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Agudograve

Zélia Duncan lança álbum autoral após cinco anos e aposta em nova parceria criativa

Agudograve marca encontro artístico com Maria Beraldo, reúne canções inéditas e explora contrastes, memórias pessoais e experimentações sonoras
Por O Correio de Hoje
02/06/2026 | 13:25

Após cinco anos sem lançar um álbum inteiramente autoral, a cantora e compositora Zélia Duncan retorna ao mercado com Agudograve, trabalho que marca uma nova fase de sua trajetória artística e que nasceu diretamente de um encontro pessoal e criativo com a cantora, clarinetista, compositora e produtora Maria Beraldo.

O disco, o 21º álbum da carreira de Zélia, reúne canções inéditas, parcerias com diferentes compositores e letras que a artista define, em maior ou menor grau, como autobiográficas. O projeto também representa uma aproximação entre duas gerações da música brasileira e uma aposta em experimentações sonoras pouco comuns na discografia da cantora.

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Zélia Duncan no repertório autoral com Maria Beraldo - Foto: Reprodução

A relação entre as duas começou em 2024, mas suas origens remontam a mais de uma década antes. Quando conheceu Zélia nos bastidores de um show, Maria Beraldo contou que havia assistido sete vezes ao espetáculo Totatiando, apresentado pela cantora em 2011 e inspirado na obra de Luiz Tatit. Da admiração surgiu uma amizade que, pouco tempo depois, se transformaria em parceria artística.

“Talvez (o álbum) não surgisse agora. Tem muito a ver com a presença dela na minha vida musical, de chegar me desafiando. A Maria é muito interessante como artista, conhece muito de música para alguém que acabou de fazer 38 anos. Há um sotaque de choro no meio daqueles sons que ela inventa. É brasileiro e experimental ao mesmo tempo”, afirma Zélia, hoje com 61 anos e 45 anos de carreira.

A aproximação entre as artistas aconteceu gradualmente. O primeiro passo foi o convite feito por Maria para que Zélia participasse da faixa Matagal, presente no álbum Colinho, lançado em 2024. Depois foi a vez de Zélia retribuir, chamando Maria para participar de três números em uma apresentação realizada no Blue Note, em São Paulo.

A parceria se consolidou quando as duas aceitaram um convite do Sesc São Paulo para recriar o disco Antonio Carlos Jobim em Minas ao Vivo. A experiência serviu de impulso para um projeto ainda mais ambicioso. Convencida de que havia encontrado a pessoa certa para conduzir sua nova fase artística, Zélia convidou Maria para produzir seu próximo álbum.

Segundo a cantora, a proposta foi enviada em uma mensagem cuidadosamente elaborada.

“Imagina, eu estava convencida há 30 anos!”, brinca Maria. “A mensagem era quase um release dela. Acho que ela queria experimentar meu universo e encontrar nosso universo comum.”

A admiração de Maria por Zélia vai além da música. A produtora lembra que a cantora exerceu papel importante para sua geração ao tratar sua orientação sexual com naturalidade em um período em que isso era menos comum na indústria cultural.

“Eu estava saindo do armário, com minha primeira namorada. E Zélia, além de ser uma artista incrível, abriu muitos caminhos para a minha geração neste sentido, porque nunca escondeu isso do público.”

Segundo Maria, a liberdade criativa oferecida por Zélia foi total durante a produção de Agudograve. Essa autonomia aparece nos arranjos pouco convencionais que marcam o disco.

Ao longo do processo, a produtora realizou múltiplas gravações, experimentou diferentes texturas sonoras e utilizou recursos de pós-produção para criar efeitos envolvendo vozes e instrumentos.

“À Maria me trouxe o inesperado”, resume Zélia. “É claro que não sou boba. Ponho redes bacanas de segurança. Se ninguém gostasse do disco, seria uma espécie de tombo. Mas eu cairia gostoso, porque fiz exatamente o que eu queria.”

A cantora afirma que o resultado final provocou sensações inéditas até para ela. Embora diga não consumir maconha por não apreciar seus efeitos, Zélia recorre à metáfora para explicar a experiência de ouvir algumas das soluções criadas por Maria.

“Acho que a Maria ventou no meu disco. Parece que joga um vento, me tira, me leva. Eu me sinto totalmente doidona ouvindo certas coisas.”

Uma das faixas mais pessoais do álbum é Voz, composta e gravada pelas duas artistas ao lado do violonista João Camarero. A música termina com o verso: “E as cicatrizes todas cantam por mim”.

Segundo Zélia, a frase carrega diferentes camadas de significado.

“Todo tipo de cicatriz, inclusive a que eu tenho no pescoço. Tive um câncer de tireoide em 2017. Então, algumas coisas são literais, outras são metafóricas.”

Das 11 músicas do álbum, dez têm letras assinadas pela cantora. Segundo ela, todas carregam elementos autobiográficos.

A faixa-título, Agudograve, composta em parceria com Lucina, sintetiza essa proposta ao trabalhar continuamente com opostos e contrastes. A letra explora relações entre conceitos como agudo e grave, doce e salgado, cedo e tarde.

A mesma lógica reaparece em Maravilha Disforme, música que conta com participação e melodia de Lenine. Versos como “O sólido que escorre” e “O eterno que termina” aprofundam o jogo entre contradições e paradoxos.

“‘Maravilha’ conversa imensamente com ‘Agudograve’”, explica Zélia. “Mas nunca faço um álbum assim: ‘vou falar sobre paradoxos’. Vou compondo ao longo do tempo, juntando e querendo que aquele disco tenha uma cara.”