsidiar políticas públicas de prevenção aos acidentes.
A presença das motocicletas nos acidentes ocorre em um cenário de crescimento da frota no Rio Grande do Norte. Dados divulgados pelo Departamento Estadual de Trânsito (Detran-RN) em 2025 apontaram que o Estado tinha mais de 680 mil motocicletas registradas, número que, pela primeira vez, ultrapassou a quantidade de automóveis.
Outro levantamento do órgão mostrou que mais de 340 mil proprietários de motocicletas, ciclomotores, motonetas e triciclos não possuíam Carteira Nacional de Habilitação (CNH), o equivalente a aproximadamente metade dos proprietários desses veículos.
Dados divulgados pela Secretaria de Estado da Segurança Pública e da Defesa Social (Sesed) também apontaram que mais de 60% das mortes registradas em acidentes de trânsito no Rio Grande do Norte em 2024 envolveram motocicletas.
Para a Sesap, os números registrados no Walfredo Gurgel representam apenas parte do impacto dos acidentes no Estado, uma vez que outras unidades de saúde também recebem vítimas. A pasta defende que o enfrentamento do problema envolva diferentes áreas do poder público e seja orientado por dados sobre a violência no trânsito.