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Editorial

Eleição brasileira sob pressão externa

Cobrança de Washington contra PCC e CV é a mais recente de uma sucessão de atos que misturam diplomacia e campanha; a eleição deve ser decidida pelos brasileiros
Agora RN
16/09/2026 | 22:50

O governo dos Estados Unidos abriu nesta semana um novo capítulo na sequência de manifestações e medidas que atingem diretamente o debate político brasileiro. Em documento enviado ao Congresso norte-americano, a gestão de Donald Trump afirmou que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva “falhou em confrontar” o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV). Segundo a Casa Branca, as facções transformaram o Brasil em um centro para o fluxo global de cocaína e exigem do País “medidas firmes” para serem enfrentadas.

O documento integra um relatório anual exigido pela legislação dos Estados Unidos para identificar grandes produtores de entorpecentes, rotas relevantes do narcotráfico e países que não cumprem compromissos internacionais na área. O Brasil, porém, não aparece entre os 23 grandes produtores ou corredores de drogas, nem entre os quatro governos classificados como responsáveis por uma falha comprovada no combate ao tráfico. Portanto, a reprimenda não aciona automaticamente restrições à assistência norte-americana. Ainda assim, o País recebeu uma menção nominal que não constava no relatório anterior. A determinação foi divulgada pelo Departamento de Estado.

Dois homens de terno sentados em poltronas conversam diante de cortina azul, com mesa baixa entre eles
Donald Trump e Lula em encontro; relatório da Casa Branca ao Congresso americano cobra do Brasil ação contra PCC e CV — Ricardo Stuckert/PR

A cobrança surge na reta final de uma campanha presidencial na qual a segurança pública ocupa posição central. Lula e Flávio Bolsonaro apresentam propostas distintas para enfrentar as facções, enquanto integrantes do Ministério da Justiça e da Polícia Federal atribuem caráter político-eleitoral à manifestação de Washington. O governo americano, por sua vez, apresenta a medida como parte de uma política regional de combate ao narcotráfico. A proximidade entre Trump e Flávio, contudo, amplia as dúvidas sobre os objetivos do gesto.

O Agora RN já havia abordado esse ambiente no editorial “Lula tenta escapar da arapuca armada pela direita bolsonarista”, publicado na edição de 30 e 31 de maio. Na ocasião, o jornal registrou que a decisão norte-americana de classificar PCC e CV como organizações terroristas havia colocado Lula diante de uma escolha politicamente difícil. Apoiar integralmente a iniciativa significaria entregar uma vitória à oposição; rejeitá-la poderia alimentar a acusação de tolerância com o crime organizado. O editorial observou que uma decisão de caráter geopolítico havia se transformado em tema da campanha brasileira.

A classificação foi anunciada pelo secretário de Estado Marco Rubio em 28 de maio, com vigência a partir de 5 de junho. O ato ocorreu depois de Flávio Bolsonaro se reunir com Trump em Washington e pedir que as duas facções fossem enquadradas como organizações terroristas. Eduardo Bolsonaro também participou das articulações.

A discussão não se limita ao significado político da palavra “terrorismo”. A classificação adotada pelos Estados Unidos permite ampliar sanções financeiras, restringir transações e submeter empresas e instituições bancárias a um nível maior de fiscalização. Autoridades brasileiras também manifestaram preocupação com a possibilidade de o enquadramento abrir caminho para iniciativas unilaterais em território nacional. Washington afirma que o objetivo é desarticular as redes internacionais das facções.

Nos meses seguintes, outros episódios reforçaram a percepção de que temas diplomáticos passaram a se misturar à eleição brasileira. Em julho, o governo Trump impôs novas tarifas sobre produtos do Brasil, alegando práticas comerciais injustas. Lula atribuiu a medida à articulação da família Bolsonaro e disse que havia finalidade eleitoral. Flávio e seus aliados negaram ter atuado contra os interesses econômicos do País.

Ainda em julho, o Brasil negou vistos a dois integrantes do Departamento de Estado que pretendiam discutir integridade eleitoral, liberdade religiosa e liberdade de expressão em Brasília. Autoridades brasileiras afirmaram que a visita poderia servir para questionar a confiabilidade do sistema de votação e influenciar a disputa presidencial. O governo norte-americano rejeitou essa interpretação, classificou a agenda como rotineira e considerou “sem fundamento” a acusação de interferência. As duas versões foram relatadas pela Reuters.

A crise diplomática avançou em agosto, quando os Estados Unidos revogaram o visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti. A medida foi apresentada como resposta à negativa dos vistos dos dois funcionários e à demora brasileira em aprovar a indicação de Daniel Perez para a Embaixada dos Estados Unidos em Brasília. Washington informou que a situação poderia ser revertida após a solução dos impasses. O Brasil respondeu que seguia os procedimentos diplomáticos e voltou a falar em tentativa de ingerência no processo político nacional. O episódio aprofundou o atrito entre os dois governos.

Nada disso elimina a gravidade do PCC e do Comando Vermelho, nem impede a cooperação internacional contra o tráfico, a lavagem de dinheiro e a expansão transnacional das facções. Também não significa que críticas ao governo brasileiro nessa área sejam ilegítimas. O ponto central está na sucessão de atos, no calendário em que ocorrem e na proximidade política declarada entre a Casa Branca e um dos principais candidatos.

A eleição brasileira deve ser decidida pelos brasileiros, sem pressão de governos estrangeiros em favor ou contra qualquer candidatura. Aos Estados Unidos cabe manter relações institucionais com o Brasil independentemente do vencedor. Às autoridades brasileiras compete responder com transparência, firmeza e respeito diplomático. E ao eleitor cabe avaliar, nas urnas, tanto as propostas para a segurança pública quanto a conduta de cada grupo diante de interesses externos.