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Clima

Natal terá diagnóstico inédito com rede de monitoramento climático, diz professor

Além das chuvas, o projeto prevê o monitoramento de calor extremo, um problema crescente na capital potiguar
Tiago Rebolo
05/06/2025 | 07:07

Natal caminha para ter, pela primeira vez, um diagnóstico climático preciso. É o que afirma o professor Cláudio Moisés, do Departamento de Ciências Atmosféricas e Climáticas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Ele ressalta que está em curso um projeto inédito de rede de monitoramento do clima que permitirá medir, em tempo real, variáveis como chuva, temperatura, vento e qualidade do ar.

A rede de monitoramento, que está em fase de implantação, terá detalhes apresentados nesta quinta-feira 5 em um evento que será realizado no Anfiteatro do Centro de Ciências Exatas e da Terra (CCET/UFRN). No mesmo dia, mais tarde, será instalada a primeira estação meteorológica no Parque da Cidade.

Natal terá diagnóstico inédito com rede de monitoramento climático, diz professor - Foto: Cedida
Natal terá diagnóstico inédito com rede de monitoramento climático, diz professor - Foto: Cedida

A iniciativa está ligada ao novo Plano Diretor da cidade e ao Plano Municipal de Mitigação e Adaptação às Mudanças Climáticas, elaborado em 2024 pela equipe da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Urbanismo (Semurb), com apoio da UFRN e outros órgãos.

A rede de monitoramento terá, entre outros equipamentos, 50 pluviômetros, quatro estações meteorológicas e 21 termo-higrômetros. Além disso, o plano prevê a montagem de uma sala de situação, para monitoramento dos dados e planejamento de ações de mitigação dos impactos da mudança do clima.

“Natal não tem um sistema de alerta. Quando chove muito, por exemplo, ninguém sabe exatamente onde choveu mais, quanto choveu ou se há lagoas de captação nas áreas mais atingidas. Isso impacta o trânsito, o comércio, a educação e até a saúde”, explica Cláudio, ressaltando a importância da iniciativa.
Ele ressalta que a montagem da rede é inédita. “É a primeira vez, no mandato anterior e agora da Prefeitura, que se teve essa preocupação e que está se implementando essa proposta. É a primeira vez que vai haver diagnostico climático em Natal”, acrescenta.

O professor do Departamento de Ciências Atmosféricas e Climáticas ressalta que a ausência de dados dificulta até mesmo a atuação da Defesa Civil. “No evento extremo de 2014, em Mãe Luíza, não se sabia quanto choveu. A rede de pluviômetros do Cemaden estava parada, não estava funcionando”, pontua.

O episódio citado por ele ocorreu em 2014, quando um deslizamento de terra provocou pelo menos uma morte e deixou dezenas de pessoas desabrigadas na região de Mãe Luiza, na Zona Leste da capital potiguar. A tragédia foi atribuída a fatores como as fortes chuvas e a falta de manutenção adequada em infraestruturas críticas, como caixas de esgoto, que já apresentavam sinais de deterioração antes do incidente.

Além das chuvas, o projeto prevê o monitoramento de calor extremo, um problema crescente na capital potiguar. “Natal é conhecida por ter muito sol e vento, muito estresse térmico em diversas áreas. Há relatos de problemas de saúde causados pelo excesso de calor. Precisamos de uma rede que também meça temperatura e vento”, detalhou.

Diagnóstico para poder intervir

A iniciativa se baseia em um princípio fundamental da ciência climática: só é possível intervir com precisão se houver diagnóstico correto dos problemas.

“É como se Natal fosse um paciente, reclamando de dor. O médico não pode dar remédio sem critério. Precisa fazer exames, fazer uma avaliação diagnóstica daquele paciente para fazer prognóstico e aplicar tratamento adequado. A mesma coisa acontece com a cidade. Não podemos só plantar arvore, aumentar lagoas, proibir construções, sob a alegação genérica de que isso vai ter impacto no clima… Como a gente pode dizer isso, se a gente não tem um diagnóstico? Se não temos uma rede de monitoramento para chegar a esse tipo de conclusão?”, afirmou.

Outro aspecto importante do projeto é a transparência. Os dados coletados pela rede de monitoramento serão públicos e integrados a várias secretarias da Prefeitura de Natal. “Essas informações estarão disponíveis para a Defesa Civil, a Secretaria de Saúde, que pode cruzar os dados com doenças provocadas por chuvas e esgoto, e também para a Secretaria de Educação, que poderá usá-los em ações de educação ambiental”, disse o professor.

A proposta também inclui uma sala de monitoramento que permitirá acompanhar em tempo real níveis de poluição, umidade, poeira e outras variáveis ambientais. “Hoje se fala que Natal tem ar limpo, mas não há medições que confirmem isso. A gente não sabe onde estão os focos de emissão de gases do efeito estufa. Estamos começando a sair desse apagão de informações”, afirmou.

A rede será essencial não apenas para enfrentar eventos extremos, mas também para planejamento urbano, prevenção de desastres e adaptação da cidade ao novo cenário climático.