O senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) prepara a sexta viagem aos Estados Unidos em 2026, frequência superior à registrada em parte dos principais colégios eleitorais brasileiros desde o lançamento de sua pré-candidatura. A nova passagem por Washington terá como foco uma audiência sobre a possível imposição de tarifas americanas a produtos do Brasil, medida que, segundo o próprio parlamentar, pode produzir uma “vitória política” para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Na quinta-feira 2, Flávio apresentou ao Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) um documento de 86 páginas no qual argumenta que a sobretaxa em análise pelo governo Donald Trump pode gerar efeito contrário ao pretendido por Washington. A manifestação também sugere que eventuais restrições às exportações brasileiras sejam decididas somente após as eleições de outubro.

A posição provocou reação de Lula, que acusou a família Bolsonaro de agir contra os interesses nacionais. O presidente classificou seus integrantes como “traidores da pátria”, falou em entreguismo e afirmou que não existe justificativa para a adoção de tarifas contra o Brasil, seja antes ou depois do pleito.
A agenda internacional de Flávio ganhou peso desde dezembro, período marcado também por crises internas no campo bolsonarista. A mais recente foi aberta por um vídeo em que Michelle Bolsonaro afirmou ter sido “maltratada” pelo senador. Paralelamente às viagens ao exterior, o pré-candidato deixou de visitar dez estados brasileiros, todos nas regiões Norte e Nordeste, justamente onde enfrenta maior desvantagem eleitoral em relação a Lula.
Desde o lançamento da pré-candidatura ao Palácio do Planalto, Flávio esteve cinco vezes nos Estados Unidos. A primeira viagem ocorreu em janeiro, quando tentou articular uma agenda com o secretário de Estado americano, Marco Rubio. Em maio, realizou outras duas viagens: uma para encontros com empresários e outra para uma reunião com Trump na Casa Branca.
A sexta ida terá novamente Washington como destino. Em 6 de julho, Flávio deverá participar de audiência pública promovida pelo USTR para discutir a proposta de sobretaxa de 25% sobre produtos brasileiros. O prazo para o governo americano decidir sobre a adoção das tarifas termina em 15 de julho, pouco mais de uma semana depois da audiência.
Presença no Brasil
Entre aliados, cresce a avaliação de que a pré-campanha precisa concentrar mais esforços na construção de palanques estaduais e ampliar a presença de Flávio em áreas onde o bolsonarismo historicamente encontra maior resistência. Até o momento, o senador não passou por Acre, Alagoas, Amapá, Amazonas, Ceará, Pernambuco, Piauí, Roraima, Sergipe e Tocantins.
Nesta sexta-feira 3, Flávio tem agenda prevista no Rio de Janeiro e na Paraíba. Após retornar dos Estados Unidos, deverá visitar Pernambuco e Ceará. A passagem pelo território cearense é considerada especialmente sensível depois da crise envolvendo Michelle Bolsonaro, desencadeada por divergências sobre o apoio a Ciro Gomes e pela exclusão de Priscila Costa, aliada da ex-primeira-dama, da chapa ao Senado.
Nos bastidores, a visita ao Ceará é tratada como um teste para a capacidade da campanha de recompor relações com lideranças locais. A viagem aos Estados Unidos também terá uma dimensão interna: Flávio deve encontrar o irmão Eduardo Bolsonaro, que permanece no país. Aliados esperam que a reunião ajude a alinhar a comunicação da pré-campanha após novos desgastes, entre eles declarações de influenciadores ligados ao deputado, como Paulo Figueiredo, que afirmou que mulheres “votam mal”.
No documento entregue ao USTR, Flávio tenta convencer as autoridades americanas de que as tarifas podem fortalecer Lula politicamente, em vez de aumentar a pressão sobre seu governo. Para sustentar a tese, cita pesquisas eleitorais realizadas durante o período em que Trump intensificou sua política tarifária, no fim de 2025.
“Em outras palavras: as tarifas propostas dariam ao atual governo brasileiro exatamente a vitória política que ele vem buscando, ao mesmo tempo em que puniriam a economia americana e os próprios brasileiros que buscam uma relação mutuamente benéfica com os Estados Unidos”, afirmou.
A investigação conduzida pelo USTR envolve políticas brasileiras relacionadas ao comércio digital e ao Pix, além de propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol, combate à corrupção e questões ambientais.
Na avaliação de Flávio, porém, as críticas americanas têm como principais alvos o governo Lula e decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) contra Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos de prisão por liderar uma trama golpista. O senador argumenta que uma tarifa generalizada não atingiria diretamente nem o Executivo nem o Judiciário.
“Como o próprio presidente (Trump) enquadrou a questão, o alvo é a conduta do governo e do Judiciário. Uma tarifa de 25% sobre praticamente toda a economia brasileira não atinge nenhum dos dois. Ela atinge exportadores, importadores americanos, consumidores dos EUA e a população brasileira que se opõe justamente às condutas em questão”, escreveu Flávio.
O pré-candidato também pediu ao governo americano a criação imediata de um mecanismo de negociação bilateral sobre os temas investigados pelo USTR.
A campanha de Lula, por sua vez, vê o confronto em torno das tarifas como um tema com potencial de mobilização eleitoral. Ao responder à manifestação de Flávio, o presidente procurou associar a discussão à defesa da soberania brasileira.
“Nós sempre vamos dialogar de igual pra igual com qualquer nação do mundo. Pedir que o tarifaço contra o nosso país seja adiado para depois das eleições é mais uma atitude de traidores da Pátria. Nunca houve e não há qualquer justificativa para tarifaço agora ou depois”, afirmou Lula.
O presidente também classificou como “absurdo” o incentivo às tarifas por integrantes da família Bolsonaro, em referência indireta à atuação de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos em favor de sanções. Lula criticou ainda o trecho do documento em que Flávio questiona “amarras” do Mercosul e sugere a possibilidade de beneficiar operadoras de cartões de crédito com tarifas menores.
A investigação relacionada ao Pix parte da alegação de que o sistema brasileiro prejudicaria a concorrência no setor de meios de pagamento e afetaria grandes empresas americanas.
Além da manifestação de Flávio, Paulo Figueiredo apresentou parecer próprio ao USTR. No documento, o influenciador pede que o governo Trump abandone a proposta de sobretaxar produtos brasileiros e concentre eventuais medidas em sanções individuais contra autoridades do país, especialmente ministros do STF.
Figueiredo sustenta que a tarifa de 25% “atinge o alvo errado” e defende a retomada e a ampliação de sanções baseadas na Lei Global Magnitsky contra o ministro Alexandre de Moraes.