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Alternativa

Após tarifaço dos EUA, sal e pesca do RN pedem apoio para vender para a Europa

Enquanto pescado potiguar enfrenta embargo sanitário, sal tem barreira tributária para entrar na Europa; Federação diz estudar opções viáveis
Redação
01/08/2025 | 04:04

Os setores de sal e pesca do Rio Grande do Norte veem na Europa uma alternativa para a exportação de produtos depois que o governo dos Estados Unidos confirmou a imposição de um tarifaço. Representantes dos dois setores, porém, pedem apoio do Governo Federal e do Governo do Estado para superar entraves burocráticos que dificultam o acesso das mercadorias potiguares ao continente europeu.

A Federação das Indústrias do Rio Grande do Norte (Fiern) afirma que sal, pescados e confeitos representam cerca de 80% de tudo o que é exportado do Estado para o mercado americano. Com a taxa de 50%, os produtos potiguares ficaram muito pouco competitivos para os Estados Unidos – o que demanda o envio de mercadorias para outros lugares, além, claro, da busca pela reversão do tarifaço americano.

Roberto Serquiz Presidente da FIERN (18)
Presidente da Fiern, Roberto Serquiz, defende diplomacia para reverter tarifa - Foto: José Aldenir/Agora RN

“O desligamento (demissões) é um negócio muito traumático para as empresas. O que a gente está buscando é outras alternativas de mercado”, afirmou o presidente da Fiern, Roberto Serquiz, em coletiva de imprensa nesta quinta-feira 31. Ele, porém, acredita na possibilidade de reversão do tarifaço. “O desafio agora é buscar uma reversão nesse pequeno período (até 6 de agosto). A gente tem essa esperança, acredita que isso possa ser resolvido com uma relação diplomática inteligente”, acrescentou o presidente da Fiern.

Pescados

No caso dos pescados, em especial o atum e peixes costeiros frescos, o principal obstáculo para acessar o mercado europeu é um embargo sanitário. As exportações de pescado do Rio Grande do Norte são totalmente proibidas para a Europa desde 2018. Em dezembro de 2017, uma inspeção da União Europeia (UE) apontou deficiências nos sistemas sanitários de controle, incluindo irregularidades em embarcações e instalações de processamento. A UE confirmou o embargo sanitário como temporária, mas a medida segue ativa até hoje, impedindo o envio de pescado brasileiro ao bloco.

Arimar França Filho, presidente do Sindicato da Indústria da Pesca do RN (Sindipesca), defende que o Governo Federal atue para que o embargo seja retirado. “Precisa de trabalho para que isso seja mudado”, disse o empresário, classificando a manutenção do embargo europeu como uma decisão “política”.

O segmento da pesca contrata cerca de 1.500 trabalhadores atualmente no Rio Grande do Norte. Segundo o Sindipesca, os empregos estão ameaçados após o tarifaço confirmado por Trump. “A exportação para os Estados Unidos é responsável por 80% da exportação de pescados do Rio Grande do Norte. No caso da pesca industrial (oceânica, de atum), é 100% Estados Unidos. Além disso, os EUA representam entre 70% e 80% do faturamento das empresas. O tarifaço vai inviabilizar a saída dos barcos”, afirmou o representante do setor.

Arimar França Filho afirma que, no próximo ciclo de pesca, em meados de agosto (durante a lua cheia), embarcações já não vão para o mar. Ele diz que, além das exportações, o próprio abastecimento interno poderá ser prejudicado. “Nessa próxima rodada, a maioria das embarcações já estão em terra. E vai inviabilizar (o setor como um todo), porque os outros 30% do faturamento eram agregados à exportação. Se não tem mercado principal, não tem como as embarcações saírem”, declarou Arimar.

Apesar disso, ele afirma que as demissões não serão imediatas. “A gente não quer demitir. A gente está conversando com a Delegacia Regional do Trabalho, discutindo uma forma de fazer afastamento, treinamento para o pessoal por um período. A gente acredita que, nos próximos meses, isso será revertido. Ou ao menos um pouco aliviado”, detalhou o presidente do Sindipesca.

Roberto Serquiz, presidente da Fiern, diz que outra opção para o pescado potiguar seria o mercado asiático. Porém, existe outro entrave: o logístico. A precária estrutura do Porto de Natal dificulta a chegada de embarcações maiores – que são necessárias para a longa viagem entre a capital potiguar e países como a China.

Sal

No caso específico do sal, quase metade do que é exportado do RN para fora do Brasil vai para os Estados Unidos. São cerca de 550 mil toneladas por ano, segundo o Sindicato da Indústria do Sal do RN (Siesal). Com o tarifaço de Trump, a Europa também surge como uma opção.

O presidente do Siesal, Airton Torres, afirma que o setor emprega 4 mil pessoas diretamente e que essas vagas estão ameaçadas. Ele conta que há poucas opções de novos mercados para o sal potiguar. Por se tratar de produto de baixo valor, a mercadoria não é competitiva para exportar para longas distâncias, como a Ásia.

A Europa já é autossuficiente em sal e importa pouco. Mesmo assim, o Siesal defende que haja um movimento para tentar entrar no mercado do Velho Continente. Para isso, no entanto, é preciso superar algumas dificuldades tributárias que ainda estão sendo mensuradas pelo setor.

“Os importadores europeus falam que nosso sal tem taxação para entrar lá. A gente está verificando que taxação é essa. Ainda não temos as bases legais, mas estamos buscando informações, para entrar nesse universo. O Governo do Estado já se prontificou a verificar o que está acontecendo e trabalhar na remoção desse obstáculo. Se isso acontecer, a gente abre um pouco do mercado”, afirmou Airton Torres, também na coletiva desta quinta.

O presidente do Siesal, porém, advertiu que a Europa não é a solução para os problemas. “O mercado é pequeno. A Europa é autossuficiente, inclusive exporta. Mas, se abriria chance de a gente competir num mercado em que a gente não está competindo, e o sal poderia chegar”, emendou o empresário.

Plano de contingência

Os dois setores aguardam que o governo aponte alternativas para mitigar os impactos para a economia local. Roberto Serquiz, presidente da Fiern, acrescenta que a Federação tem mantido contato constante com empresários, com a gestão estadual e com a Confederação Nacional da Indústria (CNI), que possui – por sua vez – interlocução com o Governo Federal.

“Estamos criando alternativas, colocando situações que venham a minimizar essa situação. Não temos uma alternativa consolidada, mas a conversa está acontecendo e vamos conseguir algo que possa mitigar minimamente essa realidade”, declarou o presidente da federação.

Ele, no entanto, adverte para a necessidade de seguir buscando a reversão do tarifaço, em função de o mercado americano já estar consolidado com os produtos brasileiros.

“Precisamos equacionar isso. Não podemos deixar que o ambiente político possa interferir tanto na economia. Estamos falando de bem-estar, emprego, investimento, estamos falando de economia. A gente tem essa esperança (de reversão). Em momento algum, as empresas deixaram de pensar alternativas, de buscar mitigar os efeitos possíveis que venham a acontecer com essa taxação caso ela permaneça”, concluiu.

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