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Crime organizado

Cocaína já vale mais que ouro na Amazônia

Levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indica que valor da droga apreendida supera ouro, animais vivos e produtos oleaginosos na economia regional
Por O Correio de Hoje
03/07/2026 | 15:18

A cocaína já ocupa a sexta posição entre os produtos de maior valor econômico da Amazônia Legal quando considerados apenas os volumes apreendidos pelas forças de segurança. Segundo levantamento inédito do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), obtido pelo jornal O Globo, a droga movimentou o equivalente a US$ 703,7 milhões na região em 2024, superando produtos tradicionais da pauta econômica amazônica, como ouro, animais vivos e produtos oleaginosos.

O estudo também mostra que o narcotráfico consolidou uma estrutura de controle territorial e econômico que ultrapassa a esfera da segurança pública e influencia diretamente o desenvolvimento da região. O levantamento integra o estudo “Governança criminal e riscos sistêmicos na Pan-Amazônia: territórios, economias e modos de vida sob ameaça”, que será apresentado à Concertação pela Amazônia, rede formada por representantes do poder público, setor privado, universidades e organizações da sociedade civil.

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De acordo com o estudo, apenas cinco grupos econômicos movimentam valores superiores aos da cocaína na Amazônia Legal: o complexo da soja, com US$ 20,34 bilhões; cereais, farinhas e preparações, com US$ 6,52 bilhões; carnes, com US$ 5,55 bilhões; fibras e produtos têxteis, com US$ 3,46 bilhões; e produtos florestais, com US$ 1,36 bilhão. A cocaína aparece logo em seguida, à frente das exportações de animais vivos (US$ 540 milhões), produtos oleaginosos, demais produtos de origem animal e ouro.

Para o diretor-presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Renato Sérgio de Lima, os números ainda representam um cenário conservador, uma vez que refletem apenas a droga apreendida pelas autoridades.

“A gente optou por usar o dado concreto da apreensão. Agora, vamos fazer um exercício: se a estimativa mais otimista é que só 10% do total de entorpecente que circula é apreendido, significa que a cocaína valeria US$ 7 bilhões. É possível pensar que a droga seja a segunda ‘commodity’ da região que mais gera riqueza, perdendo apenas para a cadeia do complexo da soja”, destaca Lima.

A Amazônia Legal compreende os estados do Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins, além de Mato Grosso e parte do Maranhão. A região concentra a maior extensão da Floresta Amazônica e abriga áreas do Cerrado e do Pantanal.

Segundo os pesquisadores, o tráfico de drogas deixou de representar apenas um problema de segurança pública para se transformar em um motor econômico ilícito capaz de distorcer mercados, financiar outras atividades criminosas e estabelecer estruturas permanentes de poder em diversas áreas da floresta.

O estudo aponta que, na última década, a Amazônia passou de corredor estratégico para o narcotráfico a centro logístico do crime organizado transnacional. Rios, florestas e áreas remotas passaram a funcionar como rotas para o transporte da cocaína produzida na Colômbia, Peru e Bolívia.

Além do transporte internacional da droga, as organizações criminosas estruturaram esquemas de lavagem de dinheiro em atividades legais, investiram em logística, ampliaram redes de corrupção de agentes públicos e passaram a utilizar os lucros para financiar outros crimes ambientais, como garimpo ilegal, grilagem de terras e exploração clandestina de madeira. O levantamento identifica a atuação de pelo menos 17 facções criminosas ligadas ao narcotráfico na Amazônia. Entre elas, o Comando Vermelho (CV) aparece como o grupo com maior presença territorial, seguido pelo Primeiro Comando da Capital (PCC).

Segundo Renato Sérgio de Lima, essas organizações passaram a reproduzir na região amazônica um modelo semelhante ao observado em comunidades dominadas por facções no Rio de Janeiro e em São Paulo.

“É muito parecido com o que acontece nas comunidades do Rio, mas com as características da Amazônia. Chegamos a um momento onde não é terrorismo, não é crime ambiental, não são só problemas prisionais… O crime organizado assumiu a regulação de territórios, economias e modos de vida na chave da governança. E rivalizando, em função de todas as dificuldades da região, com o Poder Público”, reforça Renato Lima.

Segundo a pesquisa, além do controle territorial, esses grupos impõem regras locais, regulam mercados, utilizam violência para manter o domínio e reduzem a presença efetiva do Estado em diversas localidades. O estudo concluiu que 170 dos 772 municípios da Amazônia Legal apresentam extrema exposição ao crime organizado, concentrando aproximadamente 23% da população regional.

Esses municípios possuem características semelhantes: forte dependência de recursos públicos, baixa capacidade de geração de riqueza, presença de garimpos e maior vulnerabilidade à expansão das facções criminosas. Entre eles estão as capitais Macapá (AP) e Boa Vista (RR).

Quando considerados os municípios classificados com alta ou extrema exposição ao crime organizado, eles concentram R$ 538,1 bilhões do Produto Interno Bruto (PIB) da Amazônia Legal, o equivalente a 51,5% da economia regional. Apesar disso, representam apenas 4,8% do PIB brasileiro.

Para Renato Sérgio de Lima, esse baixo peso econômico no cenário nacional contribui para que o tema não receba a mesma atenção política dispensada a outros problemas do País. “O problema é sério para a Amazônia, mas não ganha a centralidade político-institucional porque a economia da região não tem grandes participações na brasileira”, lamenta o diretor-presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

O estudo atribui a consolidação do crime organizado na Amazônia a uma combinação de fatores nacionais e internacionais. Entre eles está a reorganização do mercado de drogas na Colômbia após o acordo de paz firmado com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Com a fragmentação dos grupos armados, a produção de cocaína aumentou significativamente, impulsionando a utilização da Amazônia como principal corredor para abastecimento dos mercados europeu e africano.