A frase de Davi Alcolumbre dizendo que vai“mostrar ao governo como é governar sem o presidente do Senado” não é apenas um recado duro. É um golpe político calculado, desses que mudam o humor de Brasília em segundos. E é também a evidência pública de algo que o governo tentou ignorar até o último minuto: a governabilidade no Brasil passa, obrigatoriamente, pelo Senado. E quando o Senado decide medir forças, o Executivo descobre, na marra, que poder sem articulação vira fumaça.
É preciso dizer com toda clareza: nenhum governo funciona sem o Senado. Nenhum.

A Casa Alta é onde repousam ou morrem as agendas realmente estruturais do País. É lá que se decide o futuro das sabatinas para o STF, das direções de agências reguladoras, das embaixadas estratégicas, das PECs, das revisões fiscais, das reformas e de qualquer movimento institucional relevante. Se o presidente do Senado fecha a porta, tudo trava. E quando tudo trava, Brasília apodrece em silêncio.
O recado de Alcolumbre expõe um erro político primário do governo: subestimar a força daquela que é, historicamente, a Casa mais resistente às pressões do Planalto. O Senado não funciona na base da intimidação, muito menos no improviso. Funciona na lógica da reciprocidade, da negociação e da liturgia. Quando essa liturgia é rompida, o Senado reage e reage pesado.
O Planalto parece ter esquecido que Alcolumbre não é apenas presidente do Congresso; é um operador político raro, com trânsito amplo, articulação comprovada e capacidade real de pautar ou desidratar agendas inteiras. Ao anunciar que mostraria ao governo “como é governar sem o presidente do Senado”, ele não fez uma ameaça vazia. Ele fez uma demonstração de força. E, em Brasília, demonstrações de força têm consequências.
As sabatinas podem simplesmente evaporar do calendário. PECs podem ficar enterradas por meses. Medidas provisórias podem caducar sem cerimônia. Indicações sensíveis podem virar moeda de troca de alto valor. E, pior: a percepção de fragilidade do governo se espalha internamente, incentiva rebeliões na base e cria um ambiente em que cada senador passa a testar limites, porque sabe que o desgaste não recairá sobre ele, mas sobre o Executivo.
A governabilidade não é uma abstração: é uma engrenagem institucional. Se um pino trava, a máquina inteira esquenta. Se o Senado trava, o governo para.
A frase de Alcolumbre, dura e explícita, apenas traduziu o óbvio que alguns insistem em negar: governar sem o Senado não é difícil é impossível. E insistir nesse caminho não revela coragem; revela imprudência.