A decisão do ministro Nunes Marques de suspender, a pedido do Partido Liberal (PL), a divulgação de uma pesquisa da AtlasIntel publicada quase três semanas antes marca sua chegada à presidência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob questionamentos. Embora a liminar tenha efeito prático reduzido, já que os resultados eram amplamente conhecidos, o episódio reacendeu o debate sobre os limites da atuação da Justiça Eleitoral na regulação da informação durante o processo eleitoral.
A medida ainda depende de análise definitiva pelo plenário da Corte, após pedido de vista da ministra Estela Aranha. Para críticos da decisão, impedir a circulação de um levantamento já divulgado não corrige eventuais falhas metodológicas, mas restringe o acesso dos eleitores a informações relevantes sobre a disputa política.

Historicamente, a Justiça Eleitoral já determinou a suspensão de pesquisas consideradas fraudulentas ou sem rigor técnico. No caso da AtlasIntel, entretanto, a controvérsia envolve aspectos metodológicos do questionário aplicado. Divulgado em 19 de maio, o levantamento apontou queda do pré-candidato Flávio Bolsonaro após a repercussão de um áudio em que ele solicitava recursos ao banqueiro Daniel Vorcaro para financiar um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.
O PL argumenta que a pesquisa utilizou perguntas capazes de induzir respostas. Entre os questionamentos levantados estão possíveis efeitos de priming, framing, ancoragem e ordem das perguntas. O partido sustenta que o questionário teria influenciado a percepção dos entrevistados ao abordar o caso envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro.
Por outro lado, defensores da validade do levantamento afirmam que as perguntas sobre intenção de voto foram realizadas antes de qualquer referência ao episódio envolvendo o senador. Além disso, o sistema utilizado não permitia que os participantes retornassem para alterar respostas anteriores, o que, segundo essa interpretação, afastaria a possibilidade de contaminação das respostas centrais da pesquisa.
Outro ponto destacado é o momento da decisão. Críticos argumentam que, se houvesse irregularidades graves, a contestação deveria ter ocorrido antes da realização e divulgação do levantamento, e não semanas depois, quando os resultados já integravam o debate público.
Também gerou repercussão o fato de o ministro ter citado declarações de Andrei Roman, presidente da AtlasIntel, ao analisar o caso. O entendimento defendido por setores críticos à decisão é que dirigentes de institutos de pesquisa têm o direito de interpretar os dados produzidos e que cabe ao público avaliar essas informações.
O episódio se soma a outros casos recentes envolvendo a atuação do TSE sobre conteúdos relacionados ao processo eleitoral. Entre os exemplos frequentemente citados estão decisões de remoção de vídeos, suspensão de perfis e restrições a conteúdos divulgados na internet durante campanhas eleitorais.
Para os críticos dessas medidas, o período eleitoral exige ampliação — e não redução — da circulação de informações e do debate público. Nessa visão, a proteção da democracia passa pela transparência, pela pluralidade de versões e pela capacidade dos eleitores de formar seus próprios julgamentos a partir das informações disponíveis.