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Cultue

Clube do livro: Véspera, da Carla Madeira

Repórteres da Cultue compartilham percepções após leitura ao longo do mês
Redação
30/04/2026 | 09:12

O Clube do Livro reúne, a cada mês, avaliações das repórteres da Cultue sobre a obra escolhida para leitura coletiva.

Belita Lira – ⭐⭐⭐

Véspera é um livro difícil. A narrativa reúne situações complicadas, momentos tensos e personagens complexos, que carregam conflitos intensos do começo ao fim. Não há leveza na condução da história, tudo parece sempre à beira de algo maior, mais complicado.

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Clube do livro: Véspera, da Carla Madeira - Foto: reprodução

Ao longo da leitura, ansiei pela sensação de que algo poderia suavizar o percurso, um respiro, uma pausa, um momento de redenção. Esse alívio, no entanto, nunca chegou, e é justamente essa ausência que define a experiência do livro. A narrativa não busca consolar, ao contrário, sustenta uma inquietação constante, como se espelhasse a própria imprevisibilidade da vida.

A crueldade presente na obra não soa exagerada, mas profundamente real. Os conflitos se acumulam sem necessariamente encontrar solução, reforçando a sensação de um mundo em permanente tensão. O próprio título, Véspera, traduz bem essa ideia: os personagens parecem sempre à espera de algo difícil, como se nunca houvesse um momento de respiro.

Ao final, fica uma sensação agridoce. Há a impressão de que algo falta, um fechamento, um alívio que nunca vem. Mas é justamente isso que torna o livro tão verdadeiro. A falta de respostas aproxima a narrativa da vida, onde nem tudo se resolve de forma clara ou confortável.

Talvez essa seja a maior força da obra: provocar e incomodar. Véspera instiga, inquieta e convida o leitor a encarar a dureza como parte do real, não como exceção. No fim, sobra um vazio — não necessariamente uma falha, mas uma escolha. Ainda assim, é uma ausência que ecoa, como se a história, fiel ao seu título, terminasse justamente onde algo ainda estava por acontecer.

Isabelly Noemi – ⭐⭐⭐⭐⭐

Eu dei cinco estrelas pra Véspera, mas não foi porque eu “amei” no sentido confortável. Foi porque o livro me deixou desconfiada de mim mesma.

Durante boa parte da leitura, eu achei que estava entendendo tudo. Fui criando minhas certezas, escolhendo lados, julgando atitudes. E é exatamente aí que Carla Madeira me pegou. Porque nada se sustenta.

A história vai revelando, aos poucos, que aquilo que parecia claro era só uma versão — conveniente, inclusive, pra quem lê. E quando entram as camadas mais profundas, principalmente nas relações familiares, fica impossível não pensar em Caim e Abel. Não pela história em si, mas por esse sentimento de disputa silenciosa, de amor atravessado por inveja, de afeto que vira ferida.

E o mais incômodo é que não tem vilão fácil. Todo mundo ali é, ao mesmo tempo, responsável e vítima. Todo mundo erra tentando acertar alguma coisa que nem sabe nomear direito. E isso desmonta qualquer leitura mais confortável, porque obriga a gente a lidar com o fato de que as relações são mais confusas do que a gente gostaria.

Para mim, o livro vira quando a gente percebe que não está lendo sobre fatos, mas sobre interpretações. Sobre como cada personagem constrói sua própria narrativa para conseguir viver com o que fez ou com o que não fez.

A escrita é seca, direta, quase fria em alguns momentos. Mas funciona justamente por isso. Não tem tentativa de convencer o leitor a sentir algo específico. Você sente sozinho e às vezes contra a própria vontade.

No final, “Véspera” não entrega respostas. Entrega um desconforto. Não quero estragar a surpresa para quem lê e pode se surpreender com o encerramento do livro. Mas, afinal, todo acontecimento não é precedido de uma véspera?

Larissa Silva – ⭐⭐⭐⭐

Comecei a leitura de Véspera já com um pé atrás, já que minha leitura anterior da autora, “Tudo é Rio”, não me agradou. Mas o que me fez insistir na Carla Madeira foi a escrita visceral dela, que é quase impossível de não se prender. E ainda bem que eu dei outra chance à autora.

Dando jus ao título, a todo momento parece que estamos sempre na véspera de uma tragédia envolvendo os personagens, e não é só uma sensação, porque é realmente realmente o que acontece – um caos.

Durante toda a narrativa, a história de Vedina me interessou mais, especialmente saber que um segundo pode mudar toda uma vida. No entanto, o que me incomodou foi perceber que, ao longo da leitura, a narrativa não estava sendo levada a lugar nenhum. Apesar disso, o último capítulo foi tão impactante e surpreendente, que acabou por justificar o enredo mais parado, contudo, isso não foi suficiente para suprimir a vontade de conhecer mais Vedina do que os irmãos.

Isso não significa que a história de Caim e Abel não seja boa, ao contrário, ela é ótima. Ficamos pensando como a expectativa de alguém (principalmente dos nossos pais) pode influenciar no nosso desenvolvimento. A metáfora com os personagens bíblicos traz justamente o mesmo significado do livro sagrado: como a inveja pode corroer e trazer o nosso pior à tona.

Por fim, Carla Madeira poderia escrever sobre o assunto mais chato do mundo, mas a forma como ela organiza as palavras é impressionante, e é isso que faz a real diferença e transforma suas obras em algo lindo, poético e surpreendente.