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Confeiteira potiguar transforma paixão em profissão e fonte de renda

Kallyane Costa aposta na confeitaria artística e conquista clientes com técnica e afeto
Belita Lira
30/04/2026 | 10:33

Há histórias que nascem no cotidiano, nos gestos repetidos, nas memórias afetivas que, sem aviso, acabam moldando um caminho. Com a confeiteira potiguar Kallyane Costa, de 37 anos, foi assim. Antes de cursos, técnicas ou clientes, havia o ambiente. Festas, celebrações, a presença constante do doce como parte de algo maior.

Um cenário que, com o tempo, deixou de ser apenas lembrança e passou a ser direção. “Eu costumo dizer que a confeitaria sempre fez parte da minha vida, sempre fez parte do meu dia a dia e do meu crescimento”, conta. A profissionalização veio depois — e, como em muitas trajetórias, não de forma planejada, mas percebida. Foi em 2017, ainda entre familiares e amigos, que a atividade começou a ganhar contornos mais definidos.

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Confeiteira potiguar Kallyane Costa - Foto: cedida

Bolos em chantininho, doces tradicionais e encomendas pequenas. Um começo silencioso, mas decisivo. “Foi quando eu enxerguei que aquilo ali poderia se tornar a minha profissão”, conta. O passo seguinte foi buscar formação técnica e aperfeiçoamento. Em 2018, a confeitaria já não era apenas parte da rotina — era o centro dela.

Mas foi um momento de crise coletiva que redefiniu o rumo da sua produção. Durante a pandemia, quando as grandes festas deram lugar a comemorações íntimas, surgiu a ideia de criar kits personalizados em pasta americana. Sem experiência, sem técnica consolidada e sem os materiais ideais, ela começou assim mesmo. “Eu não tinha nenhuma prática, eu não tinha técnica, eu não tinha materiais necessários para começar, mas eu comecei.”

A resposta veio rápido. Os pedidos surgiram, os clientes chegaram, e a pasta americana — até então um território desconhecido — tornou-se o eixo principal do seu trabalho. “Confesso que o meu maior aprendizado e o meu maior curso é e foi a prática.” Essa prática, construída no erro, na repetição e na insistência, foi também o que moldou a identidade do seu trabalho.

Um processo lento, muitas vezes imperfeito, mas contínuo. “Eram doces que não eram bem desenvolvidos, bem elaborados, mas eu fui buscando sempre melhorar”, compartilha. Na confeitaria artística, onde cada detalhe importa, a evolução não é apenas técnica — é também sensível. É entender que o produto final carrega mais do que estética. “Eu costumo dizer que um doce, um bolo, ele não tem que ter só beleza, ele tem que ter sabor. Então, são duas coisas que têm que andar juntos.”

Esse equilíbrio entre forma e essência se reflete também na relação com os clientes. Mais do que entregar um produto, Kallyane constrói uma experiência compartilhada. “A partir do momento que o cliente fecha comigo, eu idealizo a festa junto com ele. Então, eu sonho e tenho ansiedade junto com o meu cliente.” É um envolvimento que ultrapassa o comercial. Existe ali uma tentativa de traduzir expectativas, memórias e afetos em algo concreto — um bolo, um doce, uma mesa montada.

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Kallyane reforça que o produto final carrega mais do que estética – Foto: cedida

Mas, como em qualquer processo criativo, há desafios. Kallyane compartilha que um dos mais marcantes foi a produção de uma festa completa em menos de 24 horas. Um trabalho contra o tempo, onde a pressão não está apenas no prazo, mas na expectativa de entregar algo impecável. “Eu estava correndo contra o tempo e eu precisava entregar a perfeição ao meu cliente.”

Essa busca constante por qualidade, no entanto, cobra um preço. “A parte mais difícil da minha profissão hoje, acredito que seja abrir mão de alguns momentos, de estar com minha família, de estar com meus amigos”, conta. É o tipo de escolha silenciosa que acompanha muitas trajetórias criativas — o equilíbrio delicado entre o que se constrói profissionalmente e o que se deixa de viver.

Ainda assim, o retorno emocional sustenta o percurso e há, nesse momento, algo que vai além da entrega. “O mais gratificante é o reconhecimento do meu cliente, ver o olhar dele, a satisfação quando recebe o meu produto. Isso para mim é o mais gratificante.” Hoje, Kallyane não apenas produz — ela ensina, compartilha e incentiva outras mulheres a enxergarem a confeitaria como possibilidade real de sustento.

“Fazer com que outras mulheres enxerguem a confeitaria como uma profissão, passar o meu conhecimento para outras pessoas, isso são planos para o futuro.” A fala carrega uma dimensão que ultrapassa o individual. É sobre abrir caminhos. E, talvez por isso, o conselho que ela oferece seja tão direto quanto simbólico. “Comece, comece, comece. Primeiro de tudo, comece acreditando que você é capaz.”

Não há romantização do início. Pelo contrário. “Comece mesmo sem ter equipamentos, comece mesmo sem ter materiais, comece.” A ideia de que a condição ideal virá antes da ação é, para ela, um mito. “A oportunidade perfeita e a condição perfeita não surgem, é você quem cria.” Na prática, sua rotina hoje é intensa. Produção, compras, planejamento, execução — tudo passa por suas mãos. Um trabalho solitário em muitos momentos, mas profundamente conectado ao que ela escolheu fazer.

“Só eu modelo, só eu personalizo, só eu faço os chocolates. Então, é bem corrido, é bem cansativo, mas é bem gratificante.” E talvez seja essa contradição — entre o cansaço e o prazer, entre a pressão e o encantamento — que define sua relação com a confeitaria. “Hoje eu não me vejo em outra profissão.” E é nesse ponto que a história deixa de ser apenas sobre doces. Passa a ser sobre escolha, insistência e pertencimento. Sobre transformar algo cotidiano em linguagem. E sobre entender que, às vezes, aquilo que sempre esteve presente é justamente o que define quem a gente se torna.

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Bolos e mesas montadas por Kallyane Costa – Foto: cedida