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Cultura

Audiovisual potiguar cresce, mas ainda enfrenta desafios

Pesquisador da UFRN defende investimentos, políticas públicas e qualificação para produção local
Por O Correio de Hoje
21/07/2026 | 14:15

O crescimento da produção audiovisual no Rio Grande do Norte e no Nordeste, aliado à necessidade de ampliar políticas públicas, fortalecer mecanismos de financiamento e investir na formação de profissionais, tem consolidado o debate sobre o papel do setor na economia criativa brasileira.

Para o professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e pesquisador Ruy Rocha, o audiovisual ocupa hoje uma posição estratégica para o desenvolvimento econômico e cultural do país, mas ainda enfrenta desafios relacionados ao acesso a recursos, à descentralização da produção e à valorização dos profissionais locais.

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Segundo Ruy Rocha, audiovisual integra a economia criativa e reúne potencial para gerar emprego, renda e desenvolvimento cultural no País - Foto: Reprodução

Segundo Ruy Rocha, o audiovisual deixou de ocupar um espaço restrito ao cinema e passou a integrar diferentes plataformas de produção de conteúdo.

“A gente percebe que o audiovisual é uma área estratégica para o desenvolvimento do Brasil. É uma área que oferece inúmeras oportunidades. Temos tanto uma produção crescente na internet, quanto na televisão, quanto no cinema. Nosso cinema se encontra num estágio formidável, porque cada vez mais está ganhando reconhecimento tanto do público brasileiro, quanto dos festivais, dos críticos fora do País.”

Para o professor, esse cenário torna necessária uma discussão permanente sobre as condições que permitem o fortalecimento do setor.

“Reconhecendo tudo isso, a gente precisa discutir quais são as possibilidades econômicas e quais são as políticas públicas que ajudam a fomentar esse setor que é estratégico.”

Democratização da produção

Ao abordar a descentralização do audiovisual, Ruy Rocha afirmou que o conceito vai além da distribuição geográfica das produções e está relacionado à democratização das oportunidades.

“Descentralizar é reconhecer que qualquer pessoa pode produzir audiovisual, as pessoas podem produzir cinema, as pessoas podem produzir conteúdos para a internet, em diferentes lugares. Agora, a gente precisa democratizar as condições para que essas pessoas possam produzir.”

Segundo ele, isso passa pela oferta de financiamento e políticas públicas estruturadas.

“Oferecer políticas públicas, oferecer financiamento, porque é como todo setor. A gente vai lá para o agronegócio, que tem um investimento muito generoso por parte do Estado. Quer dizer, a população brasileira financia o agronegócio. Nada mais justo, nada mais natural que também o audiovisual, outros setores estratégicos também sejam financiados.”

Talentos e oportunidades

Ao comentar o cenário do audiovisual potiguar, Ruy Rocha afirmou que o estado reúne profissionais experientes, mas que muitos ainda encontram dificuldades para acessar oportunidades.

Ele citou nomes como Kaiony Venâncio, Alice Carvalho e Dona Tânia, destacando que muitos artistas tiveram anos de atuação antes do reconhecimento nacional.

“A Alice é talentosíssima, mas a Alice não começou semana passada, a Alice não começou em ‘O Agente Secreto’. A trajetória dela na televisão e no cinema apareceu para muita gente nos últimos três, quatro anos, mas ela já tinha 10, 15 anos de estrada.”

Sobre Kaiony Venâncio, acrescentou:

“Eu conheci Kaiony fazendo curtas-metragens há 20 anos. Esse pessoal rala, rala, rala. O que falta? Muitas vezes oportunidade. Talento eles sempre tiveram de sobra.”

Na avaliação do pesquisador, o avanço da produção audiovisual nos últimos anos demonstra esse processo de descentralização.

“Mais gente produzindo no Nordeste, mais gente produzindo aqui em Natal.”

Como exemplo, ele citou produções e realizadores potiguares que ganharam projeção nacional e internacional, entre eles o curta “Sideral”, dirigido por Carlos Segundo, além do Coletivo Caboré, do Curta Caicó e de iniciativas desenvolvidas em São Miguel do Gostoso.

“Isso é descentralização. Mais pessoas do interior, mais pessoas do Nordeste e até do Centro-Oeste e do Norte, porque todo mundo pode produzir audiovisual.”

Ao mesmo tempo, ressaltou que a ampliação da produção deve estar acompanhada de qualificação.

“Precisamos produzir com qualidade, precisamos produzir com ética, precisamos produzir com responsabilidade e criando uma cadeia produtiva sólida que gere oportunidade para as pessoas.”

Economia criativa

Para o pesquisador, ampliar a formação profissional continua sendo um dos principais caminhos para consolidar o setor.

Ruy Rocha também defendeu uma compreensão mais ampla da economia criativa, afirmando que a cultura possui peso econômico comparável a outros segmentos produtivos.

“A economia da cultura hoje é tão importante quanto o setor automobilístico, o setor químico. A economia da cultura é o que nós chamamos de economia criativa.”

Segundo ele, diferentes atividades culturais movimentam cadeias econômicas completas.

“A cultura é um dos motores da nossa economia, é essencial. A gente vê, por exemplo, as festas. A gente vê o Mossoró Cidade Junina. A gente vê o São João no Nordeste. O quanto isso movimenta a economia.”

Na avaliação dele, houve avanços recentes com políticas públicas nacionais.

“Nós vimos um avanço enorme com, por exemplo, a Lei Paulo Gustavo, a Política Nacional Aldir Blanc. Mas a gente tem que aprimorar tudo isso. A gente precisa gerar mais benefícios a partir dos recursos públicos que já existem e fazer com que isso tudo gere mais emprego, gere mais benefícios para a sociedade.”

Segundo ele, o investimento público deve ocorrer de forma planejada.

“Tudo isso tem que ser gerado a partir de políticas públicas sólidas, não pode ser uma coisa distribuída de maneira aleatória. Tem que gerar benefícios efetivos para a sociedade.”

O pesquisador também defendeu que a política cultural seja sustentável.

“Não basta a gente fazer uma festa hoje. A gente tem que gerar benefícios para a sociedade como um todo.”

Para Ruy Rocha, o momento de maior visibilidade da produção nordestina deve ser aproveitado para fortalecer também a cultura produzida no Rio Grande do Norte.

“A gente está vendo um momento em que se valoriza demais a cultura do Nordeste. Eu acho que a gente tem que aproveitar esse embalo e valorizar a cultura potiguar.”

Ele defendeu o incentivo à literatura, ao teatro, ao cinema e às demais expressões culturais produzidas no estado.