Até a deflagração da Operação Mederi, o prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra (União), parecia imbatível na corrida eleitoral do Rio Grande do Norte. Líder nas pesquisas de intenção de votos para o Governo do Estado e com a gestão em Mossoró ostentando aprovação acima dos 80%, o prefeito aparecia como o nome a ser vencido no pleito de outubro.
Mas veio a operação da Polícia Federal (PF) e da Controladoria-Geral da União (CGU) para romper esse cenário. A investigação em curso aponta para o envolvimento de Allyson em um esquema de desvio de recursos públicos da saúde. Agentes foram à casa do prefeito e apreenderam equipamentos eletrônicos.

A PF gravou diálogos nos quais empresários discutem a possível destinação de propina para o gestor. Uma das empresas teve salto em contratos com a Prefeitura de Mossoró nos últimos anos.
O que a operação indica, ao menos neste primeiro momento, é que Alysson, até então tratado como exceção, não estaria necessariamente fora das práticas recorrentes do submundo da política e da gestão pública, caso as suspeitas se confirmem. Isso ainda está longe de ser afirmado como fato. Mas também já não pode ser descartado como hipótese.
A mudança de cenário reforça a célebre frase atribuída ao ex-governador mineiro Magalhães Pinto: a política é como as nuvens e, portanto, muda o tempo todo. Até poucos dias atrás, o cenário eleitoral para 2026 parecia relativamente estabilizado. Bastou um episódio para que tudo ficasse em suspensão. Rotas são recalculadas.
De candidato quase imune a questionamentos e gestor tido como exemplar, Allyson passou à condição de político que precisará demonstrar que não cometeu irregularidades. Passou a ter de se explicar.
O impacto foi imediato. Partidos aliados demonstraram cautela antes de manifestar apoio. A declaração de solidariedade veio mais de 24 horas depois da operação, por meio de uma nota sucinta e assinada pelos partidos, não pelos seus presidentes. Detalhe nada banal.
É importante destacar que Allyson sequer responde a um processo judicial neste caso. O fato de a PF e a CGU terem ido à sua casa não significa que ele é culpado. A fase atual é de apuração. Os investigadores encontraram indícios e estão buscando mais detalhes, que podem, ou não, confirmar as suspeitas. Logo, conclusões sobre os fatos neste momento são precipitadas e irresponsáveis.
Outro detalhe a ser destacado é que, até agora, o conteúdo divulgado pela PF mostra apenas empresários tratando sobre um possível repasse para Allyson, de maneira informal. O prefeito em si não foi flagrado em conduta ilícita segundo os relatórios obtidos pela imprensa. E faz sentido. Era de se esperar que, se houvesse provas contundentes, medidas mais duras fossem adotadas, como prisão ou afastamento do cargo. Isso não ocorreu.
Mas, independentemente das repercussões jurídicas, é impossível ignorar o impacto político da operação e também não dá para controlar as leituras que a sociedade terá do episódio. As próximas pesquisas darão o tom sobre como o fato vai ressoar junto ao eleitorado.
Nesse compasso, Allyson também calibra suas estratégias. Ontem, nas entrevistas que concedeu, disse estar desconfiado da grande projeção nacional que o caso ganhou. Sugeriu haver interesses de adversários envolvidos por trás. Lembrou que a imprensa parou por alguns momentos de falar do caso do Banco Master para falar de Mossoró. É um fato.
Logo após a operação, Allyson publicou um vídeo em que atrela a operação à proximidade da eleição e seu desempenho nas pesquisas. A gravação já teve mais de 1 milhão de visualizações. Nos comentários, uma ala diz que o prefeito está sendo perseguido.
Nesse contexto, chama atenção a reação do campo governista. Para Cadu Xavier, pré-candidato do PT e que vem enfrentando dificuldades nas pesquisas, o episódio soou como oportunidade. Ele e aliados se apressaram em divulgar notas que sugeriam desonestidade de forma prematura, antes mesmo de qualquer conclusão investigativa. A estratégia parece ter sido mal calibrada.
O resumo é que, para alguns, ficou evidente uma convergência entre setores da mídia nacional e lideranças petistas locais na tentativa de ampliar o desgaste do líder nas pesquisas. Nos bastidores, cresce a percepção de que havia expectativa prévia sobre a repercussão da operação.
Este jornal não se coloca a serviço de nenhum dos lados. Não atua como defensor de Alysson, nem como linha auxiliar de seus adversários. Defende princípios básicos: o devido processo legal, a presunção de inocência e a separação clara entre Justiça e disputa eleitoral.
No curto prazo, o cenário eleitoral entra em compasso de espera. É de esperar que Alysson só deixe o cargo de prefeito para disputar o Governo do Estado se, até abril, não surgirem fatos comprometedores. Antecipar movimentos agora seria imprudente.
Ao fim e ao cabo, nada está decidido. Mas algo mudou. A política segue em movimento. E, a partir de agora, Allyson Bezerra atravessará esse processo sob escrutínio permanente — da Justiça, da opinião pública e dos adversários.