O custo elevado do crédito segue como o principal obstáculo ao financiamento da indústria brasileira e tem impacto direto sobre a disposição de investimento das empresas no Rio Grande do Norte. Levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI), realizado com apoio da Associação Brasileira de Desenvolvimento (ABDE), mostra que oito em cada dez indústrias que enfrentaram dificuldades para obter crédito em 2025 apontam os juros altos como o maior entrave, em um contexto de política monetária restritiva e Selic em 15% ao ano.
De acordo com a Sondagem Especial nº 98 – Condições de Acesso ao Crédito em 2025, 80% dos empresários que relataram dificuldade para contratar crédito de curto ou médio prazo citaram os juros elevados como principal problema. Em seguida, aparecem a exigência de garantias reais, como bens móveis ou imóveis (32%), e a falta de linhas de crédito adequadas às necessidades das empresas (17%).

O diagnóstico se repete na busca por financiamentos de longo prazo, acima de cinco anos, modalidade essencial para projetos estruturantes e de expansão produtiva — especialmente relevantes para economias regionais como a do Rio Grande do Norte. Nessa faixa, 71% dos industriais mencionaram os juros altos como obstáculo, enquanto 31% citaram a exigência de garantias e 17% a ausência de linhas adequadas.
“A atual política monetária é bastante restritiva e encarece o crédito, uma vez que a taxa Selic está em 15% ao ano e os juros reais giram em torno de 10%. O crédito mais caro desincentiva o investimento em expansão da capacidade produtiva e em inovação. Com isso, a indústria perde competitividade”, afirma Maria Virgínia Colusso, analista de Políticas e Indústria da CNI.
No Rio Grande do Norte, onde a estrutura industrial é formada majoritariamente por pequenas e médias empresas, o impacto tende a ser mais intenso. O levantamento indica que, entre as companhias que buscaram crédito de longo prazo, a frustração na obtenção chegou a 43% nas médias indústrias e a 37% nas pequenas, contra 27% nas grandes. No crédito de curto ou médio prazo, o insucesso atingiu 26% das médias e 21% das pequenas, ante 16% das grandes.
A Selic elevada também reduziu a própria demanda por financiamento. Mais da metade das empresas industriais (54%) não buscou contratar ou renovar crédito de longo prazo nos seis meses anteriores à pesquisa, entre fevereiro e julho de 2025. No caso do crédito de curto ou médio prazo, 49% também não recorreram ao sistema financeiro no período. Apenas 26% contrataram ou renovaram crédito de curto prazo, percentual que cai para 17% quando se trata de operações de longo prazo.
Para setores industriais potiguares ligados à transformação mineral, alimentos, energias e atividades de apoio à cadeia de petróleo e gás em terra, o encarecimento do crédito reduz a capacidade de investimento justamente em um momento de transição tecnológica e de busca por ganhos de produtividade.
A pesquisa também aponta piora nas condições de acesso ao crédito para uma parcela relevante das empresas. Entre aquelas que renovaram linhas de curto ou médio prazo, 35% afirmaram que as condições — como taxas de juros, número de parcelas, carência e exigência de garantias — ficaram piores ou muito piores no período analisado. No crédito de longo prazo, 33% tiveram a mesma percepção. Para 47% dos entrevistados, as condições permaneceram semelhantes, tanto no curto quanto no longo prazo.
A melhora foi exceção: apenas 14% das empresas relataram condições melhores ou muito melhores na renovação de crédito de curto ou médio prazo, percentual que cai para 12% no caso do crédito de longo prazo.
Outro dado que chama atenção é a baixa disseminação do chamado risco sacado, modalidade de antecipação de recebíveis que pode aliviar o capital de giro. Apenas 13% das empresas industriais afirmaram ter contratado esse tipo de operação nos 12 meses anteriores à pesquisa, enquanto 54% disseram não ter contratado nem pretender contratar, e 29% não souberam ou não responderam. O dado indica baixa familiaridade do setor industrial com o instrumento, inclusive em economias regionais.
A Sondagem Especial nº 98 ouviu 1.789 empresas industriais — 713 pequenas, 637 médias e 439 grandes —, com questionários aplicados entre 1º e 12 de agosto de 2025. Para a indústria do Rio Grande do Norte, os resultados reforçam a avaliação de que o ambiente de crédito segue como um dos principais gargalos ao crescimento, limitando investimentos produtivos e a capacidade de o Estado avançar em cadeias de maior valor agregado.
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