A indústria brasileira deve atravessar 2026 em um ambiente de desaceleração mais disseminada da atividade econômica e impacto direto dos juros elevados sobre o setor produtivo. A avaliação foi apresentada pela economista Larissa Nocko, especialista em políticas e indústria da Confederação Nacional da Indústria, durante a primeira Reunião de Diretoria da FIERN deste ano, realizada nesta sexta-feira 27, na Casa da Indústria.
Ao detalhar o “Cenário Econômico e Perspectivas para 2026”, a especialista afirmou que o crescimento projetado para este ano deve ser o menor dos últimos cinco anos, com perda de fôlego mais evidente na indústria. Segundo ela, embora a desaceleração seja generalizada, os sinais de enfraquecimento são mais claros no setor industrial.

Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada apontam queda na demanda e deterioração da confiança do empresário industrial. O quadro é agravado pelo avanço das importações, especialmente de bens de consumo, que vêm capturando parcela relevante do mercado interno.
Dentro do setor, o segmento extrativo aparece como ponto fora da curva. De acordo com Nocko, a produção de petróleo e minério de ferro sustentou um desempenho relativamente melhor frente à indústria de transformação, que registrou recuo. “Tivemos um crescimento forte da produção extrativa – petróleo e minério de ferro – enquanto a indústria de transformação apresentou um recuo. Diferente do que aconteceu em 2024”, afirmou. Mesmo com eventual leve queda, o patamar da atividade extrativa permanece elevado, sustentado pelo aumento da produção.
A economista também destacou que, apesar da melhora no cenário inflacionário, a taxa básica de juros segue em nível restritivo, penalizando sobretudo os segmentos mais dependentes de crédito. Com a inflação em trajetória de desaceleração, a expectativa é de que o Banco Central do Brasil tenha espaço para iniciar um ciclo de cortes na Taxa Selic ao longo do ano. Ainda assim, segundo ela, o ambiente continuará desafiador. “Embora estejamos falando de um início de ciclo de corte de juros, ainda representa um cenário restritivo”, afirmou.
A CNI projeta que, apesar da perda de ritmo, o crescimento econômico de 2026 permanecerá positivo. O principal motor deverá ser a demanda interna, sustentada por um mercado de trabalho ainda aquecido. O setor de serviços segue em expansão e tem contribuído para amortecer a desaceleração mais intensa observada na indústria.
“O mercado de trabalho resiliente, com reajuste do salário mínimo e ampliação da faixa de desoneração do imposto de renda, impede uma desaceleração ainda mais forte da demanda”, concluiu Nocko.
O presidente da FIERN, Roberto Serquiz, ressaltou a importância da leitura técnica da CNI para balizar as projeções do setor produtivo. Segundo ele, mesmo em um ano eleitoral marcado por polarização, o cenário não aponta risco de retração. “Não há perigo de queda de crescimento. É um crescimento fraco, mas que será mantido”, afirmou.
Serquiz destacou ainda dois fatores que vêm pressionando a confiança do empresariado: a implementação da reforma tributária e a discussão sobre redução da jornada de trabalho. “São duas mudanças estruturantes, simultaneamente”, observou. Apesar das incertezas, avaliou que 2025 se encerra com estabilidade na demanda e no mercado de trabalho. “Vivemos um momento de inquietação, mas o empresário tem a capacidade de superar e conviver com essas instabilidades”, disse.
Durante o encontro, o presidente também apresentou à diretoria o Sindicato da Indústria de Moagem e Refino de Sal do RN (SIMORSAL-RN), novo associado à Federação. A entidade é presidida por Conceição Praxedes, quarta mulher à frente de um sindicato filiado à FIERN. A dirigente afirmou que já mapeou demandas prioritárias do setor para encaminhar junto à Federação e destacou a estrutura de apoio oferecida pela entidade.
A reunião incluiu ainda apresentações institucionais sobre o calendário de eventos e projetos da FIERN, além da exposição de novas iniciativas previstas para 2026. O encontro foi realizado na mesma data em que a Federação celebra seu aniversário de fundação.