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Opinião

IA já assusta os donos do poder

Presença dos líderes das principais empresas de IA no G7 reforça preocupação das potências com segurança, soberania e riscos geopolíticos da tecnologia
22/06/2026 | 16:37

A presença, na semana passada, dos principais nomes da corrida da inteligência artificial no encontro do G7, em Évian, na França, expôs a dimensão da inquietação que a tecnologia já provoca entre as maiores potências democráticas. Dario Amodei, da Anthropic, Sam Altman, da OpenAI, e Demis Hassabis, do Google DeepMind, dividiram um almoço com os líderes das sete economias mais ricas, representantes da União Europeia e convidados. A reunião mostrou que a IA deixou de ser apenas uma disputa empresarial ou científica. Passou a ser assunto de poder, segurança e soberania. Também evidenciou que, nesse jogo, só os Estados Unidos têm hoje capacidade real de interferir no rumo dos acontecimentos, e vêm usando esse poder.

O caso da Anthropic ilustra a tensão. Em fevereiro, a empresa, cujos modelos têm se destacado entre os mais avançados para aplicações empresariais e governamentais, foi impedida pelo Pentágono de fechar contratos com o governo americano. A razão foi sua recusa em permitir que seus sistemas fossem usados em vigilância ou em armas autônomas. Amodei, desde então, consolidou a imagem de uma espécie de porta-voz dos perigos da IA. Dentro e fora da empresa, defende regulação e limites ao avanço da tecnologia. No almoço em Évian, pediu cooperação entre os países e afirmou que era preciso “resistir à tentação de se dividir”. Altman e Hassabis, ao menos publicamente, acompanharam a defesa.

Opinião Correio

As empresas americanas lideram o desenvolvimento da IA. Os modelos já superam humanos em tarefas como elaboração de trabalhos jurídicos e programação de computadores. Avanços científicos relevantes também vêm sendo registrados em campos como química e matemática. A expectativa de novas descobertas é plausível, inclusive em frentes capazes de alterar a medicina, o enfrentamento do aquecimento global e o combate ao crime. A evolução acelerada desses sistemas alimenta a possibilidade de que, em algum momento, eles ultrapassem a capacidade intelectual humana. A promessa é imensa. Os riscos também.

Em abril, a Anthropic apresentou o Mythos, modelo capaz de identificar vulnerabilidades em softwares. Nas mãos erradas, uma ferramenta desse tipo poderia facilitar ataques a sistemas de bancos e empresas. Antes de levá-lo ao mercado, a companhia restringiu os testes. Em 9 de junho, lançou uma nova versão, chamada Fable. Três dias depois, a Casa Branca, sob o argumento de risco à segurança nacional, proibiu seu uso por estrangeiros, mesmo residentes nos Estados Unidos. A reação da Anthropic foi retirar o Fable do ar.

A preocupação central do governo americano parece menos ligada ao emprego direto desses modelos, seja no campo militar, seja no civil, e mais ao risco de que sejam capturados por potências rivais, especialmente a China. As iniciativas chinesas são hoje as únicas com potencial de alcançar o desempenho das americanas, mas seguem uma lógica distinta. Em vez de apostar apenas em modelos cada vez mais poderosos, a China trabalha com versões mais baratas, voltadas a aplicações específicas e com menor consumo de energia, partindo da premissa de que modelos avançados estarão mais disponíveis no futuro. Ainda não se sabe qual estratégia prevalecerá. O que já se pode imaginar é o peso geopolítico do primeiro país capaz de dominar uma IA com recursos robustos de vigilância ou aplicação militar.

Na declaração final, o G7 afirmou que pretende “trabalhar em conjunto com empresas líderes para acelerar a implantação segura e benéfica” da inteligência artificial. Ganha força, nesse debate, a criação de uma instituição internacional para a IA nos moldes da Agência Internacional de Energia Atômica. Seria um erro esperar que a tecnologia prove ter poder destrutivo comparável ao das armas nucleares para só então submetê-la a controle global.