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Literatura

Biblioteca de Aline Bei reflete trajetória literária, artística e afetiva da escritora

Autora organiza livros por país de origem dos autores e mantém espaços dedicados ao teatro, à dança e à teoria literária em seu apartamento em São Paulo
Por O Correio de Hoje
02/06/2026 | 13:21

As bibliotecas pessoais costumam revelar muito mais do que hábitos de leitura. Elas ajudam a contar histórias, expõem interesses, registram fases da vida e, muitas vezes, refletem a própria trajetória intelectual de quem as constrói ao longo dos anos. No caso da escritora Aline Bei, autora de obras como O Peso do Pássaro Morto, A Pequena Coreografia do Adeus e Uma Delicada Coleção de Ausências, a organização dos livros segue uma lógica que mistura geografia, memória e formação artística.

Ao longo do tempo, a autora encontrou uma forma particular de ordenar seu acervo. A inspiração surgiu a partir da biblioteca de um amigo, que classificava os livros de acordo com o país de origem dos autores.

aline bei
Escritora Aline Bei organiza sua biblioteca através dos países de origem dos autores - Foto: Divulgação

“Ele organiza por país e eu achei que ficou muito bom. Ajuda a entender quais lugares e culturas você mais lê”, explica a escritora.

A ideia foi incorporada ao seu espaço de leitura, mas não sem adaptações. Algumas das principais paixões que marcaram sua trajetória acabaram criando divisões próprias dentro das estantes.

Antes de se dedicar integralmente à literatura, Aline formou-se em Artes Cênicas. A experiência deixou marcas permanentes em suas referências culturais e também na forma como organiza seus livros.

Por isso, além da classificação por nacionalidade, a autora reservou áreas específicas para obras ligadas ao teatro, à dança e à teoria literária. Entre os títulos reunidos nesses espaços estão trabalhos de autores clássicos e contemporâneos, incluindo nomes como Shakespeare e a coreógrafa alemã Pina Bausch.

Mais do que um sistema rígido de catalogação, a escritora vê sua biblioteca como um organismo em constante transformação.

“A última arrumação dos livros que eu fiz foi no ano passado, e entendo que a biblioteca é viva. Eu começo a me perder, subo e desço livros. Já doei mais de 500 por falta de espaço”, explica a autora.

A declaração ajuda a compreender a relação dinâmica que ela mantém com o próprio acervo. Livros chegam, mudam de lugar, voltam a ser consultados, são revisitados ou seguem novos caminhos por meio de doações.

As estantes ocupam uma área especial dentro do apartamento onde Aline vive em São Paulo.

O ambiente funciona como uma espécie de extensão da sala principal, reunindo biblioteca e espaço de trabalho em um mesmo local. O que diferencia esse cômodo de escritórios tradicionais é sua estrutura inteiramente envidraçada. As paredes transparentes criam um cenário incomum para uma atividade frequentemente associada ao isolamento e ao recolhimento.

Foi nesse ambiente que a escritora produziu seu trabalho mais recente e onde atualmente desenvolve um novo livro, ainda sem previsão de lançamento.

A mudança de contexto alterou significativamente sua rotina criativa. Durante a pandemia, quando ela e o companheiro passaram a viver no apartamento atual, a presença constante de outra pessoa no mesmo ambiente trouxe desafios inéditos para o processo de escrita.

“Na pandemia, quando nos mudamos para cá, meu companheiro trabalhava em home office, e eu tive de lidar com a presença de outra pessoa visível. Foi bem diferente da experiência que eu tive ao escrever meus dois primeiros livros, num ambiente fechado, que era o meu próprio quarto”, conta a autora.

A comparação evidencia uma mudança importante em sua forma de trabalhar. Se os primeiros livros nasceram em um espaço privado e reservado, os projetos mais recentes foram produzidos em um ambiente aberto, integrado ao cotidiano doméstico e permanentemente exposto ao olhar de quem circula pela casa.

A organização da biblioteca também revela aspectos da própria formação intelectual da escritora. Ao separar livros por países, Aline transforma as estantes em uma espécie de cartografia literária, capaz de mostrar quais culturas, tradições narrativas e autores mais influenciaram suas leituras ao longo dos anos.

Os espaços reservados à dramaturgia e à dança preservam vínculos com sua formação nas artes cênicas, demonstrando como diferentes linguagens artísticas continuam dialogando com sua produção literária.

A convivência entre romances, peças teatrais e obras ligadas à performance ajuda a compor um retrato das referências que alimentam sua escrita.