Os setores de sal e pesca do Rio Grande do Norte veem na Europa uma alternativa para a exportação de produtos depois que o governo dos Estados Unidos confirmou a imposição de um tarifaço. Representantes dos dois setores, porém, pedem apoio do Governo Federal e do Governo do Estado para superar entraves burocráticos que dificultam o acesso das mercadorias potiguares ao continente europeu.
A Federação das Indústrias do Rio Grande do Norte (Fiern) afirma que sal, pescados e confeitos representam cerca de 80% de tudo o que é exportado do Estado para o mercado americano. Com a taxa de 50%, os produtos potiguares ficaram muito pouco competitivos para os Estados Unidos – o que demanda o envio de mercadorias para outros lugares, além, claro, da busca pela reversão do tarifaço americano.

“O desligamento (demissões) é um negócio muito traumático para as empresas. O que a gente está buscando é outras alternativas de mercado”, afirmou o presidente da Fiern, Roberto Serquiz, em coletiva de imprensa nesta quinta-feira 31. Ele, porém, acredita na possibilidade de reversão do tarifaço. “O desafio agora é buscar uma reversão nesse pequeno período (até 6 de agosto). A gente tem essa esperança, acredita que isso possa ser resolvido com uma relação diplomática inteligente”, acrescentou o presidente da Fiern.
Pescados
No caso dos pescados, em especial o atum e peixes costeiros frescos, o principal obstáculo para acessar o mercado europeu é um embargo sanitário. As exportações de pescado do Rio Grande do Norte são totalmente proibidas para a Europa desde 2018. Em dezembro de 2017, uma inspeção da União Europeia (UE) apontou deficiências nos sistemas sanitários de controle, incluindo irregularidades em embarcações e instalações de processamento. A UE confirmou o embargo sanitário como temporária, mas a medida segue ativa até hoje, impedindo o envio de pescado brasileiro ao bloco.
Arimar França Filho, presidente do Sindicato da Indústria da Pesca do RN (Sindipesca), defende que o Governo Federal atue para que o embargo seja retirado. “Precisa de trabalho para que isso seja mudado”, disse o empresário, classificando a manutenção do embargo europeu como uma decisão “política”.
O segmento da pesca contrata cerca de 1.500 trabalhadores atualmente no Rio Grande do Norte. Segundo o Sindipesca, os empregos estão ameaçados após o tarifaço confirmado por Trump. “A exportação para os Estados Unidos é responsável por 80% da exportação de pescados do Rio Grande do Norte. No caso da pesca industrial (oceânica, de atum), é 100% Estados Unidos. Além disso, os EUA representam entre 70% e 80% do faturamento das empresas. O tarifaço vai inviabilizar a saída dos barcos”, afirmou o representante do setor.
Arimar França Filho afirma que, no próximo ciclo de pesca, em meados de agosto (durante a lua cheia), embarcações já não vão para o mar. Ele diz que, além das exportações, o próprio abastecimento interno poderá ser prejudicado. “Nessa próxima rodada, a maioria das embarcações já estão em terra. E vai inviabilizar (o setor como um todo), porque os outros 30% do faturamento eram agregados à exportação. Se não tem mercado principal, não tem como as embarcações saírem”, declarou Arimar.
Apesar disso, ele afirma que as demissões não serão imediatas. “A gente não quer demitir. A gente está conversando com a Delegacia Regional do Trabalho, discutindo uma forma de fazer afastamento, treinamento para o pessoal por um período. A gente acredita que, nos próximos meses, isso será revertido. Ou ao menos um pouco aliviado”, detalhou o presidente do Sindipesca.
Roberto Serquiz, presidente da Fiern, diz que outra opção para o pescado potiguar seria o mercado asiático. Porém, existe outro entrave: o logístico. A precária estrutura do Porto de Natal dificulta a chegada de embarcações maiores – que são necessárias para a longa viagem entre a capital potiguar e países como a China.
Sal
No caso específico do sal, quase metade do que é exportado do RN para fora do Brasil vai para os Estados Unidos. São cerca de 550 mil toneladas por ano, segundo o Sindicato da Indústria do Sal do RN (Siesal). Com o tarifaço de Trump, a Europa também surge como uma opção.
O presidente do Siesal, Airton Torres, afirma que o setor emprega 4 mil pessoas diretamente e que essas vagas estão ameaçadas. Ele conta que há poucas opções de novos mercados para o sal potiguar. Por se tratar de produto de baixo valor, a mercadoria não é competitiva para exportar para longas distâncias, como a Ásia.
A Europa já é autossuficiente em sal e importa pouco. Mesmo assim, o Siesal defende que haja um movimento para tentar entrar no mercado do Velho Continente. Para isso, no entanto, é preciso superar algumas dificuldades tributárias que ainda estão sendo mensuradas pelo setor.
“Os importadores europeus falam que nosso sal tem taxação para entrar lá. A gente está verificando que taxação é essa. Ainda não temos as bases legais, mas estamos buscando informações, para entrar nesse universo. O Governo do Estado já se prontificou a verificar o que está acontecendo e trabalhar na remoção desse obstáculo. Se isso acontecer, a gente abre um pouco do mercado”, afirmou Airton Torres, também na coletiva desta quinta.
O presidente do Siesal, porém, advertiu que a Europa não é a solução para os problemas. “O mercado é pequeno. A Europa é autossuficiente, inclusive exporta. Mas, se abriria chance de a gente competir num mercado em que a gente não está competindo, e o sal poderia chegar”, emendou o empresário.
Plano de contingência
Os dois setores aguardam que o governo aponte alternativas para mitigar os impactos para a economia local. Roberto Serquiz, presidente da Fiern, acrescenta que a Federação tem mantido contato constante com empresários, com a gestão estadual e com a Confederação Nacional da Indústria (CNI), que possui – por sua vez – interlocução com o Governo Federal.
“Estamos criando alternativas, colocando situações que venham a minimizar essa situação. Não temos uma alternativa consolidada, mas a conversa está acontecendo e vamos conseguir algo que possa mitigar minimamente essa realidade”, declarou o presidente da federação.
Ele, no entanto, adverte para a necessidade de seguir buscando a reversão do tarifaço, em função de o mercado americano já estar consolidado com os produtos brasileiros.
“Precisamos equacionar isso. Não podemos deixar que o ambiente político possa interferir tanto na economia. Estamos falando de bem-estar, emprego, investimento, estamos falando de economia. A gente tem essa esperança (de reversão). Em momento algum, as empresas deixaram de pensar alternativas, de buscar mitigar os efeitos possíveis que venham a acontecer com essa taxação caso ela permaneça”, concluiu.