Na entrevista que escolheu dar à Record no horário do primeiro debate presidencial, no domingo 23, o presidente Lula (PT) fez da economia seu principal argumento de campanha, criticando adversários que fazem “pirotecnia” em vez de apresentar dados. Os números que ele reivindicou têm lastro nas estatísticas oficiais — com uma ressalva. O IPCA acumulado em 12 meses caiu pelo terceiro mês seguido e está em 4,44% até julho, com variação mensal de apenas 0,07%, segundo consulta do Agora RN aos dados do IBGE nesta segunda-feira 24; a desocupação nacional, medida pela Pnad Contínua, está em 5,4% no segundo trimestre. O limite do argumento: a inflação, embora dentro do intervalo de tolerância da meta contínua, ainda roda acima do centro de 3% perseguido pelo Banco Central.
A entrevista a Mariana Godoy, no Domingo Espetacular, ficou marcada pela resposta sobre o filho Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha — “ninguém está acima da lei”, disse o presidente, negando qualquer tentativa de blindagem diante da investigação da Polícia Federal, como detalhou o O Correio de Hoje na edição desta segunda-feira 24. Mas a conversa foi além do caso: Lula tratou das tarifas de Donald Trump — tema do telefonema que fez ao americano na sexta-feira 21 —, do combate ao feminicídio, para o qual citou o conjunto de leis e decretos editados no mandato, e da taxa de juros, conforme o registro dos principais trechos publicado pelo jornal O Tempo.

A escolha de horário foi deliberada: convidado para o debate da Band, o presidente preferiu a entrevista gravada, deixando púlpito vazio no estúdio — estratégia que rendeu críticas dos três candidatos presentes e dividiu a audiência da noite eleitoral. Flávio Bolsonaro seguiu o mesmo caminho e também não compareceu.
O caso que motivou a pergunta mais dura da entrevista continuou se movendo nesta segunda-feira 24. A Polícia Federal deflagrou a Operação Elli, com quebra de sigilos de Lulinha e da lobista Roberta Luchsinger em apuração sobre suspeitas de lavagem de dinheiro — o nome da operação, aliás, causou incômodo no entorno do presidente, interpretado por aliados como referência ao “Faz o L”. Na entrevista, gravada antes, Lula já havia afirmado que o filho “terá de provar a inocência” e que não interfere no trabalho da PF: “Eu não ameaço mandar ministro embora. Eu não ameaço punir delegado. Investigue-se”.
O ex-chefe de gabinete Marco Aurélio Ribeiro, o Marcola, também citado na investigação, recebeu R$ 249 mil de Luchsinger — valor que ele atribui a um empréstimo pessoal já quitado — e teve outras despesas pagas pela lobista, segundo revelou a Folha de S.Paulo. Ele deixou o Palácio do Planalto em junho e, depois, a própria campanha de Lula.
No balanço da noite, o presidente usou a vitrine televisiva para defender que a eleição se decida por resultados — e os indicadores que citou, de fato, caminham a seu favor: além da inflação em desaceleração e da desocupação nacional em 5,4%, o IBGE registra a taxa dos potiguares em 5,6%, praticamente colada na média do país. O que os números não respondem — e a campanha vai testar até outubro — é se a sensação de vida melhor acompanha as estatísticas.