A escassez de trabalhadores deixou de ser problema localizado e passou a impor custos relevantes à economia brasileira. Empresas de diferentes áreas enfrentam dificuldade persistente para contratar, pressionadas ao mesmo tempo pelo aquecimento da atividade, pelo envelhecimento da população, pela baixa qualificação profissional e por mudanças nas expectativas dos trabalhadores. É melhor conviver com um mercado de trabalho aquecido do que com o drama social do desemprego elevado. Ainda assim, a falta de mão de obra qualificada precisa ser tratada como alerta.
Pesquisa da consultoria ManpowerGroup, realizada em 41 países, mostra que oito em cada dez empregadores no Brasil relatam dificuldade para preencher vagas. O país aparece em oitavo lugar no ranking global, atrás de Eslováquia, Grécia e Japão, que lideram a lista. O problema é mais intenso entre empresas do Sudeste com mais de mil funcionários, mas não se limita a grandes corporações nem a poucos setores.

A dificuldade atravessa serviços profissionais, tecnologia da informação, comércio, logística, hotelaria, indústria, saúde, construção e finanças. Em todos esses segmentos, mais de 70% dos empregadores afirmam enfrentar escassez de trabalhadores. As competências mais difíceis de encontrar estão ligadas a inteligência artificial, tecnologia da informação, atendimento ao cliente, marketing e vendas.
Os números oficiais confirmam a pressão no mercado de trabalho. Entre março e maio, a taxa de desocupação ficou em 5,6%, o menor nível para o período desde o início da série histórica do IBGE, em 2012. Não se trata de episódio isolado. O desemprego permanece abaixo de 7% há mais de um ano, em contraste direto com o período entre o início de 2016, durante a crise do governo Dilma Rousseff, e o começo de 2022, quando a economia ainda se recuperava dos efeitos da pandemia. Naquela fase, a desocupação ficou por longo tempo em dois dígitos.
A mudança tem duas causas principais. A primeira é o crescimento econômico mais forte. Desde 2021, o PIB avança em média 3,3% ao ano, ritmo que o país não registrava desde o ciclo encerrado em 2013. A segunda é demográfica. A população brasileira envelhece rapidamente, e a fatia de jovens disponíveis para entrar no mercado de trabalho encolhe.
Há 14 anos, jovens de 15 a 29 anos representavam 36% da população. Hoje, são 28,5%. No mesmo período, a parcela de idosos subiu de 10% para 14%. Com menos pessoas buscando ocupação, a Fundação Getulio Vargas estima que a taxa de desemprego tenha recuado 2 pontos percentuais por efeito dessa transformação demográfica.
Esse processo tende a se aprofundar. A população continuará envelhecendo, enquanto as projeções para a economia apontam para desaceleração. O modelo recente, sustentado por gasto público e aumento do endividamento, tem fôlego limitado. Se o PIB perder ritmo, a pressão sobre a contratação pode diminuir. Mas isso não elimina o problema de fundo.
A escassez atual expõe uma deficiência que voltará a aparecer sempre que o país crescer de forma mais consistente. O Brasil ainda não preparou sua força de trabalho para as competências exigidas pela nova economia. Faltam profissionais para áreas técnicas, digitais, comerciais e industriais. Faltam também políticas mais eficientes de formação, requalificação e aproximação entre educação e mercado.
O ponto central está na escola. Sem um sistema educacional capaz de formar trabalhadores para as áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática, reunidas na sigla inglesa STEM, o país continuará preso ao mesmo descompasso. Haverá empresas querendo contratar e trabalhadores sem a qualificação necessária para ocupar as vagas. Haverá crescimento, mas com gargalos. Haverá oportunidade, mas sem gente preparada para aproveitá-la.
A escassez de mão de obra, portanto, não deve ser lida apenas como sinal positivo de emprego aquecido. É também sintoma de atraso educacional e de falta de planejamento. O mercado pode encontrar algum equilíbrio entre oferta e demanda por trabalho. Mas cabe ao poder público reduzir o custo desse ajuste, ampliar a qualificação profissional e preparar o país para crescer sem esbarrar, novamente, na falta de gente pronta para trabalhar.
