O Banco Central voltou a reduzir a Selic, em sua reunião de junho, agora para 14,25% ao ano, mas o gesto veio acompanhado de um aviso importante: a manutenção do ciclo de cortes vai depender do cenário à frente, das condições globais e da evolução da inflação. Em outras palavras, a porta não está mais aberta. Está apenas entreaberta. Para a economia real, isso faz toda a diferença.
Para quem produz, vende, financia estoque, contrata e tenta manter a roda girando, juros nesse patamar funcionam como um peso difícil de remover. O crédito continua caro, a inadimplência permanece elevada e o orçamento de famílias e empresas segue pressionado por parcelas que chegam antes do alívio. Em um ambiente assim, cada ponto a menos na taxa básica importa. Mas, quando o Banco Central insiste na cautela, o alívio chega devagar demais para quem já está no limite. A decisão do Copom foi interpretada justamente nesse tom de corte confirmado, porém cercado de prudência diante da inflação e das incertezas internacionais.

Esse contexto merece atenção redobrada no segundo semestre. Parte das estimativas de crescimento já trabalhava com a continuidade da queda dos juros, o que ajuda a sustentar consumo, investimento e confiança. Quando essa trajetória perde tração, a economia sente. Não por acaso, o próprio Banco Central ressaltou que os próximos passos dependerão de novas informações e das condições do ambiente externo. O mercado internacional continua oferecendo ruído demais e previsibilidade de menos. E, em economia, ruído custa caro.
Foi sobre esse terreno instável que o economista Alexandre Schwartsman chamou atenção, em maio, durante o Innovation Day, promovido pela Fecomércio RN: a necessidade de enfrentar o desequilíbrio fiscal, conter o crescimento da dívida pública e abrir espaço para a queda dos juros. Ele lembrou que a guerra e a geopolítica seguem como desafios relevantes para o cenário econômico, com efeitos diretos sobre preços, atividade e confiança. Sua leitura dialoga com o que o empresário brasileiro já sente na prática, pois quando o mundo aperta, o crédito encarece; quando a incerteza sobe, o investimento hesita.
Por isso, o corte de junho deve ser lido com serenidade e realismo. O país precisa de inflação sob controle, sim. Precisa, também, de juros que permitam planejamento, ampliação do consumo, acesso ao crédito e retomada dos investimentos. Afinal, crescimento econômico não depende apenas de expectativas positivas. Ele exige condições concretas para que empresários invistam, consumidores tenham confiança e o crédito cumpra seu papel de impulsionar a atividade produtiva.