Pesquisa Quaest divulgada na semana passada escancara uma verdade que a política brasileira insiste em fingir que não vê: o medo segue sendo o principal combustível eleitoral do País. O levantamento perguntou o que causa mais temor no eleitor. Para 46%, é a família Bolsonaro voltar ao poder. Para 40%, é Lula seguir na Presidência. O dado não aponta liderança clara de um projeto, mas revela o esgotamento do eleitor diante de uma escolha que não entusiasma, apenas assusta.
O número é cruel porque revela a engrenagem que mantém Lula e Bolsonaro no centro do jogo político. Nenhum dos dois sobrevive hoje sem o outro. O lulismo precisa do bolsonarismo como ameaça permanente à democracia; o bolsonarismo depende do antipetismo para justificar sua retórica de combate ao “sistema”. São dois polos que se retroalimentam, não por virtudes administrativas ou propostas consistentes, mas pela capacidade de provocar rejeição no adversário.

A eleição deixa de ser um exercício de escolha racional e passa a ser um ato defensivo. O eleitor não vota para avançar, vota para impedir. Não se escolhe o melhor caminho; escolhe-se o mal considerado menor. Esse é o retrato de uma democracia cansada, tensionada e emocionalmente sequestrada.
O dado da Quaest também desmonta a narrativa confortável de que a polarização é fruto apenas das redes sociais ou de excessos retóricos. Ela é, na verdade, uma estratégia consciente. Quanto maior o medo, menor o espaço para o debate programático. Quanto maior o radicalismo simbólico, menor a chance de surgirem alternativas viáveis fora do eixo Lula-Bolsonaro.
É nesse ambiente que as chamadas “terceiras vias” naufragam repetidamente. Não por falta de nomes, mas por ausência de oxigênio político. Em um cenário dominado pelo pânico eleitoral, quem não desperta ódio ou temor simplesmente não mobiliza. A política vira um ringue emocional, não uma arena de ideias.
O mais grave é que esse modelo interessa aos dois lados. Lula não precisa encantar além da sua base se conseguir manter vivo o fantasma do bolsonarismo. Bolsonaro, mesmo fora do poder, continua relevante enquanto o antipetismo seguir sendo um sentimento estruturante. Ambos transformaram a rejeição em ativo político e fazem dela sua principal arma.
A pergunta da pesquisa “Você tem medo de quê?” deveria causar mais incômodo do que causou. Um país que vota movido pelo medo não constrói futuro; apenas administra traumas. Enquanto o debate político continuar refém dessa lógica, o Brasil seguirá preso a um ciclo viciado, onde a alternância de poder não representa renovação, apenas troca de temores.
No fim, o dado da Quaest não revela quem está na frente. Revela quem mantém o país parado. A pesquisa Quaest tem margem de erro de dois pontos percentuais, para mais ou para menos. O levantamento foi feito entre 8 e 11 de janeiro, com 2.004 entrevistas presenciais. O registro no TSE é o BR-835/2026.