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Vagner Araújo

Marketing político em encruzilhada, uma aula de João Santana

Confira a coluna de Vagner Araújo desta terça-feira 18
Vagner Araújo
18/03/2025 | 06:00

Considero-me um privilegiado por ter tido a oportunidade de trabalhar com João Santana em campanhas nacionais e internacionais — um verdadeiro laboratório de comunicação política dos mais avançados do mundo, de onde extraí um aprendizado inestimável sobre estratégias, linguagens, narrativas e, principalmente, sobre a alma do cidadão-eleitor.

Foi, portanto, com grande entusiasmo que assisti à sua palestra no evento Reboot, ocorrido no mês passado em Brasília. Em uma exposição densa, crítica e instigante, João Santana apresentou uma verdadeira aula sobre os fundamentos, os dilemas e os caminhos possíveis para o marketing político contemporâneo. Sua abordagem foi muito além das conjunturas eleitorais, tratando da essência simbólica da comunicação política e dos desafios éticos e estruturais que envolvem a profissão.

marketing político. foto cedida
Marketing político em encruzilhada, uma aula de João Santana. | Foto: Cedida

Organizada em torno de sete “encruzilhadas” — metáfora inspirada em Exu, o orixá das comunicações e das bifurcações — a palestra evidenciou os pontos críticos que exigem reflexão e reinvenção: a integração entre propaganda tradicional e novas tecnologias, os limites éticos entre persuasão e manipulação, o papel simbólico da política e a necessidade de um novo modelo empresarial para o setor.

João destacou, com propriedade ímpar, que a comunicação política vive um processo de esvaziamento simbólico. O excesso de humor raso, o voyeurismo digital e a estética da banalização substituíram a emoção genuína, o conteúdo programático e o encantamento cívico. Para ele, vivemos não apenas uma pobreza material, mas também uma “miséria simbólica” que corrói o imaginário coletivo e fragiliza a democracia.

Entre os conceitos mais inovadores está a ideia da “partícula TikTok”: a busca por uma linguagem política que, mesmo em poucos segundos, seja capaz de atrair a atenção e comunicar com profundidade, beleza e emoção — sem cair no grotesco. O desafio está em condensar ideias relevantes com linguagem simbólica e estética elevada, sem perder a conexão com a realidade do público.

Outro ponto marcante foi sua crítica ao modelo empresarial das agências políticas e à publicidade institucional do Estado. Santana defende a formação de clusters criativos, cooperativas de comunicação e novas formas de atuação profissional que valorizem a inteligência coletiva e a diversidade de formatos.

A mensagem de João Santana é clara: marqueteiros, comunicadores e estrategistas precisam recuperar a dimensão ética, simbólica e propositiva da política. Somos escultores de símbolos e lapidadores de ideias. E nosso papel, mais do que nunca, é ajudar o país a reconstruir um novo imaginário político — mais inspirador, plural e democrático. Este é o desafio que se impõe. E é também o chamado que não podemos ignorar.