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Eleições 2026

Lula e Allyson levam chapéu à urna e transformam acessório em marca eleitoral

Presidente leva panamá à foto da urna após recomendação médica, enquanto candidato ao Governo do RN reforça no chapéu de vaqueiro a identidade sertaneja que já explora politicamente há anos
Redação
13/08/2026 | 08:57

Um usa panamá. O outro, chapéu de vaqueiro. Separados pela geografia, pela posição na disputa nacional e por histórias políticas distintas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o candidato ao Governo do Rio Grande do Norte Allyson Bezerra (União Brasil) chegaram às eleições de 2026 com um ponto visual em comum. Os dois decidiram aparecer de chapéu na fotografia apresentada à Justiça Eleitoral para identificação na urna. Em ambos os casos, o acessório ultrapassou a função original e passou a ocupar espaço de destaque na construção da imagem eleitoral.

No caso de Allyson, a coincidência ganhou projeção nacional nesta quarta-feira 12, quando a coluna Painel, da Folha de S.Paulo, destacou que o ex-prefeito de Mossoró também registrou sua candidatura usando chapéu, assim como Lula. O potiguar escolheu o modelo de vaqueiro e associou a decisão às próprias origens. Nascido e criado no Sítio Chafariz, na zona rural de Mossoró, Allyson afirma que convive com o acessório desde criança e o relaciona à cultura sertaneja.

Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o candidato ao Governo do Rio Grande do Norte Allyson Bezerra (União Brasil) - Foto: divulgação | Os dois decidiram aparecer de chapéu na fotografia apresentada à Justiça Eleitoral
Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o candidato ao Governo do Rio Grande do Norte Allyson Bezerra (União Brasil) - Os dois decidiram aparecer de chapéu na fotografia apresentada à Justiça Eleitoral - Foto: divulgação

A presença do chapéu na comunicação de Allyson, porém, não nasceu em 2026. Na campanha para a reeleição em Mossoró, em 2024, o objeto já aparecia de forma recorrente em agendas, fotografias e atos políticos, inclusive sendo reproduzido por apoiadores. Reportagem do AGORA RN publicada naquele ano registrou crianças, jovens e idosos usando modelos semelhantes ao lado do então candidato. Em fevereiro deste ano, quando já se movimentava para disputar o Governo, Allyson apareceu em vídeo com uma versão estampada com o brasão e as cores do Rio Grande do Norte para dizer que percorreria o Estado.

A estratégia acompanha uma campanha fortemente centrada na biografia do candidato. Em julho, outra reportagem da Folha descreveu a tentativa de Allyson de combinar a origem humilde, a presença física nos municípios, a força nas redes sociais e a neutralidade na polarização presidencial. O jornal observou que o ex-prefeito, então com cerca de 400 mil seguidores, já utilizava o chapéu de couro como marca para reforçar uma imagem popular durante as viagens pelo RN.

Agora, o símbolo chegou também à urna. Allyson não demonstra preocupação com uma eventual contestação da fotografia e argumenta que o acessório está incorporado à sua imagem e à cultura das cidades sertanejas. À Folha, foi além ao projetar o objeto para um eventual mandato. “Vou governar de chapéu, e usarei até em reunião com o presidente da República”, afirmou.

Com Lula, o caminho foi diferente. O chapéu surgiu primeiro por uma razão médica. O presidente retirou em abril um carcinoma basocelular no couro cabeludo e, depois do procedimento, realizou 15 sessões de radioterapia. A recomendação foi proteger a região da exposição solar, e o panamá passou progressivamente a integrar suas aparições públicas.

O que começou como proteção, entretanto, tornou-se também imagem. Segundo reportagem de O Globo, reproduzida pela Tribuna do Sertão, integrantes da campanha avaliam que o chapéu transmite a Lula, aos 80 anos, aparência mais leve e renovada. A decisão de usá-lo na fotografia da urna teria partido do próprio presidente. O registro foi feito em 4 de agosto, no Palácio do Planalto. A mesma reportagem informou que a imagem publicada nas redes sociais havia alcançado 14 milhões de visualizações até a manhã de quarta-feira 12 e já era a segunda publicação de campanha de maior alcance do petista.

