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Projeto

Via Norte vai marcar gestão Paulinho

Agora chamado de “Via Norte”, o projeto prevê ligação entre as pontes Newton Navarro e Igapó com áreas de lazer, ciclovias e espaços de contemplação às margens do Rio Potengi
Por O Correio de Hoje
26/05/2026 | 13:41

Ainda em fase de projeto, levantamento técnico e negociação de financiamento, a Via Norte já é tratada pela Prefeitura do Natal como a obra com maior potencial de marcar a gestão Paulinho Freire. Antiga Via Mangue, a intervenção prevê uma ligação margeando o Rio Potengi pelo lado da Zona Norte, entre as pontes de Igapó e Newton Navarro, com a promessa de aliviar corredores sobrecarregados, requalificar a margem do rio e criar uma nova frente de lazer, mobilidade, turismo e valorização urbana na maior região administrativa da capital.

A obra ainda não está em execução física. O primeiro passo concreto ocorreu em 18 de dezembro de 2025, quando a Prefeitura iniciou o levantamento topográfico da área, começando pela comunidade Beira Rio, nas proximidades da Ponte de Igapó. A gestão ainda precisa concluir os projetos, consolidar o traçado, avançar nas licenças e fechar a operação financeira, negociada por meio de linha FGTS/PAC junto à Caixa Econômica Federal.

Via Mangue (2)
Projeto prevê ligação entre as pontes de Igapó e Newton Navarro - Foto: José Aldenir

A ideia não nasceu agora. Ainda em 2018, o projeto já aparecia com o nome de Via Mangue como uma alternativa para melhorar o deslocamento na Zona Norte e desafogar o fluxo de veículos entre Igapó, Redinha e os acessos ao litoral Norte. Naquele desenho inicial, já havia previsão de ciclovia, estacionamento e parque linear. O que muda na gestão Paulinho Freire é a tentativa de tirar a proposta do plano conceitual e transformá-la em obra estruturante.

A proposta atual também ganhou escopo mais amplo. Em vez de uma via pensada apenas para automóveis, a Prefeitura trabalha com o conceito de “via parque”, com ciclovia, áreas de caminhada, espaços de contemplação, pontos para prática esportiva, equipamentos infantis e estrutura de gastronomia. A intenção é fazer da margem do Potengi não só uma rota de passagem, mas também um espaço de permanência, convivência e exploração turística.

A dimensão da Zona Norte ajuda a explicar o peso político e urbano do projeto. A região reúne sete bairros: Igapó, Salinas, Potengi, Nossa Senhora da Apresentação, Lagoa Azul, Pajuçara e Redinha. Segundo estudo urbanístico da Prefeitura com base no Censo 2010 do IBGE, eram 303.543 habitantes, o equivalente a 37,77% da população de Natal. A projeção municipal apontava crescimento para 387.230 moradores em 2027. É sobre essa área, historicamente marcada por forte densidade populacional e menor oferta de infraestrutura qualificada, que a Via Norte pretende incidir.

Em entrevista ao programa Comando 97, da 97 FM, o secretário municipal de Planejamento, Vagner Araújo, afirmou que a obra pode se tornar a principal marca da administração Paulinho Freire. Segundo ele, Natal sempre se voltou para as praias e “deu as costas” ao Rio Potengi. A Via Norte, na avaliação do secretário, tem a função de mudar essa lógica, fazendo a cidade olhar para o rio como paisagem, eixo de circulação e ativo urbano.

O custo estimado revela a escala da intervenção. Vagner Araújo informou que o projeto completo pode chegar a R$ 400 milhões, mas será executado de forma modular. Uma primeira etapa, segundo ele, poderia ser viabilizada com aproximadamente R$ 200 milhões. A Prefeitura negocia financiamento por meio de uma linha FGTS/PAC, via Caixa Econômica Federal, com prazo de 25 anos, carência de até quatro anos e juros em torno de 9% ao ano.

A secretária municipal de Mobilidade Urbana, Jódia Melo, já havia apontado a Via Norte como uma alternativa à João Medeiros Filho, hoje um dos principais corredores da Zona Norte. A avenida concentra fluxo intenso e sofre com gargalos viários e problemas de infraestrutura. Em intervenções recentes de drenagem, foi citado fluxo diário em torno de 45 mil veículos no corredor, número que reforça a necessidade de novas opções de deslocamento para a região.

O projeto também tem componente ambiental. Ao margear o Potengi, a via deve delimitar áreas de mangue e ajudar a conter ocupações irregulares sobre um ecossistema sensível no estuário do rio. Essa dimensão é parte do discurso da Prefeitura para defender que a obra não seja vista apenas como intervenção viária, mas como reordenamento urbano em área de valor ambiental.

A Via Norte se conecta ainda a uma estratégia mais ampla de reposicionamento da Zona Norte. A reabertura do Mercado da Redinha, inicialmente para a alta estação entre 22 de dezembro de 2025 e 22 de fevereiro de 2026, e depois transformada em funcionamento permanente por decisão anunciada por Paulinho Freire, compõe esse movimento. O mercado voltou a ser usado como vitrine turística e cultural, inclusive com exposição nacional em programa de televisão transmitido a partir de Natal.

Outras ações citadas por Vagner Araújo seguem a mesma lógica, como eventos na Avenida Itapetinga, projeto de parque temático na região e mudanças urbanísticas trazidas pelo novo Plano Diretor de Natal, sancionado pela Lei Complementar nº 208, de 7 de março de 2022. A Prefeitura avalia que a liberação de gabaritos na Zona Norte pode estimular novos investimentos e reduzir o histórico desequilíbrio entre aquela região e outras áreas da capital.

Na entrevista, o secretário comparou a ambição da Via Norte ao impacto provocado pela Ponte Newton Navarro. Inaugurada em 20 de novembro de 2007, na gestão da então governadora Wilma de Faria, com Carlos Eduardo Alves na Prefeitura de Natal, a ponte enfrentou descrença antes de ser incorporada à paisagem da cidade e ao circuito de acesso ao litoral Norte. Para Vagner, a nova via pode cumprir papel semelhante, agora não apenas como ligação, mas como frente de lazer, turismo, mobilidade e valorização urbana.

Há ainda uma leitura metropolitana. Durante a entrevista, o secretário citou a discussão sobre uma terceira ponte, mais afastada, envolvendo São Gonçalo do Amarante. Trata-se de outra frente de mobilidade regional, associada ao acesso ao Aeroporto Internacional Aluízio Alves e à região do Santuário dos Mártires. Vagner diferenciou os projetos: a Via Norte é uma intervenção municipal na margem do Potengi; a outra ponte teria função mais metropolitana.

A execução da Via Norte, porém, depende de etapas decisivas. A Prefeitura precisa concluir os projetos, consolidar o traçado, avançar nas licenças ambientais e urbanísticas e garantir a viabilização financeira junto à Caixa. Mesmo sem obra física iniciada, o projeto já ocupa lugar central no discurso da atual gestão.

Se sair do papel, a Via Norte será mais que uma avenida. Será uma tentativa de redesenhar a entrada da Zona Norte, aliviar corredores saturados, valorizar a Redinha, proteger a margem do Potengi e dar novo uso urbano a uma área que, por décadas, foi tratada mais como passagem do que como destino. É por isso que Paulinho Freire aposta nela como uma das marcas de sua administração.