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Marcelo Queiroz

Dívidas: a correnteza que arrasta o orçamento

Confira a coluna de Marcelo Queiroz deste sábado 9
Marcelo Queiroz
09/05/2026 | 06:00

Há momentos em que a vida financeira das famílias parece um rio em cheia. A correnteza ganha força, arrasta o planejamento, encurta escolhas e faz o orçamento perder o chão. É nesse cenário que o superendividamento deixa de ser um dado estatístico e passa a marcar o cotidiano de milhões de brasileiros, com impactos diretos sobre a renda, o consumo e a confiança para seguir adiante.

Os dados mais recentes da CNC mostram a dimensão desse desafio. Em abril, o país voltou a registrar novo recorde na série histórica da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic/CNC): 80,9% das famílias brasileiras estavam endividadas, em alta pelo quarto mês seguido. No mesmo período, a inadimplência permaneceu em patamar elevado, com 29,7% de famílias com contas em atraso. Em Natal, o cenário também inspira atenção: 83,4% das famílias estavam endividadas em abril de 2026, o que representa mais de 235 mil lares na capital potiguar. É um quadro que exige serenidade, mas também ação.

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Dívidas: a correnteza que arrasta o orçamento - Foto: José Cruz/Agência Brasil

Outro ponto de atenção são as bets. Elas configuram-se como um risco sistêmico para a saúde financeira das famílias, drenando recursos que seriam destinados ao comércio varejista e ao consumo produtivo. As apostas nestas plataformas têm comprometido a disponibilidade de renda para manter o pagamento em dia das dívidas e podem ter levado 270 mil famílias a situação de “inadimplência severa” – incapacidade de pagar marcada por atrasos de 90 dias ou mais.

Nesse contexto, iniciativas de renegociação de dívidas, como o Desenrola 2.0, surgem como instrumentos importantes. Elas podem devolver fôlego a quem está estrangulado por juros altos, especialmente no cartão de crédito, nos carnês e no crédito pessoal, modalidades que ainda pesam fortemente no orçamento. Ao reduzir encargos e ampliar prazos, essas medidas ajudam famílias a reorganizar a vida financeira e retomam algo essencial: a possibilidade de voltar a consumir com algum planejamento.

É esse o ponto central que quero destacar: os mecanismos de renegociação precisam ser construídos com responsabilidade, para evitar que o alívio momentâneo se transforme em nova pressão sobre a liquidez das famílias. Em outras palavras, é preciso oferecer saída, sem criar uma nova armadilha.

O impacto positivo desse movimento é relevante para toda a cadeia econômica. Quando o consumidor recupera condições de crédito, o comércio sente. Voltam as compras parceladas, o financiamento de bens duráveis, o consumo de serviços e a circulação de renda que sustenta empregos. Mas esse reequilíbrio só se consolida quando o país enfrenta a raiz do problema: crédito caro, juros persistentes e perda de capacidade de pagamento em larga escala.

O superendividamento, portanto, não pode ser tratado apenas como questão individual. Ele afeta a confiança, a previsibilidade e o ritmo da economia. A família endividada adia projetos, reduz consumo e vive sob tensão. O comércio perde fôlego e a atividade produtiva desacelera. Forma-se, assim, um círculo que precisa ser rompido com política econômica responsável, educação financeira e instrumentos eficazes de renegociação.