Por muito tempo, as plantas estiveram ali — silenciosas, presentes, ignoradas. Nas salas de aula, a botânica se tornou um território distante dos alunos. Foi desse incômodo que nasceu o trabalho da pesquisadora potiguar Gláucia Silva, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), que encontrou na obra da cantora Taylor Swift uma forma de reconectar ciência e sensibilidade.
“Eu acho que eu era a única, no meio de 40 alunos de biologia da minha turma, que curtia estudar plantas”, lembra. Ao observar colegas e, depois, os próprios alunos, ela identificou um padrão: “Os alunos acham que é chato, que não faz sentido, que é perda de tempo”.

Para Gláucia, o problema é estrutural. “Existe um ciclo de ensino e aprendizagem pobre”, afirma. “Muitos professores não gostam de botânica porque tiveram uma formação insuficiente, e isso vai sendo passado adiante”.
A virada veio durante a pandemia. Sem métodos tradicionais e com estudantes desmotivados, ela precisou reinventar a forma de ensinar. “Tudo o que eu sabia sobre ensino e aprendizagem parecia que não funcionava mais”, conta. “Foi quando tudo me foi tirado que o método surgiu”.
A resposta veio da cultura pop. O método utiliza videoclipes de Taylor Swift como ponto de partida para o ensino da botânica. Antes da teoria, o olhar.
“Antes dos alunos terem uma aula sobre árvores, eles veem o videoclipe. E ali, sem perceberem, começam a conversar sobre as plantas”, explica. “O vídeo ativa o que aquele aluno já sabia”.
Memórias começam a surgir: a árvore da infância, o quintal, a planta da casa da avó. “Quando esses conhecimentos vão se conectando, o aluno vai ficando mais aberto a aprender”, diz.
Apesar da base científica — com publicação na revista Annals of Botany — o método enfrentou resistência dentro da própria academia. “Me chamaram de louca, de sem noção, disseram que era um delírio de fã”, relata.
Segundo a pesquisadora, o preconceito não era apenas contra a metodologia, mas também contra o uso da arte como ferramenta de ensino. “A gente também tem uma aversão a uma artista que é muito conhecida”, diz. Para ela, isso revela uma limitação no meio acadêmico. “A ciência tradicional ainda é muito relutante quanto ao potencial artístico. Acham que usar arte tira a credibilidade”.
Ela contesta: “Não adianta eu estar só falando para acadêmico. A gente precisa tornar a ciência acessível. A arte é uma forma da gente se conectar com as pessoas”.

Apesar das críticas iniciais, o método ganhou reconhecimento internacional e foi apresentado no Congresso Internacional de Botânica. “Foi surreal. Os botânicos falando ‘isso aqui é genial, eu nunca parei pra pensar em algo do tipo’”.
A recepção fora do país contrastou com a resistência inicial enfrentada no ambiente acadêmico local, o que, segundo ela, reforça a necessidade de rever paradigmas na ciência.
O reconhecimento também trouxe um episódio de suspeita de plágio. A pesquisadora identificou que uma universidade europeia utilizou a mesma metodologia sem citar a autoria. “Cada matéria que eu lia era como um tapa na cara”, afirma.
Segundo ela, a reprodução envolvia elementos centrais do método: a mesma artista, os mesmos videoclipes, a mesma lógica didática. Ainda assim, não houve atribuição de crédito. “A metodologia existe para ser utilizada e adaptada, mas o básico da ciência é citar quem desenvolveu a ideia”.
Para Gláucia, o caso também evidencia desigualdades estruturais. “Muitos pesquisadores brasileiros passam anos desenvolvendo uma técnica e veem isso sendo apropriado por outros”, afirma.
O uso da arte, diz, é uma estratégia de aproximação. “A ciência não deve ser inalcançável. Ela deve conversar com tudo e com todos”.
A proposta já alcança públicos diversos, inclusive fora da academia. “As pessoas começam a reparar nas plantas, algo que elas nunca tinham feito antes”.
Entre resistência, reconhecimento e debate, o método segue crescendo. Mais do que uma inovação pedagógica, ele questiona estruturas e propõe outro caminho: ensinar não apenas conteúdos, mas formas de olhar.