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Sotaque potiguar

Música potiguar se renova com pluralidade e “DNA cosmopolita”

Diversidade de estilos e novos talentos consolidam Natal como celeiro cultural em expansão nacional
Nathallya Macedo
20/09/2025 | 05:06

Fértil e plural. A nova música potiguar se afirma não apenas pela diversidade de estilos, mas pela consciência de que a arte produzida no Estado carrega um papel simbólico: reconstruir a autoestima coletiva, reposicionar Natal no mapa cultural brasileiro e desafiar estigmas de invisibilidade. Nas vozes de artistas como Simona Talma, que tem longa carreira, de Cami Santiz, que se prepara para lançar o primeiro álbum, ou de Far From Alaska, banda de rock com projeção internacional, percebe-se uma cena pincelada para todos os ouvidos.

Esse olhar é reforçado por quem construiu os alicerces do cenário independente, como o produtor e idealizador do Festival DoSol, Anderson Foca. Ao apontar que a música potiguar já nasce com um “DNA cosmopolita”, ele reconhece que a diversidade de influências – do jazz ao forró eletrônico, do rock experimental às batidas dançantes – não é apenas estética, mas também fruto da história local.

Música potiguar se renova com pluralidade e “DNA cosmopolita”
Identidade mais dançante e ecletismo de artistas se consolidaram no cenário musical do RN nos últimos 15 anos - Foto: Taline Freitas

Assim, a produção musical do RN se consolida como um território de invenção e insistência. “Natal, como celeiro de artistas, sempre teve essa característica da cosmopolita. (…) Tem essa coisa da ocupação na época da Segunda Guerra, acho que por isso o jazz é forte. Nos anos 1980, por exemplo, tinha muita banda de blues. Acho que tudo isso forma uma cena muito diversa”, analisou, em entrevista ao AGORA RN.

Experiente, Anderson Foca acompanha a evolução da música potiguar há mais de duas décadas. “Temos lançado muita coisa nesses últimos tempos. Após a pandemia, têm saído muitos artistas novos. Claro que a música mudou, o jeito como se ouve música, como se consome. Do ponto de vista de desenvolvimento artístico, acho que continuamos gerando ótimos frutos”.

Ele aponta que, nos últimos 15 anos, uma identidade mais dançante também se consolidou. “Talvez o principal influenciador desse movimento seja a banda Dusouto. A gente entendeu uma ‘potiguaria’ mais perto da praia, mais malemolente, mais dançante. Aí veio Luísa e os Alquimistas, Soul Rebel, Orquestra Greiosa, Skarimbó. Acho que se explica por aí o nosso ecletismo de artistas tão diferentes vindos do mesmo lugar”.

O produtor cita artistas que despontaram recentemente. “Gracinha e Soul Rebel são nomes que a cidade abraçou. Vou citar Caridea também, que é uma banda de rock de Parnamirim, que também está agradando muito público. Esses três artistas, não por coincidência, são três artistas completamente diferentes”. Diferentes, mas com o mesmo sotaque.

Êxodo criativo: desafios logísticos impulsionam saída de artistas do RN

No entanto, dois problemas afligem artistas: o financeiro e o logístico. Anderson Foca pondera que, mesmo com reconhecimento local, a permanência em Natal não garante sustento financeiro consistente para bandas, tornando natural a busca por outros centros, como São Paulo e Rio de Janeiro.

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Produção musical do RN se consolida por invenção e insistência, destaca Anderson Foca – Foto: Taline Freitas

Observa, ainda, que esse êxodo criativo não deve ser entendido como falta de valorização, mas sobretudo como uma necessidade. Para ele, o Brasil, por ser um país continental, impõe desafios de circulação, e estar em São Paulo significa acesso facilitado a voos e conexões, o que amplia a possibilidade de tocar em diferentes estados.

Tradição e novas vozes

Presença marcante na música potiguar, Simona Talma acredita que a cena atual é parte de um processo histórico de resistência. Citando a atriz natalense Alice Carvalho, ela destacou: “Fazemos parte de um plano maior de reconstrução de uma autoestima coletiva. O quanto a sua geração teve que fazer, dando com os burros n’água, sem perder o elã, para que a minha geração, que se encontra com sua, pudesse aprender como se faz com a faca nos dentes?”.

Do RN, segundo Simona, saem talentos imensuráveis. “Cada um de nós, da música e de todas as artes, temos um papel nessa reconstrução. E mesmo que os passos sejam lentos e quase imperceptíveis como os meus, ou gigantes como os de Alice, Titina Medeiros, Juliana Linhares. Estamos agindo para a mudança da nossa comunidade. Que nunca mais se fale que Natal e o RN não são terras férteis para cultura e para arte”.

Ela, que chamou a atenção quando participou de um programa musical da TV Globo, sentiu o impacto pessoal de ter levado sua arte a um palco nacional. “Isso não afetou a minha carreira na perspectiva de resultado, de atingir mais pessoas, mas afetou profundamente a pessoa e a artista que sou. Me fez crescer como cantora, me trouxe uma visão de mundo mais ampla e uma maior auto percepção”.

Um nome em ascensão é Cami Santiz, que prepara o lançamento do seu primeiro álbum, SALINA, em outubro. Para ela, a nova geração da música potiguar reafirma a riqueza cultural do estado. “Fico feliz ao ver artistas como Juliana Linhares, Khrystal e Potyguara Bardo ganhando projeção nacional”, frisou.

A cantora lembra que os festivais potiguares foram decisivos para sua trajetória. “O DoSol foi meu ponto de partida. Foi onde fiz meu primeiro show e sou muito grata por terem acreditado em mim. Acho que sem essa oportunidade, demoraria para eu subir num palco. Depois veio o MADA, que foi meu segundo grande desafio. Adicionei ballet, ampliei a banda… A cada show, aprendo algo novo. Vejo minha evolução com carinho”.

O título do álbum, aliás, dialoga diretamente com o território potiguar: “O nome do disco é uma referência ao RN ser o maior produtor de sal marinho do Brasil. E assim como o sal, acredito que a arte potiguar está na mesa do brasileiro, mesmo que, muitas vezes, isso passe despercebido. Percebo que a música nordestina ainda é muito associada apenas a Salvador, Recife, Fortaleza, mas o Rio Grande do Norte também tem uma cena riquíssima”.

Cami também toca em outro ponto importante: ela vê a música como parte de um movimento de afirmação das mulheres na cena cultural. “Estamos ocupando espaços com muita determinação. Um exemplo é o grupo ‘Rosas na Cartola’, que criou um bar e espaço cultural na Ribeira; Tiquinha Rodrigues, rabequeira incrível e atuante em movimentos de povos de axé; Nathalia Santana, que produziu o festival ‘Ponto de Ebulição’, dando palco às cantoras do estado no teatro. Ana Morena, que vem há anos defendendo a existência de festivais independentes. Sem falar nas meninas da Guria Produtora, que atuam nos bastidores dos eventos. Claro que ainda somos minoria em várias áreas, mas a rede de apoio entre nós fortalece muito”.