Governo fantasia ajuste e empurra crise
O governo Lula insiste em vender como realista uma conta que os principais especialistas em finanças públicas consideram improvável. Economistas e estudiosos da área fiscal já projetam para o próximo ano a necessidade de um choque severo de gastos, sob pena de o País se aproximar de um quadro semelhante ao colapso visto em 2015 e 2016, no governo Dilma Rousseff. Ainda assim, o ministro do Planejamento e Orçamento, Bruno Moretti, afirmou ao Estadão que o Brasil conseguirá alcançar superávit primário em 2027 sem aumento de impostos e sem corte drástico de despesas.
A promessa desafia a lógica. Mas é exatamente essa a premissa inscrita no Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias enviado pelo Executivo ao Congresso em abril. Será também sobre essa base que o governo pretende montar, em agosto, o Projeto de Lei Orçamentária Anual.
Pela leitura otimista de Moretti, o Executivo passará agora a perseguir o centro da meta fiscal em 2027, algo que nunca fez desde que propôs e aprovou o arcabouço fiscal. O plano prevê saldo positivo de R$ 73,22 bilhões entre receitas e despesas, o equivalente a 0,5% do Produto Interno Bruto.
Mesmo sendo insuficiente para estabilizar a dívida pública, esse resultado já seria ambicioso diante do histórico fiscal dos governos lulopetistas. Para alcançá-lo, segundo o ministro, bastariam “instrumentos” de gestão orçamentária, como gatilhos para conter gastos com pessoal e benefícios tributários.
O problema é que nem o Tesouro Nacional sustenta tamanho otimismo. Na edição mais recente do Relatório de Projeções Fiscais, o órgão trabalha com cenário bem menos favorável. A previsão é que o País encerre 2027 com déficit de 0,1% do PIB e só atinja o piso da meta, de 0,25%, se forem consideradas todas as despesas que podem ficar fora do cálculo, como os precatórios.
Para cumprir o centro da meta, de 0,5% do PIB, o próprio Tesouro estima ser necessário adotar medidas adicionais de aumento de arrecadação ou contingenciamento de despesas equivalentes a 0,2% do PIB. Não é pouco. E, entre 2028 e 2030, o esforço exigido seria ainda maior, da ordem de 1,2% do PIB.
O otimismo oficial tem função política. Em ano eleitoral, números produzidos a partir da Junta de Execução Orçamentária podem ser organizados para dizer quase qualquer coisa. A dificuldade está nas premissas. As variáveis macroeconômicas e fiscais usadas pelo Executivo parecem boas demais para serem verdadeiras, como apontou a Instituição Fiscal Independente do Senado.
No Relatório de Acompanhamento Fiscal, a IFI advertiu que “isso influenciaria as projeções futuras de despesas e receitas, gerando um cenário de resultados primários pouco factíveis sem ajustes fiscais relevantes, afetando, consequentemente, as estimativas para a dívida pública”. Pelos cálculos da instituição, estabilizar a dívida exigiria superávit anual de 2,1% do PIB.
Moretti prefere sustentar a confiança na agenda do governo a reconhecer a insuficiência do ajuste. “Nosso papel é demonstrar a potência dessa agenda, demonstrar como nós vamos evoluir no processo de consolidação fiscal até para trazer a valor presente uma confiança capaz de afetar os preços dos ativos financeiros”, disse.
A equipe econômica passou a tratar a meta fiscal como se ela fosse um objetivo isolado, enquanto atribui às taxas de juros a responsabilidade principal pelo aumento da dívida. É uma tese conveniente. Mais difícil seria admitir que a política fiscal se tornou expansionista desde a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, antes mesmo da posse.
“Não concordo que a gestão fiscal seja o ponto central ou o único ponto para explicar o juro elevado”, afirmou o ministro. Para ele, a piora das expectativas de inflação teria mais relação com fatores climáticos, a expectativa do El Niño e o choque do petróleo provocado pela guerra no Oriente Médio.
O discurso não fecha com os números. A promessa de superávit sem aumento de impostos e sem corte relevante de despesas soa menos como planejamento e mais como delírio fiscal. Se Lula for reeleito e insistir nessa leitura, o País deverá se preparar para uma conta mais alta e para um ajuste ainda mais doloroso.