A duplicação da BR-304, que teve obras iniciadas nesta quinta-feira, com prazo de conclusão em até 36 meses para o primeiro trecho Assú-Mossoró, deixou de ser apenas uma demanda histórica da infraestrutura potiguar para se transformar em um ativo político de peso no Rio Grande do Norte. A obra, aguardada há décadas por quem depende da principal via de integração entre o litoral e o interior do Estado, carrega hoje um simbolismo que vai além do concreto e do asfalto: ela reorganiza discursos, reposiciona atores e ajuda a redesenhar alianças num momento de rearranjo político.
Do ponto de vista administrativo, é inegável que a BR-304 tem a maternidade política da governadora Fátima Bezerra (PT). Foi sob sua gestão que o projeto ganhou prioridade real, superou entraves técnicos e encontrou sustentação política para sair do papel. Fátima assumiu o risco, bancou o desgaste e transformou a obra em uma das vitrines de seu governo, sobretudo num cenário em que entregas concretas passaram a ser decisivas para reequilibrar a narrativa da gestão.

Mas a história da BR-304 não é de autoria individual. O avanço da obra foi resultado de um esforço conjunto, que envolveu articulação institucional, diálogo federativo e construção política. Nesse processo, o vice-governador Walter Alves (MDB) também teve papel relevante, especialmente na fase inicial de articulação e na interlocução com o governo federal, quando a obra ainda buscava viabilidade orçamentária e respaldo político. O rompimento posterior entre o vice e a governadora não apaga esse histórico, nem reescreve o caminho percorrido até aqui.
É justamente nesse ponto que a obra passa a dialogar com o atual cenário político. A BR-304 surge como um raro exemplo de política pública que sobrevive a rupturas, mas cujo capital simbólico passa a ser disputado. A presença decisiva do Governo Federal e do ministro ligado ao MDB – Renan Filho, da pasta dos Transportes – insere o partido no centro dessa equação. Mesmo após o rompimento do vice-governador com Fátima, o MDB segue ocupando espaço estratégico, demonstrando um pragmatismo que vai além de alinhamentos pessoais ou circunstanciais.
Para o MDB, a BR-304 funciona como demonstração de força institucional e capacidade de entrega, algo fundamental num momento em que o partido reorganiza suas peças no tabuleiro estadual e nacional. Para Fátima, a obra reforça a imagem de governabilidade e legado, elementos centrais para qualquer projeto político futuro. Já para o campo político que se afastou do governo, a estrada também impõe um desafio: como se posicionar diante de uma entrega construída de forma coletiva, mas capitalizada em um novo contexto.
No fim, a BR-304 ensina uma lição recorrente da política: obras não pertencem a uma única biografia. Elas atravessam governos, alianças e rupturas. O asfalto fica; o capital político, esse sim, segue em disputa.