A liderança da chinesa BYD no mercado global de veículos elétricos passou a enfrentar um novo concorrente doméstico com ambições internacionais crescentes. A Zhejiang Geely Holding Group, conglomerado automotivo controlado pelo empresário Li Shufu, ampliou vendas, acelerou exportações e superou a rival em volume comercializado nos dois primeiros meses deste ano, tornando-se um dos principais focos de atenção do setor automotivo global.
O movimento ganhou evidência durante o principal salão do automóvel da China, realizado em Pequim e encerrado neste mês. Tradicionalmente dominado pela BYD, o evento passou a refletir a ascensão da Geely, que vem ampliando rapidamente sua linha de produtos e avançando sobre mercados internacionais.

A expansão ocorre em um momento considerado estratégico para as montadoras chinesas. A guerra no Irã elevou os preços globais da gasolina e reaqueceu a demanda por veículos eletrificados, segmento no qual fabricantes chineses consolidaram presença nos últimos anos.
Após um longo período de preparação para ampliar exportações e reduzir dependência do mercado doméstico, as montadoras chinesas passaram a acelerar sua presença na Europa, Sudeste Asiático, América Latina, Austrália, Oriente Médio e África, alterando gradualmente o equilíbrio competitivo da indústria automobilística global.
A Geely estruturou um modelo de negócios baseado na diversificação tecnológica. A companhia atua simultaneamente nos quatro principais segmentos de motorização: veículos a gasolina, híbridos convencionais, híbridos plug-in e modelos totalmente elétricos.
Essa flexibilidade permitiu respostas rápidas às mudanças de mercado. Quando o governo chinês encerrou neste ano os incentivos fiscais para veículos elétricos e a demanda doméstica desacelerou, a Geely aumentou a aposta em modelos a combustão. Posteriormente, com a alta dos preços do combustível após o conflito no Oriente Médio, voltou a impulsionar veículos híbridos plug-in e elétricos.
O cenário doméstico se deteriorou para o setor automotivo chinês nos últimos meses. Entre os primeiros 19 dias de abril, as vendas de veículos elétricos a bateria e híbridos plug-in recuaram 14% em comparação com igual período do ano anterior, enquanto os carros movidos exclusivamente a gasolina registraram queda próxima de 40%.
Para David Zhang, a amplitude tecnológica da Geely tornou-se “uma clara vantagem competitiva”.
A empresa anunciou recentemente que converterá todos os modelos remanescentes movidos apenas a gasolina em híbridos convencionais, numa tentativa de reforçar eficiência energética e reduzir consumo de combustível. Controlada por Li Shufu, de 62 anos, a Zhejiang Geely mantém capital fechado e divulga poucas informações financeiras detalhadas. Ainda assim, estabeleceu como meta que 30% das vendas do grupo venham do exterior até 2030.
Sua principal subsidiária listada em bolsa, a Geely Automobile Holdings, negociada em Hong Kong, vendeu 3 milhões de veículos no ano passado, crescimento de 39% em relação ao ano anterior. A receita avançou 25%, mesmo diante da intensa guerra de preços no mercado chinês.
A trajetória da empresa acompanha a transformação da indústria automobilística chinesa nas últimas décadas. A Geely começou a fabricar veículos em 1998, inicialmente fornecendo táxis para frotas locais. Atualmente, suas vendas globais já se aproximam das da americana Ford Motor Company, fundada há mais de um século.