Lula já reúne mais de 30 modelos. Recebe chapéus de amigos, ministros e da primeira-dama Janja da Silva, e o acessório passou a ser considerado entre pessoas próximas quase uma escolha segura de presente para o presidente. A tendência da campanha é mantê-lo nas próximas aparições, transformando em marca eleitoral algo incorporado ao figurino originalmente por necessidade de saúde.

A novidade abriu também uma discussão jurídica. As regras para as fotografias apresentadas à Justiça Eleitoral exigem imagem recente, frontal, em enquadramento de busto e com fundo uniforme. A norma admite indumentárias de caráter étnico ou religioso e acessórios necessários a pessoas com deficiência, mas restringe elementos cênicos e adornos, particularmente quando tenham conotação eleitoral ou prejudiquem a identificação do candidato.

Há um precedente importante, mas não uma liberação geral. Em 2022, o TSE permitiu que Douglas Belchior, então candidato a deputado federal pelo PT de São Paulo, aparecesse na urna usando um boné de aba reta. A fotografia havia sido rejeitada pelo TRE paulista, mas o ministro Sérgio Banhos considerou que, naquele caso específico, o acessório estava ligado à identidade sociocultural de Belchior, afrodescendente e vinculado à cultura rapper, sem prejudicar seu reconhecimento. A decisão foi individual e não autorizou automaticamente chapéus e outros adornos para todos os candidatos.

Por isso, aliados de Lula chegaram a manifestar cautela diante da possibilidade de questionamento. A campanha aposta justamente nesse precedente para defender a foto caso seja necessário. No caso de Allyson, até agora não houve, segundo ele próprio, contestação.

Chapéu de Allyson já virou alvo dos adversários

No Rio Grande do Norte, a controvérsia ultrapassou há meses a questão jurídica e entrou diretamente na luta política. Em maio, o senador Rogério Marinho (PL), principal articulador da candidatura de Álvaro Dias (PL), ironizou o acessório usado por Allyson e o chamou de “chapéu esquisito”. A fala produziu forte reação porque atingiu uma peça tradicionalmente associada ao vaqueiro e à cultura sertaneja.

Allyson aproveitou o ataque para reforçar justamente a simbologia que Rogério pretendia ridicularizar. Acusou o senador de preconceito e arrogância, lembrou que Marinho já havia elogiado seu chapéu durante a campanha de 2022 e anunciou que intensificaria o uso do acessório. A polêmica, na prática, ampliou a exposição de uma marca que a comunicação do ex-prefeito já vinha consolidando.

Cadu Xavier (PT), outro adversário na disputa pelo Governo, adotou caminho diferente. Defendeu o chapéu de couro como patrimônio do sertanejo, mas atacou sua apropriação política por Allyson. Para o petista, o problema estaria em utilizar um símbolo popular para construir uma imagem que considera incompatível com a atuação política do ex-prefeito. Cadu resumiu a crítica dizendo ser reprovável usar o chapéu para “enganar o povo”.

A mesma crítica aparece em artigos de opinião publicados no Estado. Há quem sustente que o chapéu de Allyson funciona menos como hábito cotidiano e mais como peça cuidadosamente incorporada ao personagem eleitoral de homem simples, sertanejo e próximo das camadas populares. Trata-se de interpretação política de adversários e articulistas, contraposta pelo próprio candidato, que insiste na ligação do acessório com sua infância e sua origem rural.

A semelhança entre Lula e Allyson termina aí. O candidato do União Brasil mantém neutralidade na corrida presidencial e afirma que não apoiará a reeleição do petista. Recorda que, em 2024, Jair Bolsonaro apoiou um adversário seu em Mossoró enquanto Lula gravou mensagem para outro, e que ainda assim venceu a eleição. *“As pessoas estão interessadas em meu histórico de trabalho”, afirmou à *Folha.

Politicamente distantes, os dois candidatos chegaram, porém, a uma conclusão parecida sobre comunicação. Na eleição em que cada fotografia disputa segundos de atenção nas telas e nas redes, um acessório pode valer mais do que ornamentação. Lula converteu uma proteção recomendada pelos médicos em componente de uma imagem renovada. Allyson levou para a urna um símbolo que há anos associa à própria origem e que já enfrentou ataques, críticas e acusações de marketing eleitoral. O panamá e o chapéu de vaqueiro passaram, cada um à sua maneira, a dizer alguma coisa sobre quem está embaixo deles.

Urna foto Fernando Frazão ABr
Urna eletrônica – Foto: Fernando Frazão / Agência Brasil