BUSCAR
BUSCAR
Política

Michelle deixa comando do PL Mulher e ameaça não ser candidata ao Senado

Ex-primeira-dama diz que vai priorizar cuidados com Jair Bolsonaro e a filha, demonstra desânimo com candidatura ao Senado e volta a alimentar tensão interna ao compartilhar vídeo sobre suposta festa de banqueiro
Por O Correio de Hoje
01/07/2026 | 15:25

A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) decidiu deixar a presidência nacional do PL Mulher, aprofundando o desgaste político após a crise aberta com o senador e pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ), seu enteado. A decisão foi comunicada ao presidente nacional do partido, Valdemar Costa Neto, durante reunião realizada nesta terça-feira 30, em Brasília, e anunciada por Michelle nas redes sociais ao fim do dia.

Em nota, ela afirmou que a decisão foi tomada após conversar com o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e que pretende dedicar atenção integral à família. “Após muito refletir com o meu marido sobre o momento em que estamos vivendo em nossa família, reuni-me com o presidente do Partido Liberal na tarde de hoje e lhe comuniquei a minha decisão de deixar a presidência do PL Mulher para me dedicar, integralmente, aos cuidados para com o meu marido e minha filha”, escreveu.

capa 1
Ex-primeira-dama também pode desistir de ser candidata ao Senado pelo DF - Foto: Instagram / Reprodução

A saída ocorre em meio ao descontentamento de Michelle com os desdobramentos da disputa interna no PL. Desde que tornou públicas as críticas ao enteado por causa das articulações políticas da legenda, especialmente em torno da disputa pelo Governo do Ceará, a ex-primeira-dama passou a relatar ataques direcionados a ela e a aliados. Pessoas próximas afirmam que ela se sente isolada dentro do partido e avalia que nomes apoiados por seu grupo têm sido sistematicamente ignorados nas decisões da sigla, o que teria esvaziado sua atuação no comando do segmento feminino.

Aliados também relatam que Michelle está cada vez mais desanimada com a possibilidade de disputar uma vaga ao Senado pelo Distrito Federal. Segundo pessoas próximas, ela sempre teria afirmado, em conversas reservadas, que aceitava a candidatura apenas por um pedido do ex-presidente Jair Bolsonaro e jamais se apresentou publicamente como pré-candidata, repetindo que seu futuro político estaria “nas mãos de Deus”.

A avaliação entre interlocutores é de que a desistência da disputa eleitoral ganhou força após o agravamento da crise familiar. Para aliados, uma eventual saída da corrida eleitoral serviria também como demonstração de que Michelle nunca pretendeu disputar a Presidência da República em substituição a Flávio Bolsonaro. Há, contudo, quem argumente que esse movimento poderia transmitir às mulheres a mensagem de que não há espaço para elas na política, justamente uma bandeira que ela buscou defender durante sua atuação à frente do PL Mulher.

Na mensagem de despedida, Michelle agradeceu às dirigentes estaduais e municipais do movimento feminino do partido pelo trabalho desenvolvido nos últimos anos. “Peço a Deus que esteja sempre com vocês, inspirando e conduzindo esse trabalho e que as mulheres ocupem, cada vez mais, os lugares que lhes pertencem nas esferas de decisão e de poder. Vocês estarão sempre nas minhas orações como forma de gratidão e de amor por cada uma de vocês”, escreveu.

Ela também agradeceu a Valdemar Costa Neto pela confiança e pela autonomia concedida durante sua gestão à frente do PL Mulher. A tendência é que a atual vice-presidente nacional do segmento, a vereadora de Fortaleza Priscila Costa, assuma a condução do grupo. A candidatura da parlamentar ao Senado pelo Ceará foi justamente um dos pontos que contribuíram para o atrito entre Michelle e os filhos do ex-presidente.

Valdemar procurou minimizar o conflito interno e afirmou que compreende a decisão da ex-primeira-dama. “Michelle passa por um momento difícil, sente de perto as injustiças e as angústias que o maior líder da história recente deste país vem passando”, afirmou.

Segundo ele, Michelle “fez um excelente trabalho à frente do PL Mulher” e optou por concentrar seus esforços em cuidar de Jair Bolsonaro. O dirigente acrescentou que o crescimento do partido tornou naturais as divergências. “O PL cresceu demais, e eu entendo que as divergências crescem também. É natural isso. Temos muitos líderes no partido e, por maiores que sejam as divergências, o que nos une é muito maior.”

Michelle também não deverá participar da reunião convocada pela pré-campanha de Flávio Bolsonaro nesta quarta-feira 1º, destinada à discussão de propostas voltadas ao eleitorado feminino. A senadora Damares Alves (Republicanos-DF), aliada da ex-primeira-dama, também deve ficar fora do encontro.

Novo gesto amplia tensão

Em meio ao seu afastamento da presidência do PL Mulher, Michelle voltou a alimentar a crise interna ao compartilhar, nas redes sociais, um vídeo do ex-governador Anthony Garotinho (Republicanos-RJ) sobre uma suposta festa promovida pelo banqueiro Daniel Vorcaro, da qual, segundo ele, teriam participado “deputados, senadores e governadores, homens que defendem a família”.

A publicação foi feita pouco antes da partida entre Brasil e Japão pela Copa do Mundo, na segunda-feira 29. Michelle republicou, nos stories do Instagram, uma manifestação da influenciadora Juliana Moreira Leite comentando o vídeo de Garotinho, acompanhada da mensagem: “A verdade de Jesus Cristo vai prevalecer”.

No vídeo, Garotinho faz referência à chamada “noite das astronautas” e afirma que haveria mulheres nuas usando capacetes, escolhidas por participantes do evento. Segundo ele, elas seriam estrangeiras para que não compreendessem o que seria dito durante a festa.

A publicação ocorreu cinco dias após Michelle tornar público o desentendimento com Flávio Bolsonaro. Em vídeo divulgado nas redes sociais, ela afirmou ter sido “maltratada” pelo enteado após criticar as articulações do PL no Ceará. Segundo Michelle, Flávio falou com rispidez durante uma ligação telefônica e disse que ela deveria permanecer afastada das decisões partidárias porque “não entendia de política”.

De acordo com o relato da ex-primeira-dama, ela tentou contato com o senador após tornar públicas as críticas às negociações do partido e, quando recebeu o retorno, ouviu que seria melhor não interferir nos rumos da legenda.

Segundo o colunista Lauro Jardim, a reunião entre Michelle e Valdemar Costa Neto buscava construir uma solução que reduzisse a tensão entre os integrantes da família Bolsonaro. Os movimentos da ex-primeira-dama, porém, indicam que o clima permanece longe de um desfecho definitivo.