Dados inéditos da Confederação Nacional da Indústria (CNI) indicam uma distorção crescente na estrutura de financiamento do setor produtivo brasileiro. Entre fevereiro e julho do ano passado, o capital de giro foi a principal finalidade dos financiamentos de longo prazo — com vencimento superior a cinco anos — contratados por empresas industriais. Segundo a Sondagem Especial nº 98 – Condições de Acesso ao Crédito em 2025, 31% das empresas que buscaram recursos para cobrir despesas correntes, como folha de pagamento e impostos, recorreram a linhas tradicionalmente voltadas à expansão da capacidade produtiva.
O resultado sugere que parte relevante do setor está mais focada em garantir a sobrevivência em um ambiente de juros elevados e restrições financeiras do que em investir para sustentar o crescimento no médio e longo prazos. “O fato de boa parte das empresas industriais tomarem crédito de longo prazo para capital de giro mostra que o crédito de curto prazo, provavelmente, está muito caro e que outras condições, como a exigência de garantias, estão bastante desfavoráveis”, avalia Maria Virgínia Colusso, analista de Políticas e Indústria da CNI. Segundo ela, diante desse cenário, as empresas acabam utilizando financiamentos de prazo mais longo para atender necessidades do dia a dia.

Na sequência do capital de giro, o investimento em máquinas e equipamentos aparece como a segunda principal finalidade do crédito de longo prazo, citado por 30% das empresas, seguido por investimentos em instalações, com 10%.
A predominância do capital de giro é ainda mais evidente nas operações de curto ou médio prazos, de até cinco anos. Nesse grupo, 59% das empresas apontaram essa finalidade como prioritária. Investimentos em máquinas e equipamentos responderam por 15% das menções, enquanto aplicações em instalações ficaram com 5%.
IOF limita investimentos
A sondagem também mensurou o impacto do aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) sobre a capacidade de investimento da indústria. Quase um terço das empresas foi negativamente afetado pela elevação do tributo no ano passado. Do total de entrevistadas, 16% desistiram de contratar ou renovar crédito após a alta do imposto, enquanto outros 16% reduziram o valor solicitado.
Apesar disso, um terço das empresas industriais (33%) manteve a decisão de contratar ou renovar financiamentos mesmo após o aumento do IOF, indicando que, em muitos casos, o crédito segue sendo indispensável para a continuidade das operações.
Custo tributário lidera propostas de solução
Ao serem questionados sobre alternativas para melhorar o acesso ao crédito, empresários industriais apontaram majoritariamente a redução de custos tributários e administrativos. Essa opção concentrou 49% das menções quando o foco é o crédito de curto ou médio prazo e 39% nas operações de longo prazo.
A ampliação de linhas públicas de crédito aparece em segundo lugar, com 32% das menções para financiamentos de até cinco anos e 31% para prazos mais longos. Na terceira posição, surge a simplificação das exigências das instituições financeiras, citada por 29% dos empresários nas operações de curto prazo e por 32% nas de longo prazo. Também figuram entre as alternativas mais lembradas a flexibilização das regras de concessão de garantias e a ampliação de programas públicos de garantias.
A Sondagem Especial da CNI ouviu 1.789 empresas industriais, sendo 713 pequenas, 637 médias e 439 grandes. O questionário foi aplicado entre os dias 1º e 12 de agosto de 2025.
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